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Flagrante de beija-flor-tesoura em alto mar intriga pesquisadores; veja fotos

Compartilhe:     |  11 de agosto de 2020

Para bons frequentadores de “passarinhadas” uma saída pelágica é uma oportunidade de observar e fotografar aves marinhas. Através de expedições programadas por guias de natureza e biólogos, os apaixonados pelos pássaros percorrem ilhas, praias e muitos quilômetros mar adentro em busca de registros inéditos da fauna.

Foi em uma dessas situações que um flagrante extremamente incomum e ainda pouco explicado pôde ser feito pela enfermeira aposentada Rita de Cassia de Carvalho. Em um cenário perfeito para o clique de atobás, fragatas e gaivotões no litoral de Itanhaém (SP), um beija-flor-tesoura surpreendeu os observadores de aves. “Estávamos a 85 quilômetros da costa no ponto de observação de albatrozes e quando já tínhamos fotografado vários deles, de repente, apareceu esse beija-flor. Todos nós somos passarinheiros, mas costumamos ver o beija-flor na terra”, conta.

Beija-flor-tesoura é um dos maiores beija-flores brasileiros e recebe o nome pela repartição no rabo que se assemelha ao objeto  — Foto: Ananda Porto/TG

Beija-flor-tesoura é um dos maiores beija-flores brasileiros e recebe o nome pela repartição no rabo que se assemelha ao objeto — Foto: Ananda Porto/TG

O animal, considerado um dos mais comuns da espécie para se encontrar em solo firme, é um frequentador completamente inusitado das águas. Apesar da capacidade de percorrer longas distâncias em voo, o biólogo especialista em aves Vítor de Queiroz Piacentini destaca que essa situação foi totalmente acidental. “Beija-flor nenhum vai para alto-mar buscar recursos, não é um comportamento habitual pela biologia desses animais. O que provavelmente ocorreu é que, por conta do vento, a ave se perdeu”, explica.

O visitante inusitado da expedição ainda deu demonstrações curiosas de suas motivações. De acordo com Rita, a ave se aproximou muito do barco onde estavam, “parecia que queria falar” com os tripulantes. Foi então que voou próximo ao mar e provou um pouco da água. Segundo o especialista, o voo exaustivo causado pela desorientação do animal pode ter gerado cansaço e, com a sede e curiosidade, o beija-flor talvez tenha tentado experimentar um pouco da água.

Comum até mesmo em grandes metrópoles, beija-flor-tesoura surpreendeu observadores em alto mar — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Comum até mesmo em grandes metrópoles, beija-flor-tesoura surpreendeu observadores em alto mar — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

O biólogo Fábio Barata, que guiou a expedição, destaca também uma outra hipótese. “Existem pesquisas e matérias que citam as migrações de algumas espécies de beija-flores. Eles chegam a percorrer 2.200 km sem pausa, mas dessa espécie em especial [beija-flor-tesoura] eu não conheço nenhuma pesquisa”, comenta ele que também ressalta a proximidade do animal com o barco como uma possível tentativa de descanso, na ausência de ilhas ou plataformas.

Transformada pela observação

Se deparar com uma surpresa da natureza não é algo incomum na vida de Rita. Observadora de aves há seis anos, a enfermeira aposentada conta que só começou a ficar atenta às sutilezas da fauna quando passou por um período de grande dificuldade. “Estava ficando muito estressada com o dia a dia do trabalho, muito desgastada. Um dia comecei a observar as árvores no meu vizinho e parei um pouco para olhar os pássaros. Eu nasci naquela casa e a vida inteira, 50 dos meus 58 anos, nunca tinha me atentado aos passarinhos do vizinho”, conta.

Aves características de mares tropicais e subtropicais como os atobás foram flagrados na expedição — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Aves características de mares tropicais e subtropicais como os atobás foram flagrados na expedição — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Apesar de viver na cidade de São Paulo, a proximidade com um refúgio de Mata Atlântica nativa no Parque Vila dos Remédios apresentou um novo mundo a ela. A enfermeira, que trabalhava com tuberculose, hanseníase e outras doenças infecto-contagiosas graves, descobriu o fôlego provocado pela natureza. “Eu cheguei a ter muito problema com estresse e a tratar a depressão. Você ter o contato com a natureza livre e com os seres da forma mais ingênua possível é terapêutico. Eu como enfermeira posso dizer”, afirma.

