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Impacto brando do coronavírus na África intriga cientistas

Compartilhe:     |  8 de setembro de 2020

Com grandes aglomerações e sistemas de saúde precários, previa-se um quadro de horror para a pandemia nas nações africanas, o que não ocorreu. Entre possíveis causas estão idade da população e imunidade a patógenos.

Centenas de milhares, talvez até mesmo milhões de mortos; infecções graves, provocando o colapso dos sistemas de saúde já precários: assim diversos especialistas previram a situação da pandemia de covid-19 na maioria dos países africanos. Mais de quatro meses depois, pode-se afirmar que o cenário de horror não se concretizou.

Enquanto em outros continentes o número dos contágios e óbitos explodiam, a África foi poupada de uma alta taxa de mortalidade pelo coronavírus. E isso, apesar de, em cidades como Dacar ou Lagos, os cidadãos se acotovelarem, muitos viverem na pobreza e em condições de higiene preocupantes.

Assim, um grupo de cientistas publicou na revista Science uma análise dos possíveis motivos para esse transcorrer relativamente brando da pandemia na região. Um dos fatores apresentados é que “medidas como restrições de viagens, toques de recolher e fechamento de escolas foram aplicadas cedo na África, em comparação com outros continentes – muitas vezes ainda antes de o país ter sequer um único caso de covid-19”.

Os autores do relatório atribuem essa disposição para tomar medidas precoces às experiências de várias nações africanas com doenças infecciosas como ebola ou a febre hemorrágica de Lassa: a reação rápida muito provavelmente resultou numa propagação mais lenta da moléstia.

“Sabemos que essas medidas têm efeito”, confirma Edward Chu, conselheiro de medicina de emergência da ONG Médicos Sem Fronteiras. “No entanto, é mais difícil manter medidas severas por um prazo longo. Partimos então do princípio que, com relaxamentos futuros, também o número de casos aumentará.”

Ainda assim, prosseguem os pesquisadores, deve haver outros motivos para o cenário mais extremo não ter ocorrido, já que “a maioria trabalha no setor informal, por exemplo em feiras tradicionais, onde não há como impor medidas extremas de confinamento”.

A idade poderia ser um destes motivos. A média etária no continente africano é de 19,7 anos, a metade da dos Estados Unidos, e, apesar de o Sars-Cov-2 também infectar jovens, em geral os mais idosos é que são hospitalizados em estado grave e morrem.

As taxas de contágio baixo podem ter igualmente a ver com a idade, pois a maioria dos casos assintomáticos é entre jovens. Por não se sentirem doentes, eles se submetem com menor frequência a testes e exames, sobretudo se o sistema de saúde do país já é debilitado e as capacidades de testes, reduzidas. Em geral, “a carência de recursos para testes torna extremamente difícil definir o impacto real da pandemia sobre as populações dos Estados africanos”, explica Chu.

Os pesquisadores sugerem que a imunidade a patógenos possa ser outro fator para o quadro da pandemia na África. “Cada vez mais se reconhece que o sistema imunológico não é determinado apenas pela genética, mas também por fatores ambientais, como a exposição a microrganismos e parasitas. Assim, ele é treinado para se proteger contra patógenos invasores.”

Isso poderia amenizar decisivamente o transcorrer de uma doença infecciosa e ser mais um motivo por que, até agora, não se concretizou o alto número de vítimas da covid-19 previsto para a região. O imunologista e parasitólogo Achim Hoerauf pesquisa essa hipótese na Clínica da Universidade de Bonn.

Ele se interessa sobretudo pelos vermes que vivem mais ou menos em harmonia, como parasitas, nos corpos de muitos africanos. Essa convivência só é possível por os helmintos não provocarem reação forte do sistema imunológico do hospedeiro, sinalizando-lhe, por meio de determinadas secreções, que não há motivo para alarme.

“Pode ser que assim o contágio com a covid-19 seja melhor tolerado”, especula Hoerauf. Uma reação imunológica exagerada é uma das causas conhecidas para os casos especialmente violentos de covid-19.

Enquanto parasitas possivelmente favorecem um quadro clínico brando, doenças não infecciosas aumentam o risco de agravamento, e moléstias cardiovasculares, obesidade e diabetes tipo 2 são típicas dos países industriais do Ocidente. Pelo menos por enquanto, pois nas áreas urbanas das nações africanas essas doenças civilizatórias já começam a se impor.

Aids e fome também matam

Embora a temida grande explosão não tenha ocorrido até agora, o Sars-Cov-2 não poupou inteiramente a África. “O vírus teve enorme impacto indireto sobre muitos habitantes dos países africanos. Em diversos deles, os danos colaterais provocados pelas medidas para conter a pandemia poderão ser muito mais nocivos do que a ação direta do vírus”, alerta Chu.

Aqui, os jovens são os mais duramente atingidos: em especial para as crianças, a carência de alimentos e medicamentos têm muitas vezes consequências fatais. Assim, já em maio a organização Unaids já apontava gargalos de abastecimento de remédios antirretroviras, indispensáveis para a terapia da aids.

Devido ao fechamento das fronteiras terrestres e à suspensão temporária dos voos, abriu-se uma lacuna de fornecimento, agravada pelo fato de medicamentos contra o HIV serem também empregados no tratamento de pacientes de covid-19.

A Unaids e Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que as medidas contra a pandemia podem causar 500 mil óbitos adicionais por aids. E, em julho, a organização humanitária Oxfam advertia que esse seria também o motivo de 12 mil mortes diárias por inanição, até o fim de 2020. Seis dos dez “hotspots extremos da fome” definidos pela Oxfam se situam no continente africano.

Adaptação: Augusto Valente



Fonte: Deutsche Welle - Julia Vergin



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