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Fruto da palmeira juçara vira fonte de renda e preservação da Mata Atlântica em São Paulo

Compartilhe:     |  10 de agosto de 2019

A palmeira juçara é nativa da Mata Atlântica, conhecida pelo palmito de boa qualidade. O problema é que é preciso derrubar a árvore para retirar o produto, e a exploração sem planejamento colocou a espécie em risco.

Para utilizar a planta de uma maneira mais sustentável, uma comunidade de agricultores do Vale do Paraíba, em São Paulo, está retirando os frutos da juçara em vez de retirar o palmito.

No bairro rural de Ubatumirim, no município de Ubatuba, a região tem muita concentração da planta. O líder comunitário Jorge Alves Júnior calcula que na região há pelos menos 400 palmeiras juçaras por hectare, talvez a maior concentração dessa planta em toda a Mata Atlântica.

Júnior explica que a grande quantidade se explica pelo uso que o caiçara faz da planta ao longo dos séculos e que ajuda a preservar a mata. A comunidade é uma das que estão dentro no Parque Estadual da Serra do Mar, o maior corredor biológico da Mata Atlântica brasileira.

“A população sempre fez um manejo de uma forma que tenha para o filho, tenha para o neto. Essa consciência do povo caiçara que fez a diferença”, explica Alves.

O cenário não se repete em outros lugares, tanto que a palmeira juçara é uma espécie em extinção. O problema é que, para tirar o palmito, é preciso matar a planta, já que se trata de uma palmeira de caule único.

Coquinho

O Projeto Juçara, desenvolvido durante 10 anos pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema), valorizou o fruto da palmeiras, o coquinho, no lugar do palmito, garantindo a preservação da palmeira mata adentro.

“Eles [Projeto Juçara] sabem como manejar a juçara, para manter as matrizes, e, por outro lado, isso traz uma geração de renda para a própria comunidade. E a floresta fica em pé”, explica a gestora de núcleo do Parque Estadual da Serra do Mar, Camila de Oliveira.

A engenheira florestal do Ipema Cristiana Reis é uma das responsáveis por essa iniciativa que introduziu um manejo mais amigável no uso da palmeira. Ela explica que a garantia de renda por meio do coquinho foi fundamental para a longevidade do projeto.

“Ela [juçara] se sobressaiu diante das outras espécies por ser uma espécie que gerava uma renda imediata”, reforça.

‘Açaí da Mata Atlântica’

O coquinho da juçara é parecido com o açaí, é difícil diferenciar a polpa de um e do outro. Por causa desse “parentesco”, ele está sendo chamado de “açaí da Mata Atlântica”.

Ambas gostam muito de chuva, uma característica de Ubatuba. Quem frequenta conhece o apelido da cidade: “Ubachuva”.

Polpa da juçara e do açaí são muito parecidas — Foto: TV Globo

Polpa da juçara e do açaí são muito parecidas — Foto: TV Globo

“São espécies diferentes e isso implica em diferenças de manejo importantes”, explica o engenheiro agrônomo Antônio Marchiori. “O manejo do açaí já foi mais estudado. É uma coisa que a gente não tem ainda com a juçara. É uma planta menos estudada, mas com grande potencial.”

Neste ano, os produtores ligados a Associação de Ubatumirim devem beneficiar algo em torno de 8 toneladas do creme do fruto, o que ainda é pouco para atender grandes mercados.

Boa parte da polpa produzida na comunidade é comprada pela Prefeitura de Ubatuba, dentro do Programa Nacional de Alimentação Escolar. O uso do fruto na alimentação dos alunos é fundamental para adaptar o paladar das crianças.

“(A juçara) é um pouquinho mais frutada, mas mesmo assim ela é bem parecida [com o açaí]. Nem todo mundo consegue diferenciar qual é qual”, conta a agricultora e bióloga Tamie Nezu.

Suco da juçara é servido em escolas de Ubatuba — Foto: TV Globo

Suco da juçara é servido em escolas de Ubatuba — Foto: TV Globo

Sustentabilidade

Depois que o coquinho da juçara é despolpado, sobram as sementes, que voltam para a mata. O plantio que recompõe as palmeiras virou rotina na comunidade e na vida dos irmãos Lucas e Luís Felipe Bredariol.

“A juçara é uma planta que produz muita semente, mas nem todas chegam na idade adulta. Então, plantar uma quantidade grande de semente aumenta a chance da gente ter um uma boa quantidade de juçara no futuro”, explica Lucas.

Na propriedade de quatro hectares, os dois irmãos usam apenas um hectare para a agricultura, o restante é floresta. Na área de produção, eles implantaram um consórcio de árvores, frutas, legumes e hortaliças, inclusive a juçara, que ainda está no início de produção.

Enquanto as palmeiras da agrofloresta estão novas demais para dar frutos, Lucas e Luís Felipe tiram os coquinhos de dentro da mata.

“Para mim, a Juçara é até uma planta sagrada. Representa abundância, fartura, vida. É um estilo de vida assim para a gente”, diz Lucas.



Fonte: Globo Rural



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