Geografia Ambiental

Ilha do medo

Compartilhe:     |  25 de janeiro de 2015

Jararaca-ilhoa dá o bote no gancho de coleta do biólogo na ilha Queimada Grande, São Paulo

Não há mamíferos nem fontes de água potável na Queimada Grande. Quem sobrevive nessa ilha paulista são milhares de cobras e aranhas venenosas. E a evolução se encarrega do resto

Por: André Julião

“Olha uma ali!” Enrodilhada em galhos que parecem prestes a se quebrar com o peso, ela não se mexe nem mesmo com a nossa aproximação. Demoro para ver, em meio à folhagem, o que meus parceiros de expedição – o biólogo Breno Damasceno e o fotógrafo João Marcos Rosa – percebem logo. A serpente amarela com manchas marrons, quase invisível atrás das folhas, é a jararaca-ilhoa, o perigoso animal que ocupa o degrau mais alto da cadeia alimentar na ilha da Queimada Grande, um rochedo de granito forrado de Mata Atlântica, 33 quilômetros distante da costa da cidade de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. Sou tomado de um sentimento misto de empolgação e medo.

A Queimada Grande, afinal, não é nada hospitaleira com seus visitantes, das pequenas aves migratórias aos raros seres humanos que ousam pisar em seus 43 hectares (o equivalente a 40 campos de futebol). Como não há praias, o embarque e o desembarque são sempre complicados, quando não impossíveis. Não há fontes de água potável ou alojamento esperando pelos visitantes. As trilhas são íngremes e faz muito calor; a chuva, não raro, vem com tempestades de vento cortante. Há aranhas venenosas e, claro, cobras, milhares delas – no chão, nas pedras, na relva, nas árvores, por toda parte.

Mesmo assim, pisar pela primeira vez na rocha escorregadia que serve de porto é um alívio para quem passou a noite balançando em uma lancha ancorada – com as devidas consequências gástricas inerentes a marinheiros de primeira viagem, como era o meu caso. O percurso desde o continente levara apenas duas horas, mas era madrugada quando chegamos, e desembarcar sem a luz do sol estava fora de cogitação. Por isso, permanecemos chacoalhando até as 6 da manhã – só então pudemos deixar o barco que voltaria ao continente para esperar o dia do nosso resgate. Eu estava debilitado e confuso quando ele começou a se distanciar da ilha, com as pessoas a bordo acenando. Não havia tempo, porém, para refletir sobre aquele momento insólito, muito menos para descansar. Uma chuva se anunciava no horizonte e precisávamos armar acampamento o quanto antes. A barraca seria o máximo de conforto que eu teria nos próximos dias. Sono tranquilo, banho, banheiro e boas refeições eram privilégios que tinham ficado na costa.

Formada há 55 milhões de anos, em um desdobramento das origens da serra do Mar, a ilha da Queimada Grande foi ligada ao continente em diferentes períodos do passado. Entre 10 mil e 12 mil anos atrás, quando terminou a última glaciação da Terra, a área acabou cercada pelo mar, em decorrência da elevação no nível dos oceanos. A população de serpentes, que provavelmente eram da mesma espécie do continente – Bothropoides jararaca –, ficou ilhada. Sem pequenos mamíferos para caçar, as cobras precisaram se adaptar à vida em cima das árvores, pois a principal comida disponível eram as aves, de passagem pela ilha em suas migrações.

A mudança de padrão alimentar forçou alterações no comportamento. Enquanto o parente continental preserva hábitos terrestres na vida adulta, a ilhoa aprendeu a prender-se no alto das árvores pela cauda, a qual forma um laço em volta dos galhos e a sustenta pendurada – apenas os indivíduos jovens ficam o tempo todo no chão, pois se alimentam de lacraias, lesmas e sapos.

Outra diferenciação significativa está na potência de seu veneno. Pioneiro nas pesquisas sobre a cobra – descreveu a espécie em 1921 –, Afrânio do Amaral, um dos primeiros diretores do Instituto Butantan, em São Paulo, aplicou em pombos o veneno da jararaca-ilhoa e da continental. Concluiu que, para matar a ave com a peçonha da Bothropoides insularis, era suficiente uma dose cinco vezes menor que a dose letal do veneno da Bothropoides jararaca. “Ele é mais potente para aves, mas não para mamíferos”, explica Otávio Marques, do Butantan. Se a peçonha não matasse a presa em poucos segundos, ela poderia morrer distante, impossibilitando o predador de comê-la. Assim, para garantir a refeição, a cobra pica o pássaro e não o solta mais, começando a engoli-lo logo em seguida.

O que mata suas vítimas na natureza, porém, pode salvar vidas humanas. Ao estudar o veneno da jararaca comum, pesquisadores brasileiros descobriram, em 1948, o vasodilatador bradicinina, que tem ação anti-hipertensiva e que mais tarde deu origem ao medicamento Captopril. Em 2001, foi patenteado outro anti-hipertensivo baseado nas mesmas toxinas, o Evasin. Embora essas substâncias, do ponto de vista bioquímico, sejam parecidas nas duas espécies – tanto que o soro antiofídico é o mesmo –, acredita-se que as poucas enzimas diferentes da peçonha da jararaca-ilhoa possam dar origem a novos fármacos.

