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Há 100 anos, ensaio de Freud ajudava a compreender o arrepio do horror

Compartilhe:     |  6 de setembro de 2019

Todos conhecemos a expressão “horror (ou terror) psicológico”. É uma daquelas generalizações que usamos de forma quase automática, muitas vezes sem pensar direito sobre seu significado. “Aquele filme novo é de horror psicológico”; “o lançamento do Stephen King aposta no horror psicológico”; “a franquia de games Silent Hill é totalmente voltada para o horror psicológico”.

Na concepção mais difundida, as narrativas de “horror psicológico” remetem ao desconforto mental causado por alguma história. Se perguntarmos aos nossos interlocutores o que eles querem dizer quando categorizam um filme ou um livro dessa forma, provavelmente justificarão pelo “clima”, pela “atmosfera” da narrativa em questão. Se os provocarmos um pouco mais, é provável que concluam que são histórias em que predomina aquilo que está implícito. E que, contrapostas às obras de horror mais “tradicionais”, ou explícitas, são narrativas que ocultam em vez de mostrar, ou que sugerem, e às vezes perguntam, em vez de explicar.

Em essência, a própria sensação de horror é psicológica. Seja deflagrada por aquilo que vemos ou pelo que intuímos, ela se opera no nível mental, da nossa psique. No caso da literatura e do cinema, é causada por uma ameaça que, graças ao engenho dos artistas, sobrepõe-se às nossas noções do que é real ou irreal. De alguma forma deixa de ser relevante, para o nosso corpo, o fato de estarmos seguros em uma poltrona; e passa a ser relevante a situação proposta pelo filme ou pelo livro. A tensão se reflete em nossos músculos, apura nossos sentidos e pode nos levar a extremos, como saltar da poltrona, só porque o vento bateu a janela ou o gato derrubou algo na cozinha.

O termo intraduzível
Sigmund Freud também se deteve no assunto. O resultado mais conhecido dessa pesquisa é o longo ensaio “Das unheimliche”, publicado pela primeira vez há 100 anos, em 1919. No texto, o fundador da psicanálise reflete sobre obras “que dizem respeito ao aterrorizante, ao que suscita angústia e horror” para investigar as origens do efeito por ele nomeado como unheimlich.

O termo alemão tem etimologia complexa: “heimlich” significa “doméstico, familiar, pertencente à casa”, mas o prefixo “un” inverte esses conceitos. Por isso, a tradução exata para o português é inviável. No Brasil, o conceito já foi vertido como O Estranho (Imago, 1990) e O Inquietante (Cia das Letras, 2010).

Em uma recente edição comemorativa, os tradutores Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares optaram por verter “Das unheimliche” como O Infamiliar (Autêntica, 2019). O que nos parece acertado, uma vez que a formulação se mantém mais próxima da conceituação original do alemão. E também porque alude ao que “nada tem realmente de novo ou de estranho, mas é algo íntimo à vida anímica desde muito tempo e que foi afastado pelo processo de recalcamento”, conforme postulou Freud.

Esse retorno daquilo que há muito era conhecido por nós, mas que por algum motivo tornamos alheio, estranho, infamiliar, é especialmente assustador. Para Freud, tal movimento pendular desperta as sensações de estranheza e de horror vinculadas a narrativas como O Homem da Areia (Der Sandmann, 1816), a novela de E.T.A. Hoffmann que foi objeto de análise no ensaio.

Preenchendo os vazios
Para os autores desta coluna, a teoria freudiana ajuda a explicar o assombro que sentimos diante de muitas narrativas literárias de horror — sobretudo aquelas de cunho “psicológico”. Afinal, tratam-se de obras que concedem maior espaço para os leitores, convocando-os a uma participação intensa na construção da narrativa.

