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Genética amplia mistério do lago dos esqueletos de origem desconhecida

Compartilhe:     |  22 de agosto de 2019

Na vertente indiana do Himalaia, a mais de 5.000 metros de altura, encontra-se um lugar com todos os clichês de mistério. A lagoa Roopkund tem 40 metros de diâmetro e nas poucas semanas do ano em que não está congelada revela no seu interior os ossos de centenas de seres humanos aos quais deve seu apelido, Lago dos Esqueletos. Apesar do interesse que há anos desperta entre os alpinistas, até o começo deste século a origem daqueles restos não havia sido estudada.

Foram encontrados os restos de 14 indivíduos de origem mediterrânea que morreram por volta de 1800

Agora, uma nova análise de 38 esqueletos recolhidos ao redor da lagoa oferece mais informações e amplia os mistérios. A equipe internacional liderada pelo geneticista David Reich, da Universidade Harvard (EUA), e por Niraj Rai, do Instituto do Paleociências Birbal Sahni, em Lucknow (Índia), realizou várias análises que separaram aqueles indivíduos em três grupos. Contrariando o que se acreditava até agora, muitas das vítimas jamais se conheceram, morreram separadas por séculos de intervalo e, provavelmente, procediam de regiões separadas por milhares de quilômetros.

A datação por carbono radiativo concluiu que 23 indivíduos tinham morrido entre os séculos VII e X, provavelmente em vários momentos distintos. A análise genética desse grupo indica também que todos eles estão relacionados com os atuais habitantes da Índia, mas não eram parte de uma só população.

Restos de esqueletos dispersos ao redor da lagoa Roopkund.
Restos de esqueletos dispersos ao redor da lagoa Roopkund. HIMADRI SINHA ROY

O mais surpreendente nestes resultados, publicados na revista Nature Communications, chega com o segundo maior grupo, formado por 14 indivíduos. O carbono indica que morreram por volta do ano 1800, e a genética revela que seus parentes mais próximos vivem hoje no Mediterrâneo oriental, mais concretamente na ilha de Creta e outras partes da Grécia. O que faziam, dois séculos atrás, 14 viajantes da parte mediterrânea do Império Otomano em uma lagoa do Himalaia, a 5.000 metros de altura? Seria possível imaginar que aqueles estrangeiros eram descendentes dos guerreiros que conquistaram a região vários séculos antes, junto com Alexandre Magno, mas a análise genética não registra as misturas que se certamente teriam ocorrido durante mais de um milênio na Índia.

Para a chegada do primeiro grupo de esqueletos, a viagem por motivos religiosos parece, segundo os investigadores, uma explicação plausível. “A prática de peregrinações a lagos assim, ou inclusive a vales ou picos montanhosos da região, foi frequente há séculos, então consideramos que é o modo mais provável pelo qual os restos acabaram depositados ali”, afirma Ayushi Nayak, pesquisadora do Instituto Max Planck para o Estudo da História Humana, em Jena (Alemanha) e coautora do estudo. Entretanto, Nayak reconhece que, apesar de haver uma grande quantidade de lagos semelhantes com significado religioso no Himalaia, não se sabe de nenhum outro “que tenha restos humanos pulverizados a seu redor como o lago Roopkund”.

Mais de mil anos transcorreram entre os primeiros mortos e os últimos, e entre os cadáveres há 23 homens e 15 mulheres

Outro dado interessante publicado pela equipe de Reich e Rai é a elevada proporção de mulheres (15) para homens (23) entre os mortos. Isto tornaria improvável a hipótese de expedições militares. Além disso, os indivíduos sequenciados não eram parentes próximos (de terceiro grau ou mais próximo), afastando assim a ideia de que os esqueletos pertencessem a grupos familiares.

Por enquanto, apesar da grande quantidade de informação oferecida por este último estudo, a lagoa Roopkund não perderá nada do seu mistério. Inclusive Rai, o autor principal, mostra seu assombro com o fato de que “tantos indivíduos tenham viajado até este lago”, levando-se em conta que chegar até lá “é muito arriscado e exige três dias de ascensão”. “Estamos surpresos por ver tanta atividade humana”, mas “nossos estudos não podem responder o motivo pelo qual foram até lá”, conclui. Sobre a possibilidade de que os viajantes mediterrâneos fossem pioneiros do turismo que hoje inunda a região, o pesquisador se mostra cético: “Até 10 ou 15 anos atrás não havia atividade turística neste lago, mas não podemos rejeitar completamente essa interpretação”.



Fonte: EL PAÍS - DANIEL MEDIAVILLA



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