Para os ambientalistas, esse é um dos motivos da retirada ilegal de cobras da Queimada Grande. “Por ser uma espécie endêmica e pelas propriedades ainda inexploradas do veneno, ela tornou-se um alvo cobiçado da biopirataria”, afirma Raulff Lima, coordenador executivo da Renctas, ONG de combate ao tráfico de animais. “As serpentes, de um modo geral, são muito resistentes. Elas podem ficar dias sem comer, o que facilita seu envio a outros países”, afirma.

A pesquisadora Karina Kasperoviczus, da Universidade de São Paulo (USP), ficou cara a cara com um dos intermediários do tráfico. Em 2008, ao desembarcar em São Vicente depois de estudos na Queimada Grande, ela foi abordada por um homem, que anunciou estar disposto a pagar 30 000 dólares para cada jararaca-ilhoa. “Ele dizia ter compradores para quantas cobras fossem capturadas”, conta. Karina já ouviu relatos de pescadores que afirmaram ter visto pessoas com caixas de isopor na Queimada Grande.

O próprio Instituto Butantan retirou da ilha por volta de 830 exemplares desde a década de 1920 – quantidade significativa para uma população total de 2 134 indivíduos, segundo a estimativa mais precisa realizada até hoje publicada em 2008 por pesquisadores da USP e do instituto. Segundo essa contagem, a densidade populacional da Queimada Grande é de 50 serpentes por hectare, o que a torna um dos maiores serpentários naturais do mundo.

Mas, por estar concentrada em uma área tão pequena, a espécie corre sérios riscos. A endogamia resulta, no longo prazo, em baixa variabilidade genética dos indivíduos, o que os torna mais suscetíveis a doenças e à ocorrência de características anormais – uma prova disso seria o órgão sexual masculino não desenvolvido encontrado em algumas fêmeas, sem nenhuma função reprodutiva. Também já foi identificado por cientistas um espécime hermafrodita. “Essa é uma característica primitiva, e sua ocorrência na jararaca-ilhoa está associada a alterações em cromossomos relacionados ao sexo, devido à cosanguinidade”, diz Marcus Augusto Buononato, biólogo que já esteve mais de 20 vezes na ilha.

Buononato diz que, nos anos 1980, em suas primeiras viagens, “não passava cinco minutos sem ver uma cobra”. Nas últimas visitas, o número de encontros é bem menor e os animais, que podiam chegar a 1,20 metro, não passam de 70 centímetros. “A população está à beira de um colapso”, acredita ele, ainda mais por habitarem um lugar conhecido por suas queimadas naturais – daí o nome da ilha. As excursões humanas levaram espécies invasoras, como o capim-gordura e o sapé, que hoje formam capinzais que ocupam mais de 11 hectares da ilha. “Esse mato, quando seco, é muito vulnerável ao fogo. Um grande incêndio poderia matar todos os indivíduos”, alerta Aníbal Megarejo, herpetólogo do Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro.

Somam-se a esses fatores a presença de carrapato, comum em ilhas oceânicas – notamos algumas cobras com o corpo coberto por esses parasitas –, e uma possível escassez de alimentos, plausível em um lugar pequeno e sensível a mudanças climáticas. Basta imaginar um período sem chuvas, já que a água doce só é obtida em pequenos repositórios naturais, como as bromélias. Tais condições levaram o animal a ser considerado criticamente em perigo de extinção pela lista de espécies ameaçadas no Brasil e pela Lista Vermelha, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O implante de chip sob a pele dos animais, feito por pesquisadores do Butantan, é um dos métodos para um monitoramento da população. Já para avaliar invasores, existem armadilhas fotográficas, instaladas em pontos estratégicos, que disparam se alguém passar na frente delas. O trabalho é coordenado por fiscais do Instituo Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pois a ilha faz parte da Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) Ilhas Queimada Pequena e Queimada Grande.

Cientistas e ecologistas acreditam que o nível de proteção desse tipo de unidade de conservação ainda é baixo, pois apenas restringe o acesso a uma área de 1 quilômetro no entorno da ilha – além disso, a pesca, atividade comum na área, é feita sem nenhuma fiscalização. Por isso, começa a ganhar corpo o plano de transformar a Arie em parque nacional marinho. “O status de parque poderia atrair turistas interessados em mergulho, haja vista a grande biodiversidade de peixes naquela área”, afirma Wilson Almeida Lima, chefe da reserva. “A presença dessas pessoas em volta da ilha vai inibir os biopiratas”, acredita.

Mas salvar a jararaca-ilhoa depende também de ações localizadas, como a criação de animais em cativeiro. Além de possibilitar estudá-los de perto, essas criações mantêm uma reserva genética da espécie. Em um futuro hipotético, seus descendentes poderiam ser introduzidos na ilha.

