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Fungo que ataca morcegos está na mira de biólogos americanos

Compartilhe:     |  30 de março de 2019

Cinco biólogos especializados em animais silvestres, com lanternas presas na cabeça, subiram a encosta de uma montanha e entraram em uma mina abandonada. Observaram os morcegos do tamanho de ratos, delicadamente os tiraram das paredes e os depositaram em sacos de lona.

A expedição realizada em novembro fazia parte de uma iniciativa adotada na América do Norte para avaliar a rapidez com que uma doença provocada por fungos que afeta estes mamíferos, a síndrome do nariz branco, se comportará ao chegar ao oeste dos Estados Unidos. “A síndrome do nariz branco é uma das doenças mais graves que atacam animais silvestres nos tempos modernos”, escreveram os autores de um recente estudo publicado na revista “M-Sphere”, da Sociedade Americana de Microbiologia. Desde 2006, a moléstia matou milhões de morcegos e ameaça muitas espécies anteriormente abundantes de extirpação ou extinção”.

A síndrome do nariz branco tem este nome por causa das manchas peludas que aparecem nos narizes e asas dos morcegos. Nos últimos dez anos, agências estaduais, federais e tribais, juntamente com organizações sem fins lucrativos, estiveram trabalhando na tentativa de encontrar um remédio para salvar as 47 espécies de morcegos da América do Norte. Até o momento, a síndrome desafiou todos os esforços.

Depois de recolher cerca de 3o animais das paredes da mina, os pesquisadores levaram os sacos para um trailer onde estava instalada uma máquina de ressonância magnética para animais e um respirômetro com um emaranhado de tubos plásticos, para pesar e medir os morcegos. “Esta pesquisa poderá informar quais são os morcegos mais sensíveis e quais serão resistentes, permitindo estabelecer a estratégia de conservação e intervenção a ser adotada”, disse Sarah II. Olson, diretora da saúde da vida animal da Wildlife Conservation Society.

A doença foi descoberta em uma caverna nos arredores de Albany, estado de Nova York, em 2006, após ter sido provavelmente introduzida inadvertidamente a partir da Eurásia. O patógeno se espalhou por pelo menos 36 estados americanos e sete províncias do Canadá, matando colônias inteiras de morcegos, por um total de mais de seis milhões. Sua perda poderá ter consequências graves: os morcegos desempenham um papel ecológico crucial, polinizam as plantas e controlam os mosquitos e outros insetos.

Depois de provocar graves danos na costa leste dos EUA e infectar uma região isolada perto de Seattle, a síndrome do nariz branco avança para as outras regiões do oeste do país infectando em média um estado por ano. O que significa que, nos próximos anos, poderá chegar a milhares de cavernas e minas abandonadas das Montanhas Rochosas, onde os morcegos passam o inverno. Os morcegos que estiverem hibernando muito provavelmente serão afetados. Os cientistas acreditam que a estratégia de combate à doença é um conhecimento mais profundo da fisiologia da hibernação destes mamíferos.

Mas alguns especialistas afirmam que os esforços para tratar ou mesmo pesquisar a doença poderão provocar mais danos do que benefícios. “Interromper a sua hibernação causa um stress no momento menos propício para eles”, disse Merlin Tuttle, especialista em morcegos no Texas.

“Não existe nenhuma maneira prática de reduzir o avanço e muito menos detê-lo e eliminar esta doença na natureza; ela já aparece em milhares e milhares de pontos”, afirmou. “Talvez fosse aconselhável deixar que seguisse o seu curso. Se tentarmos encontrar um tratamento, estaremos apenas desperdiçando dinheiro. Ao contrário deveríamos gastar os nossos recursos procurando o máximo de proteção para os morcegos que sobreviveram e ajudá-los e recuperar e a reconstruir suas populações”.

Quando hibernam, de novembro a abril, os morcegos reduzem os batimentos cardíacos e a respiração por três semanas seguidas. Depois, durante dois dias, se levantam para beber água e se acasalarem antes de voltar a dormir. Os morcegos infectados acordam a cada sete dias, porque a doença do nariz branco provoca desidratação e eles precisam beber.

“Durante o torpor, eles praticamente não queimam energia”, disse Nathan W. Fuller, um biólogo em pós-doutorado da Texas Tech University que faz parte da equipe. “Ao despertar, a gastam em grande quantidade. Embora isto ocorra apenas em 5% do seu tempo, isto representa 95% da sua energia. A questão é realmente saber quantas vezes eles despertam”.

O gasto maior de energia faz com que eles consumam a gordura armazenada para sobreviver durante a hibernação, e se enfraquecem. Eles podem morrer na caverna, ou deixá-la mais cedo em busca de alimento no inverno ao qual não poderão sobreviver. É por isso que esta equipe gastou tanto tempo e dinheiro com equipamentos para compreender os segredos da hibernação dos morcegos. Quando a coleta de dados básicos estiver concluída, “em áreas onde a doença ainda não chegou, como esta, poderemos criar um modelo de previsão baseado na ecologia, fisiologia, genética e química da pele”, explicou Jonathan Reichared, um funcionário do United States Fish and Wildlife Service.

Os biólogos estudam a possibilidade de deixar alimentos nas cavernas ou de alimentar os morcegos com probióticos ou eletrólitos, ou ainda aplicar tratamentos químicos à pele para matar o fungo. Inclusive fumigaram as cavernas com agentes fungicidas. A exposição dos morcegos infectados à luz ultravioleta também se mostra um recurso promissor.

Tuttle alerta que estes experimentos podem fracassar. O uso de algum produto para matar o fungo acabará matando outros fungos ou microorganismos na caverna causando novas reações em cadeia e problemas muito maiores do que o que queremos combater”.



Fonte: Gazeta Online



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