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“Há uma crescente subtração da voz de quem está envelhecendo”

Compartilhe:     |  11 de novembro de 2018

Os mais de 15 anos em Varas de Família deram à juíza Andréa Pachá uma bagagem enorme sobre conflitos onde reina a subjetividade: separações, guarda de filhos e por aí vai. No entanto, ela afirma que, mesmo com essa experiência, não estava preparada para o que enfrentaria na Vara de Órfãos e Sucessões, na qual atua há seis anos. Ali, as questões envolvendo idosos se tornaram parte do seu dia a dia: é onde, por exemplo, estão os processos relacionados a inventários, testamentos e curatelas – essas, um mecanismo de proteção para pessoas maiores de 18 anos que estejam sem condições de reger sua própria vida por alguma incapacidade mental, intelectual ou física. “Foi uma angústia enorme, porque o papel do juiz é limitado, acaba sendo de redução de danos dentro de um leque estreito de possibilidades”, conta.

Talvez porque tenha tido uma trajetória pouco convencional, uma vez que, antes de abraçar o direito, trabalhou com teatro e dramaturgia, o que ela fez foi um exercício de empatia, de se colocar no lugar do outro, transformando-se em ouvinte atenta. “Há uma crescente subtração da voz de quem está envelhecendo”, diz a juíza, que resgatou essas vozes em seu terceiro livro: “Velhos são os outros”. Nos dois primeiros, “A vida não é justa” e “Segredo de justiça”, ela relatava casos vistos nas Varas de Família e o material inclusive inspirou uma série no “Fantástico”. Agora, optou por uma narrativa ficcional, mas as histórias que estão nas 38 crônicas, entremeadas por dez perfis curtos de idosos, são universais e é impossível não se identificar com os personagens.

Nem sempre o final é feliz, mas alguns nos surpreendem e todos emocionam. Há casos de abandono afetivo e material, mas também lições sobre autonomia e paixão. A juíza não esconde sua angústia com a perda de identidade do idoso, como escreve na obra: “uma das experiências mais tristes em processos de curatela, quando os velhos perdem a memória, é a constatação de que não se morre apenas quando o coração para de bater, mas quando se é apropriado, ainda respirando, por pessoas que desconsideram o passado e o respeito que uma vida merece”. Na sua opinião, essa geração que está na faixa dos 50 e 60 anos deve ter como missão revolucionar a forma como se encara a velhice: “a sociedade associa o envelhecimento à doença, mas estamos tratando do passar do tempo e das escolhas que todos deveriam ter o direito de fazer. Temos que estar atentos para evitar que idosos vulneráveis sejam vítimas de pessoas e agentes de mercado mal-intencionados, mas é preciso garantir sua autonomia”.

No que diz respeito às complexas relações familiares, é comum que filhos tentem controlar a vida de pais que ainda são plenamente capazes de tomar suas próprias decisões. A juíza Andréa Pachá faz uma reflexão: “quem nunca teve uma história de amor infeliz? Quando se é jovem, todos acham normal, mas, se isso acontece com alguém mais velho, logo surgem questionamentos sobre sua capacidade”. Ela também adverte para o risco de suprimirmos temas como velhice e morte das nossas conversas, lembrando que “esses são dados da condição humana”. Faz um convite à discussão ao compartilhar seu “testamento” com 16 desejos no fim do livro.

Selecionei três personagens e suas observações. O conselho de dona Maria é simples: “você se prepare para a sua velhice, porque a gente fica velho de uma hora para a outra. Nem percebe. Eu mesma, até os 85 anos, achava que não ia ficar velha nunca!”. Já Célia constata como foi excluída: “olho com consternação para essa gente apressada e impaciente. Já estive nesse lugar. Sei como é ser jovem e, felizmente, aproveitei minha juventude. Eles nunca estiveram onde estou. Por isso a arrogância. Pensam que sabem tudo, porém nem sonham que, se tiverem sorte para chegar aonde cheguei, vão andar devagarinho. E aprender a lidar com o desprezo, se não quiserem sofrer muito”. Por fim, Eurico dá uma lição aos que tentam mascarar a realidade: “se um dia eu descobrir quem foi o infeliz que inventou essa história de melhor idade, eu dou um soco no meio da cara dele!”.



Fonte: Bem Estar



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