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Fungo negro pode afetar as crianças? Entenda a doença e qual a relação com covid-19

Compartilhe:     |  4 de junho de 2021

Infecção costuma acometer pacientes que estão com a imunidade baixa, por isso, quem teve a forma grave da covid-19 pode ser mais suscetível

Há algumas semanas, os casos de fungo preto, nome popular dado à mucormicose, na Índia, têm assustado também no Brasil – principalmente depois que a variante indiana da covid-19 foi diagnosticada por aqui. Mas quais os riscos da doença? E qual a relação dela com a pandemia em curso em redor do mundo?

CRESCER conversou com o infectologista pediátrico Renato Kfouri, vice-presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP); e com o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da SBP, que explicam como a doença se desenvolve e o que a covid-19 pode ter a ver com a infecção.

Pacientes que foram entubados ou precisaram de internação de UTI têm mais chances de desenvolver a infecção (Foto: Pexels)

Pacientes que foram entubados ou precisaram de internação em UTI têm mais chances de desenvolver a infecção (Foto: Pexels)

Antes de mais nada, cabe explicar que a infecção por fungo negro é grave e rara, e costuma acometer pessoas que estão com a imunidade comprometida. “É como uma micose, que pode acometer indivíduos com baixa resistência no corpo, aqueles que têm diabetes, HIV, ou qualquer doença crônica que leve a uma redução da imunidade. Essa condição predispõe o paciente a infecções por fungos – e o fungo negro é um deles”, explica Kfouri.

Só neste ano, segundo o Ministério da Saúde, 29 casos de mucormicose foram diagnosticados no Brasil, sendo quatro após infecção por covid-19: em Araguaína (PA), Fortaleza (CE), Natal (RN), e São Paulo (SP). Mas o fungo negro já circula no país há anos. Ele vive no ambiente, na nossa pele, está em circulação e se aproveita da baixa resistência para se multiplicar e, eventualmente, causar doença. Vale ainda esclarecer que esclarecer que a mucormicose não é uma doença infecto-contagiosa, não havendo transmissão entre pessoas.

“Entendemos que é improvável vivenciarmos no Brasil o cenário descrito na Índia, onde outros surtos de mucormicose já ocorreram no passado, e que vive atualmente uma epidemia de milhares de casos de mucormicose em pessoas com covid-19, muitas delas portadoras de diabetes mellitus não adequadamente controlados e que utilizaram doses elevadas de corticoesteróides durante o tratamento da covid-19”, explica o médico Marco Aurélio Sáfadi.

“Não é uma doença nova, não é um surto em andamento. As infecções fúngicas podem ser uma complicação de pacientes graves, inclusive por covid-19, que por si só, como qualquer infecção respiratória em sua forma mais grave, é uma doença debilitante. Por isso, não é impossível imaginar que um paciente que teve covid grave tenha mais risco de ter essa complicação, mas isso vale para qualquer quadro grave em que o paciente tenha sido, por exemplo, entubado ou tenha ficado em terapia intensiva. Esses são fatores de risco que, associados a uma doença de base, elevam a chance da infecção”, diz o especialista.

O Ministério da Saúde reforça que os casos de fungo negro não têm, até o momento, relação com a variante indiana do coronavírus, tendo em vista que os casos ocorreram antes da detecção dessa cepa no país, de acordo com o governo. O Ministério ressalta ainda que a maioria dos casos de mucormicose registrados ocorreram em pacientes portadores de comorbidades.

Com relação à possível alta dos casos de mucormicose relacionados à pandemia, a pasta diz que não tem série histórica sobre fungo negro, considerando que não é uma doença de notificação compulsória. “Entretanto, de acordo com a distribuição anual dos pacientes que fizeram uso do Complexo Lipídico de Anfotericina B para o tratamento de mucormicose, entre janeiro de 2018 até a presente data, foram registrados um total de 137 casos da doença no Brasil. O ano de 2019 foi o que apresentou o maior número de registros, com 47 casos. Em 2018 e 2020 foram apontados, respectivamente, 25 e 36 casos”, diz o Ministério.

Entenda a doença

Uma infecção fúngica pode causar infecção generalizada, a sepse por fungo, por isso é perigosa, e pode evoluir para coma e óbito. A infecção geralmente se manifesta na pele, e pode se espalhar para outras partes do corpo, mas costuma se desenvolver em pacientes já em estado grave por uma condição anterior.

Segundo Sáfadi, a característica clínica mais marcante da mucormicose invasiva é a necrose tecidual resultante da angioinvasão e trombose subsequente (a pele fica com tom escuro, por isso o nome fungo negro). “Na maioria dos casos, a infecção é rapidamente progressiva e resulta em morte, a menos que os fatores de risco subjacentes sejam corrigidos e o tratamento agressivo com agentes antifúngicos e excisão cirúrgica seja instituído.”

Há seis principais formas da doença: rino-cerebral, cutânea, pulmonar, gastrointestinal, disseminada e formas raras – como endocardite, osteomielite, peritonite e infecção renal. Os locais mais frequentes de acometimento de mucormicose invasiva são os seios da face (39%), os pulmões (24%) e a pele (19%). Os sintomas da mucormicose dependem do local acometido e da forma clínica de apresentação da doença, o que também definirá o tratamento mais adequado. E vale destacar que crianças raramente são acometidas por esta doença.

Outros casos suspeitos pelo país

A Secretaria da Saúde de Joinville acompanha um possível caso de mucormicose (fungo negro) relacionado com a covid-19. O paciente é um homem de 52 anos, com diabetes mellitus e artrite reumatoide. Ele apresentou os primeiros sintomas gripais em fevereiro, e três dias depois foi confirmado com o coronavírus. Ele chegou a ser internado, teve alta, e voltou a ser internado na última semana após apresentar uma celulite facial, que prejudicou parcialmente a sua visão. Atualmente, segue internado, com monitoramento constante.

No Amazonas, outro caso suspeito de mucormicose também está sendo investigado. Segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, o paciente – um homem de 56 anos – era morador de Manaus, e tinha diabetes tipo 2. Ele foi internado em 12 de abril, e faleceu no dia 16. Ele já tinha tomado a primeira dose da Coronavac, apresentou sintomas gripais dias depois, mas testou negativo para covid-19. Ele também apresentou prurido no olho direito, que evoluiu para infecção local. O caso está sendo investigado.

O Hospital das Clínicas de São Paulo também emitiu um alerta para o Ministério da Saúde, informando que identificou um caso de fungo negro em um paciente com covid-19.



Fonte: Revista Crescer - NATHÁLIA ARMENDRO



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