Albatroz-de-nariz-amarelo é uma ave ameaçada e sua principal característica é o bico negro com uma faixa amarela — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Albatroz-de-nariz-amarelo é uma ave ameaçada e sua principal característica é o bico negro com uma faixa amarela — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Saída pelágica

De fotos registrando o momento da caça do lobo-marinho à aparição dos pinguins-de-magalhães, a saída pelágica que rendeu a foto do beija-flor-tesoura foi uma expedição repleta de achados. Na situação, os observadores aproveitaram a passagem de uma frente fria vinda do Sul do Brasil que aumentaria as chances de avistamento de aves marinhas.

“Para uma saída pelágica bem sucedida é necessário considerar aspectos como a temperatura da água, posição dos ventos e profundidade. Sabe-se que o mar calmo não é bom para as aves, quanto mais bravo melhor para observá-las”, comenta o biólogo Fábio Barata.

Saída pelágica feita em Itanhaém (SP) se iniciou às quatro da manhã e finalizou com o pôr do sol do mesmo dia — Foto: Marcelo H. Marques

Saída pelágica feita em Itanhaém (SP) se iniciou às quatro da manhã e finalizou com o pôr do sol do mesmo dia — Foto: Marcelo H. Marques

Do nascer ao pôr do sol do meio de julho, os 12 aventureiros foram guiados pelo comandante da embarcação até pontos favoráveis para a proximidade com tais espécies. “O que mais me encanta é que alguns desses animais que não sofrem tanto com a predação humana, vêm com inocência perto de nós”, comenta Rita Carvalho.

Na mesma situação, observadores se depararam com um tubarão filhote morto por anzóis e redes descartados no mar — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

Na mesma situação, observadores se depararam com um tubarão filhote morto por anzóis e redes descartados no mar — Foto: Rita Carvalho/VCnoTG

A enfermeira aposentada, que até alguns meses atrás fazia as passarinhadas sem focos estabelecidos, começou a sair em busca de espécies que ainda não têm registros e, por isso, se aventurou na saída pelágica. Na imensidão das águas, porém, um comum elemento da fauna foi quem surpreendeu. “Todos os pássaros que a gente avista geram um encantamento, porque quem gosta da natureza se encanta com tudo. Mas quando você vê algo tão pequenininho como o beija-flor, no meio do mar e chegando perto da gente…”, relembra ela.

Tesourão ainda jovem apresenta a cabeça ainda branca, diferente das aves adultas; ave foi flagrada na saída pelágica em Itanhaém — Foto: Eduardo Bergo/Acervo Pessoal

Tesourão ainda jovem apresenta a cabeça ainda branca, diferente das aves adultas; ave foi flagrada na saída pelágica em Itanhaém — Foto: Eduardo Bergo/Acervo Pessoal

Veja mais registros dessa expedição:

Pinguim-de-magalhães, espécie sul-americana, foi flagrado no caminho da costa se alimentando próximo ao barco de pescadores  — Foto: Elen Dias/Acervo Pessoal

Pinguim-de-magalhães, espécie sul-americana, foi flagrado no caminho da costa se alimentando próximo ao barco de pescadores — Foto: Elen Dias/Acervo Pessoal

Flagrantes de comportamento das aves marinhas também surpreenderam os observadores na saída pelágica — Foto: Fábaio Barata/Acervo Pessoal

Flagrantes de comportamento das aves marinhas também surpreenderam os observadores na saída pelágica — Foto: Fábaio Barata/Acervo Pessoal

Água-viva foi encontrada ao redor da Ilha Queimada Pequena em Itanhaém (SP) — Foto: Patrícia Hanate/Acervo Pessoal

Água-viva foi encontrada ao redor da Ilha Queimada Pequena em Itanhaém (SP) — Foto: Patrícia Hanate/Acervo Pessoal

Lobo-marinho-sul-americano, um mamífero aquático típico da América do Sul, foi fotografado durante predação em Itanhaém (SP) — Foto: Rodrigo Conte/Acervo Pessoal

Lobo-marinho-sul-americano, um mamífero aquático típico da América do Sul, foi fotografado durante predação em Itanhaém (SP) — Foto: Rodrigo Conte/Acervo Pessoal

Aves marinhas são consideradas aquelas que têm como habitat e fonte de alimento o mar — Foto: Daniel Assis Alfenas/Acervo Pessoal

Aves marinhas são consideradas aquelas que têm como habitat e fonte de alimento o mar — Foto: Daniel Assis Alfenas/Acervo Pessoal



Fonte: G1 - Por Gabriela Brumatti, Terra da Gente



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