As lanternas e a pequena chama do fogareiro são as únicas fontes de luz na noite sem estrelas. Depois de passar o dia à base de pão, macarrão instantâneo e atum enlatado, estamos empolgados com o projeto de cachorro-quente que ferve na panela. A cozinha é um abrigo sob uma rocha, cuja superfície irregular serve de prateleira para os poucos artigos de cozinha. Naquele espaço compartilhamos histórias, nos assustamos com aranhas armadeiras, que podem matar um homem com uma picada, e recarregamos nossa energia para voltar à mata em busca das ilhoas.

Na Queimada Grande, todo movimento deve ser calculado, desde onde pôr a mão até onde pisar. Mais de uma vez rolei no chão, escorreguei e me ralei nas pedras por não ter seguido essa regra à risca. Damasceno, o biólogo da expedição, sabe disso, mas não toma cuidado com algo aparentemente inofensivo: uma panela cheia de salsichas e molho. Ao tentar se servir, vira todo o nosso precioso jantar no chão. Eu e Rosa nos dividimos entre rir e tentar conter a frustração do companheiro com o movimento desastrado.

A precariedade de nossas instalações acaba servindo para uma aula de história. Segundo Damasceno, em pleno século 21, somos meros amadores se comparados aos cientistas pioneiros que visitaram a ilha, como João Florêncio Gomes, do Butantan, que, já em 1919, levou exemplares da jararaca ao instituto, em São Paulo. As primeiras e bem aparelhadas expedições começaram depois de relatos de moradores da ilha – funcionários da Marinha que cuidavam do farol, instalado em 1909 (automatizado na década de 1940, o equipamento dispensa até hoje a presença de pessoas em tempo integral). “Para cúmulo de infelicidade, os moradores [faroleiros da Queimada Grande] de vez em quando se veem privados até das próprias galinhas, que criam para sua subsistência, pois que, sendo lá o ‘paraíso das cobras’, esses pobres animais são frequentemente dizimados”, escreveu o sucessor de Gomes, Afrânio do Amaral, em 1921.

A quantidade assombrosa de serpentes atraiu outros cientistas, como o belga Alphonse Richard Hoge, a partir da metade da década de 1960, Pedro Antônio Federsoni Júnior, nos anos 1980, e Otávio Marques, dos anos 1990 até hoje. “A Queimada Grande é um sonho para qualquer herpetólogo”, diz Aníbal Megarejo, ao qual Damasceno e Rosa acompanharam em sua primeira expedição à ilha, no fim de 2010. “Na Mata Atlântica existe grande biodiversidade de serpentes, mas sempre com densidade populacional pequena. Há esconderijos, e é difícil de localizá-las.”

Na Queimada Grande, não. Na noite anterior à nossa partida, contabilizamos 48 encontros com jararacas-ilhoas em três dias de saídas. Eu e João estamos na cozinha, depois de falar com as famílias ao telefone – o isolamento não é o bastante para afetar o alcance do sinal de celular –, quando ouvimos os gritos de Damasceno, em cima da mesma rocha de onde João acabou de descer. “Tem uma cobra bem no lugar em que você estava sentado!” Entreolhamos-nos, atônitos. Até então, sabia-se que a espécie não fica em lugares com muito vento, como era o caso do acampamento, e que ela é ativa apenas durante o dia. A ilha nos surpreendia de novo.

Na manhã seguinte, o mar está calmo como uma piscina. Todo o equipamento e as roupas foram embarcados na lancha que veio nos resgatar, e o pessoal da expedição saiu para uma missão final: instalar mais uma câmera-armadilha na mata. Dou-me o direito de não ver mais cobras pelos próximos meses e fico de bobeira, enfim relaxado, olhando para o mar – aonde as jararacas não chegam! Então me dou conta de que avisto uma mulher pela primeira vez em mais de 72 horas. Ela pula do barco com graça e acena para mim. É uma miragem? Jogo-me na água de calça, tênis e camiseta. Chego ao encontro dela em minutos, e sou recebido com uma máscara de mergulho. “Dá uma olhada lá embaixo”, diz ela.

Assim que desço abaixo da superfície, avisto duas enormes arraias-pintadas e uma infinidade de peixes menores e águas-vivas. Um mundo novo, belo e sereno, que contrasta com a tensão da vida em terra na Queimada Grande.

Os momentos no mar aliviam o cansaço e a ansiedade. Se dias antes eu chegara fraco e amedrontado, hoje me sinto resistente e corajoso. Minha estadia na ilha faz sentido. Presenciei um momento-chave para uma criatura que se adaptou a condições desfavoráveis. E que, agora, vê seu destino em uma encruzilhada: a jararaca-ilhoa pode se readaptar ou deixar de existir. Conservar o seu lar, a ilha da Queimada Grande, não é questão de salvar uma espécie, mas de manter vivo um grande laboratório, que nos ensina, todos os dias, a importância de evoluir.

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL   |   


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