Tomemos como exemplo o norte-americano H.P. Lovecraft, um dos maiores nomes da literatura de horror. Suas histórias desenvolvem-se como inúmeras outras do início do séc. XX – de forma realista, plausível, racional. São expedições que partem rumo ao pólo sul, relatos escritos à luz mortiça de uma vela na madrugada de um claustro, retiros em regiões rurais isoladas.

 

Um encontro com (nossos) fantasmas
Acontece o mesmo em celebradas ghost stories, como A Volta do Parafuso (The Turn of the Screw, 1898), obra-prima do norte-americano naturalizado inglês Henry James. Poucas histórias assombram tanto quanto a da jovem babá que vai cuidar de um casal de irmãos em uma mansão, após os empregados anteriores terem desaparecido misteriosamente.

A construção de James é minuciosa e labiríntica – cheia de reentrâncias psicológicas, sobretudo da narradora e das crianças. É desejável, ou inevitável, que nos percamos por esse espaço propositadamente confuso. Vamos tateando pelos cômodos escuros e os arredores da mansão Bly até que nos deparamos com a luminosidade mortiça das aparições, em cenas magnificamente arranjadas. E graças ao gênio do autor, a maioria de nós leva algo de particular para esses encontros; aquilo só nosso que se associa às ameaças da história, algo que deveria permanecer no passado, mas que retorna.

As oscilações da Casa da Colina
Na esteira de Henry James, encontramos outra ghost story cuja força o conceito de unheimlich/infamiliar ajuda a explicar: A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson (The Haunting of Hill House, 1959).

A oscilação entre o que é familiar e o que é estranho permeia o romance em diferentes níveis: dos personagens, que ora são grandes amigos, ora são desconhecidos uns para os outros; do espaço – a casa do título –, que por vezes os acolhe, por vezes os repele; e da protagonista, Eleanor, que luta contra espectros do passado e se torna o epicentro dos fenômenos sobrenaturais.

No entanto, assim como ocorre em Lovecraft, James e tantos outros grandes autores de horror, Jackson tem o trunfo de estender o efeito do unheimlich aos leitores, convocando-os para o confronto com o desconhecido. Ao intensificar os fenômenos que assolam os personagens de seu romance, a escritora norte-americana nos abandona a sós com a pobre Eleanor. E lá ficamos até juntarmos, ao pavor dela, o nosso.

No fundo, a verdadeira magia das narrativas sombrias vem desse entrelaçamento de horrores. Aqui, nós o apontamos em obras já distantes no tempo, mas cujo fascínio “psicológico” se preserva. São textos que seguem atraindo novas gerações de leitores, sendo continuamente adaptados para outras linguagens. Os motivos são inúmeros; mas Freud nos ofereceu o mais convincente, em um ensaio que também merece ser sempre relido.

Você quer sentir esse arrepio na espinha? Aqui vão algumas sugestões de livros e filmes que acreditamos transmitir a sensação descrita por Freud:

Caixa de Pássaros (livro de Josh Malerman)
Um Lugar Silencioso (filme dirigido por John Krazinski)
Nós Sempre Vivemos no Castelo (livro de Shirley Jackson)
O Babadook (filme de Jennifer Kent)
It: A Coisa (livro de Stephen King)
A Bruxa de Blair (filme de Eduardo Sanchez e Daniel Myrik)
Nós (filme de Jordan Peele)
O Iluminado (filme de Stanley Kubrick)
O Bebê de Rosemary (filme de Roman Polanski)
O Exorcista (livro de William Peter Blatty)
O Poço e o Pêndulo (conto de Edgar Allan Poe)
Coraline (novela de Neil Gaiman)
Hereditário (filme de Ari Aster)

Tem mais alguma sugestão? Conte para a gente nos comentários!

*Nathalia Xavier Thomaz é  psicóloga e doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela FFLCH/USP.

Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: um ensaio sobre o medo na literatura (2013, Livrus), as antologias Sexorcista e outros relatos insólitos (2014, Livrus), Horror Adentro (2016, Kazuá) e o romance Bile Negra (2017, Empíreo).



Fonte: Boa Forma



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