Notícias

Florestas primárias: O que são e por que têm importância para o ambiente e o clima

Compartilhe:     |  29 de abril de 2021

Uma vez perdida, por queimadas ou desmatamento, vegetação sinônimo de riqueza à biodiversidade não pode ser recuperada

Uma vegetação sem interferência humana, conservada desde os seus primórdios. São as chamadas florestas primárias, que têm uma relação com o seu ecossistema bem mais complexa do que uma floresta já alterada. Com copas das árvores em pleno preenchimento e riquíssima biodiversidade, elas são importantes para a conservação de solo e a dinâmica dos recursos hídricos.

Edenise Garcia, diretora de ciência da organização The Nature Conservancy (TNC), define como um processo de sincronia. “Ela já viveu por muito tempo e atingiu um clímax, uma condição de equilíbrio, com árvores grandiosas, espécies que se adaptaram e estabeleceram uma relação na cadeia alimentar, que contribui para a própria manutenção da floresta”, conta.

Mas essa riqueza natural vem diminuindo. O mundo perdeu mais áreas de floresta primária no ano passado. De acordo com dados da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, compilados pela plataforma Global Forest Watch, houve uma redução de 12,2 milhões de hectares em 2020, 12% a mais que a registrada em 2019.

O Brasil liderou o ranking de supressão desse tipo de área nos dois últimos anos. Relacionada às queimadas e ao desmatamento, a redução no país foi de 1,7 milhão de hectares em 2020, três vezes mais do que o segundo colocado e 25% maior em comparação com o ano anterior.

Uma floresta primária bem conservada é importante para a oferta de água, cujo ciclo é composto pelo solo, árvores, lençol freático e chuvas. A floresta absorve água do solo. Pelo processo de evapotranspiração, a árvore remete essa água para a atmosfera, contribuindo para o microclima e também o clima regional.

“Quando você tem vegetação natural, você intercepta essa água, ela tem obstáculos, tendo mais tempo para infiltrar no solo e isso faz com que o lençol freático seja abastecido e a vazão de rios seja mais ou menos estável”, explica Edenise. Em um local sem vegetação, florestas e com solo empobrecido, a água vai rapidamente para os rios, sem tempo de penetrar nas várias camadas do solo.

“Todo esforço do mundo para reflorestar não paga a perda da derrubada da floresta primária”

Edenise Garcia, diretora de ciência da TNC

Por isso é importante a preservação. E o mais preocupante: florestas primárias não podem ser recuperadas. Reflorestamento, recuperação de áreas degradadas ou implantação de sistemas agroflorestais não são capazes de reviver a mesma dinâmica de solo e de recursos hídricos de uma vegetação original.

Edenise comenta que, à medida que acontece o desmatamento, há redução do recurso hídrico local, a exemplo dos rios secando mais rápido, o que afeta a agricultura mesmo com a irrigação. “Você pode estar reduzindo aquele recurso e em poucos anos a reposição de água demora, aí a água na camada subterrânea não é o suficiente e não há reabastecimento”, resume.

De acordo com Cristiane Mazetti, gestora ambiental pela Esalq/USP e porta-voz de florestas do Greenpeace, as florestas primárias armazenam um estoque muito alto de carbono, que não é possível ser sequestrado com a simples “substituição” de florestas. Por isso, a permanência da vegetação original é chave para desacelerar as mudanças climáticas. Toda a dinâmica entre seres vivos e ambiente contribuem também para o papel da floresta na formação das chuvas, como o caso da Amazônia.

“Esses ecossistemas são mais resilientes aos impactos das mudanças climáticas, menos propensos a serem atingidos pelas secas e pelo fogo. Então, todos esses serviços ambientais demandam tempo, sendo fundamentais à agricultura familiar e ao agronegócio. Com uma alteração, isso pode mudar o clima regionalmente e afetar a produtividade”, observa.

Mesmo com o replantio, não é mais a mesma floresta. “Pelo menos não antes de um século”, acrescenta Edenise Garcia. “A floresta plantada pode ter esse papel a longo prazo, mas no começo, tem um momento em que as árvores estão crescendo, elas tiram bastante água do solo para poder crescer nessas regiões”, acrescenta.

A vegetação secundária, do reflorestamento, tende a apresentar menos variedade de ecossistemas, inclusive com espécies arbóreas chamadas de oportunistas, que crescem com facilidade.

“Claro que é importante regenerar os ecossistemas degradados, que podem auxiliar na capacidade de reter carbono ou reverter riscos de extinção. De um lado temos que parar atividades de alto impacto que degradam as florestas primárias e, em paralelo, conduzir a restauração de florestas”, esclarece Cristiane, do Greenpeace.

“Todo esforço do mundo para reflorestar não paga a perda da derrubada da floresta primária. Em termos de carbono e recurso hídrico, o retorno é muito mais demorado quando há perda bruta da floresta primária. Primeiro você evita [desmatamento e queimada], depois passa para uma reposição da floresta secundária”, acrescenta Edenise, da TNC.

Biomas

Com base no sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as pesquisadoras estimaram a perda da floresta primária nos biomas brasileiros. Cristiane aponta que no Cerrado chega a próximo de 100%, assim como na Mata Atlântica, onde há menos de 10% da área original. Na Amazônia, houve pouco menos de 20% de perda.

Para manter a formação primária, ela ressalta a importância de alocar estas áreas como Unidades de Conservação, Terras Indígenas e retomar a fiscalização e plano para controle de forma efetiva.

“É uma prioridade a destinação de áreas públicas para interesse coletivo, com benefícios para a sociedade. A bancada ruralista diz que é preciso regularização da terra para diminuir o desmatamento, mas, com a flexibilização proposta, os grileiros podem conseguir a regularização fundiária e isso é privatizar”, diz, criticando a atuação de parlamentares ligados ao agronegócio na regularização fundiária.

“É preciso uma visão a longo prazo, pensar qual será legado. Só o grão de soja, num ambiente quente, mais seco, com eventos climáticos extremos, vale a pena?”

Edenise Garcia, diretora de ciência da TNC

No Pantanal, conta Edenise Garcia, de 18 milhões de hectares no total, 5 milhões são de floresta primária suprimida, “por ligação com a ação humana, seja pelo manejo do fogo, seja pelas mudanças climáticas”. Ao observar o bioma, ela lamenta a perda de sombra, baixa capacidade de infiltração de águas e baixa presença de polinizadores.

“Você pode achar que ganhou pelos hectares para plantar, mas perdeu muitas outras riquezas. Essa percepção de derrubar floresta para ter área é perda de tempo. É preciso uma visão a longo prazo, pensar qual será legado. Só o grão de soja, num ambiente quente, mais seco, com eventos climáticos extremos, vale a pena?”, questiona.



Fonte: Globo Rural - MARIANA GRILLI



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Lei que proíbe piercings e tatuagens em animais é sancionada no Distrito Federal

Leia Mais