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Há 2 milhões de anos, “primos” dos humanos mamavam até os 6 anos de idade

Compartilhe:     |  19 de julho de 2019

Um ancestral distante dos humanos, oAustralopithecus africanus, tinha uma abordagem única para criar seus filhotes, como mostra nossa nova pesquisa publicada na revista Nature.

A análise geoquímica de quatro dentes mostra que eles exclusivamente amamentavam bebês por cerca de 6-9 meses, antes de suplementarem o leite materno com quantidades variáveis ​​de alimentos sólidos até os 5-6 anos de idade. O equilíbrio entre leite e alimentos sólidos nesse período variava ciclicamente, provavelmente em resposta a mudanças sazonais na disponibilidade de alimentos.

Esse conhecimento é útil em várias frentes. Do ponto de vista evolucionário, ajuda-nos a entender as adaptações biológicas e comportamentais particulares do Australopithecus africanus em comparação com outros ancestrais humanos extintos e humanos modernos.

No entanto, a amamentação por até 5-6 anos é metabolicamente cara — requer certa ingestão de calorias para a mãe lactante. O uso do leite como alimento suplementar para os descendentes mais velhos pode ter dificultado a capacidade das espécies de A. africanus de sobreviverem com êxito durante um período de mudança substancial do clima.

Talvez este modo de vida tenha acelerado a extinção de A. africanus há cerca de 2 milhões de anos.

Um hominino intrigante
A. africanus foi descoberto pela primeira vez em 1924 pelo cientista australiano Raymond Dart, em Taung, na África do Sul, e representou o primeiro ancestral humano identificado na África. A espécie, membro da linhagem evolutiva humana, teve seus registros fósseis encontrados na África do Sul: os itens datam entre 3 e 2 milhões de anos.

Um século de escavações e pesquisas depois, Taung e outros locais da África do Sul produziram um rico registro de ancestrais humanos primitivos. Essa região é agora um Patrimônio Mundial da UNESCO conhecido como “O Berço da Humanidade”.

Dentes analisados pela equipe (Foto: Nature Communications)

Como apenas alguns exemplares de fósseis restaram, temos poucas informações sobre como A. africanus viveu e sua relação com outras espécies de hominídeos fósseis, como as espécies de Australopithecus do leste da África, o robusto Paranthropus e nosso próprio gênero, o Homo.

Analisando dentes
Nossa pesquisa tira vantagem de técnicas analíticas de ponta. Usamos um laser para “zapear” pedacinhos de dentes fósseis e usamos um instrumento chamado espectrômetro de massa para determinar sua composição química.

Isso é muito menos destrutivo do que os métodos tradicionais, que exigem que a amostra seja esmagada e dissolvida antes da análise. Isso faz com que seja um método crucial para espécimes raros, como os de A. africanus.

Nosso método de laser também nos permitiu mapear a composição de uma amostra em toda a superfície de um dente — esclarecendo mudanças na dieta, mobilidade ou clima ao longo do tempo. Esse é um avanço importante, pois pode revelar informações impossíveis de estabelecer utilizando métodos paleontológicos convencionais.

Diagrama esquemático do uso da análise de ablação a laser para mapear a concentração de estrôncio e urânio dentro de um dente (Foto: Renaud Joannes-Boyau/Southern Cross University)

Nesse estudo, mapeamos mudanças na concentração de bário, estrôncio e lítio em dentes fósseis de dois indivíduos. As quantidades desses elementos em nossos corpos podem mudar significativamente dependendo da nossa dieta, e essas mudanças são refletidas na composição de nossos ossos e dentes.

Enquanto os nossos ossos continuam a mudar de composição à medida que se remodelam durante as nossas vidas, os nossos dentes não mudam depois de formados durante a infância. Os dentes são, portanto, uma cápsula química perfeita da nossa dieta infantil.

Mapeando uma dieta variada
A concentração de bário no leite materno é muito alta, então os dentes infantis que se formam durante a amamentação também terão uma alta concentração desse elemento. Essa concentração diminui gradualmente à medida que outras fontes de alimento são introduzidas.

As amostras analisadas de A. africanus mostram um padrão diferente, com flutuações cíclicas na concentração de bário. Isso sugere que as mães aumentariam ou reduziriam a quantidade de alimentos adicionais, provavelmente dependendo da disponibilidade de outros recursos. Essa é uma adaptação ao estresse alimentar também usado pelos orangotangos modernos.

A concentração de lítio nesses dentes também varia ciclicamente, embora nem sempre ao mesmo tempo que o bário. A causa precisa das variações de lítio ainda não está clara, mas parece estar ligada a variações nas reservas de gordura corporal ou quanto proteína é ingerida.

Isso sugere que A. africanus enfrentou regularmente o estresse alimentar, fazendo com que sua dieta e/ou reservas de gordura mudassem com as estações do ano.

Canino de Australopithecus africanus mostrando um primeiro período de amamentação seguido por um sinal cíclico na distribuição de lítio, estrôncio e bário (Foto: Renaud Joannes-Boyau/Southern Cross University)

Nós comparamos os resultados de A. africanus com animais modernos de regiões do bioma de cerrado similares, o que sustentou nossos resultados mostrando sinais cíclicos ligados a variações sazonais misturadas com outro sinal interpretado como amamentação cíclica também observada em orangotangos modernos.

Perto de casa
Nós também investigamos a composição do isótopo de estrôncio desses dentes para ajudar a entender para onde o A. africanus se deslocava, a fim de entender alguns de seus hábitos.

Os isótopos de estrôncio são frequentemente utilizados para este fim na paleontologia, uma vez que diferentes regiões têm valores de isótopos característicos que são absorvidos através de alimentos e bebidas.

Os dois indivíduos de A. africanus em nosso estudo pareciam ter vivido a maior parte de suas vidas perto da caverna de Sterkfontein, onde seus restos mortais foram encontrados.

Relação isotópica de estrôncio ao longo do eixo de crescimento de um dente de Australopithecus africanus (Foto: Renaud Joannes-Boyau/Southern Cross University)

Viver em uma região com recursos alimentares limitados significa que esses primeiros hominídeos teriam comido muitos tipos diferentes de alimentos coletados de diferentes habitats para sobreviver.

Nossa pesquisa fornece a primeira compreensão do comportamento de enfermagem do A. africanus. Sabemos agora que essa espécie tinha um período prolongado de amamentação complementado por quantidades variáveis ​​de alimentos sólidos que faziam com que suas reservas de gordura flutuassem significativamente.

Isso provavelmente fazia parte de uma estratégia de sobrevivência bem-sucedida para a espécie. Mas como os ecossistemas mudaram com o clima há cerca de 2 milhões de anos, o estresse metabólico sobre as mães pode ter contribuído para a eventual extinção da espécie.

*Texto originalmente publicado no The Conversation.



Fonte: Revista Galileu



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