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Filme biodegradável feito com fécula do cará pode reduzir uso de plástico na Amazônia

Compartilhe:     |  2 de dezembro de 2019

O recorrente descarte inadequado de substâncias no meio ambiente ocasiona uma série de impactos ambientais, tanto na Amazônia, como no restante do país. Com intuito de reduzir o alto índice de poluição e degradação da natureza, um filme biodegradável, produzido a partir da fécula do cará, foi desenvolvido para substituir os plásticos sintéticos – feitos com polímeros derivados de petróleo – comumente utilizados para embrulhar alimentos.

Existe ainda a expectativa de que o material seja aproveitado para fabricação de canudos.

A película, feita por meio da mistura de água, amido e pequena concentração de glicerol, é flexível, comestível, resistente e pode apresentar variadas espessuras. O ideal, é que não seja reutilizável, visto que se degrada num curto período de tempo em condições de temperatura ambiente. Com o descarte, leva cerca de dois meses para se dissolver, sem risco à natureza ou aos seres vivos.

Antes de atingir o ponto firme, a substância gelatinosa também pode ser aproveitada como revestimento para cobrir frutas e aumentar sua durabilidade. Por meio de testes, foi comprovado o maior prazo de consumo da manga e do tucumã, por exemplo – que normalmente se perdem em uma semana, em regiões de alta umidade. Os produtos ficaram preservados por quatro meses, quando o teste foi encerrado. A expectativa é de que com o avanço da tecnologia de alimentos seja possível aumentar este prazo, dependendo do alimento.

O projeto teve início ainda em 2017, quando a aluna de pós-graduação Ana Cecília Nina Lobato enxergou no cará, matéria-prima de fácil acesso no Amazonas, uma possibilidade de aperfeiçoar a elaboração de materiais biodegradáveis. A partir de fontes renováveis, o objetivo é manter, ou até mesmo melhorar, a qualidade e conservação dos alimentos embalados, e ao mesmo tempo reduzir o uso de embalagens convencionais.

A ideia foi desenvolvida durante uma dissertação de mestrado pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus.

Para chegar ao resultado considerado ideal para conclusão da pesquisa, foram realizados vários testes com diferentes tubérculos, como inhame e batata-doce, mas, segundo a pesquisadora e orientadora do INPA, Francisca do Amaral Souza, o produto que mais se destacou foi o cará roxo.

“Nós já trabalhávamos com, mas não nesta textura. Fizemos um piloto desse projeto com a criação de um gel para cobrir frutos da nossa região. Ele apresentou bons resultados, aumentando a vida útil dos produtos”, explicou.

Flexível, filme biodegradável possui alto teor nutritivo e pode ser consumido com os alimentos — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Flexível, filme biodegradável possui alto teor nutritivo e pode ser consumido com os alimentos — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Por se tratar de um produto comestível, foi constatado, segundo a pesquisadora, que o biofilme manteve grande parte das propriedades nutritivas do cará roxo, que é rico em minerais, possui alto valor energético e contém diogenina – fito-hormônio que auxilia na prevenção de doenças, redução de peso e regulação hormonal – em sua composição.

A pesquisa concluiu que o aproveitamento da fécula na forma de biofilme detém grande potencial tecnológico e nutricional, mostrando-se como uma alternativa promissora para a cultura.

No entanto, ainda não há uma previsão de lançamento do biofilme no mercado. O produto, segundo Francisca, está em fase de patenteamento e posteriormente será colocada à disposição das indústrias interessadas na produção em grande escala, tanto nos formatos mais espessos, como em gel.

Pesquisadora do INPA, Francisca Souza, com três amostras do biofilme de fécula do cará — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Pesquisadora do INPA, Francisca Souza, com três amostras do biofilme de fécula do cará — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Produção

Para o desenvolvimento da pesquisa, os tubérculos foram coletados em roças e quintais de agricultura familiar em áreas de Floresta Amazônica no município de Caapiranga, localizado na margem esquerda do Baixo Rio Solimões a 147 km da capital.

Os produtos passaram por processos de higienização, descascamento, corte, trituração, filtração, decantação e fermentação, lavagem do amido. Após a secagem, o amido foi peneirado, triturado em liquidificador doméstico e armazenado.

A elaboração dos filmes foi realizada em misturas de água-amido-glicerol, variando-se a concentração de glicerol. Em seguida, as misturas foram submetidas a aquecimento até a formação de um gel. O gel formado foi espalhado em placas e resfriado em estufa a 40 °C durante 48 horas, o que deu origem ao material de textura gelatinosa, flexível.



Fonte: G1 AM - Carolina Diniz



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