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Indonésia aprova construção de estrada de carvão em meio a floresta que hospeda tigres e elefantes

Compartilhe:     |  3 de agosto de 2020

A estrada seria para o transporte de carvão da mina da empresa para usinas de energia, na província de Sumatra do Sul.

O governo indonésio concedeu permissão a uma empresa de carvão para construir uma estrada que cortaria a floresta de Harapan, altamente biodiversa, em Sumatra.

A estrada seria para o transporte de carvão da mina da empresa para usinas de energia, na província de Sumatra do Sul.

Especialistas pediram à empresa que a estrada contorne a floresta e use uma rede rodoviária já existente, mas a empresa não publicou nenhuma revisão do projeto.

Ambientalistas e comunidades indígenas alertaram que a estrada poderia devastar o ecossistema, fragmentar o habitat e facilitar invasões para exploração madeireira, caça e agricultura.

Em um dia ensolarado em março, seis adolescentes estão plantando mudas em um pedaço de floresta queimada em Sumatra.

“Essa é a primeira vez que plantamos árvores em uma floresta”, disse Rifai, 14. O local de plantio faz parte de uma área de 10 hectares da floresta de Harapan, a qual foi arrasada por madeireiros ilegais em setembro do ano passado.

Rifai acrescentou: “Estou muito feliz por poder fazer algo pela natureza”.

Ele e seus colegas ainda não sabiam, naquela manhã ensolarada, quatro meses atrás, mas seus esforços já haviam se tornado inúteis até então. Isso, graças à aprovação do Ministério do Meio Ambiente para a construção de uma estrada – e desmatamento da floresta – que iria servir minas de carvão próximas dali.

O Ministério assinou o projeto, proposto pela mineradora de carvão PT Marga Bara Jaya (MBJ), em outubro do ano passado, mas foi somente em junho deste ano, após uma investigação da equipe da Mongabay na Indonésia, que a aprovação veio à tona. Nem o MBJ nem o Ministério do Meio Ambiente responderam aos pedidos de confirmação de Mongabay antes da publicação desta história.

Um rio serpenteia através de parte da floresta de Harapan, na província de Sumatra do Sul, na Indonésia. Imagem cortesia de Hutan Harapan Initiative.

A aprovação dá ao MBJ o controle de 424 hectares da floresta de Harapan. A empresa planeja construir 88 quilômetros, um terço destes através da floresta, para transportar carvão de sua mina no distrito de Musi Rawas para usinas de energia no distrito de Musi Banyuasin, ambas na província de Sumatra do Sul.

A floresta de Harapan, cujo nome em indonésio significa “esperança”, abrange 76.900 hectares nas províncias de Sumatra do Sul e Jambi. Representa 20% da floresta tropical de planície remanescente de Sumatra e abriga cerca de 1.350 espécies, incluindo 133 espécies ameaçadas globalmente, como o tigre e o elefante de Sumatra (Panthera tigris sondaica e Elephas maximus sumatranus). É o lar de grupos indígenas também, como a comunidade Batik Sembilan.

Por várias décadas, a expansão das plantações de dendezeiros e a incursão de madeireiros ilegais devastaram a floresta. Hoje, porém, o projeto da estrada é a maior ameaça a esse pedaço da floresta na área central de Sumatra.

†Ambientalistas e comunidades indígenas alertaram que o corte de uma estrada através da floresta poderia devastar o ecossistema, fragmentando  ainda mais o habitat e permitindo maior acesso a madeireiros, caçadores e fazendeiros.

Antes de se tornar uma zona de extração de madeira, a floresta de Harapan foi designada, em 2008, como a primeira Ecosystem Restoration Concession (ERC) (Concessão à Restauração do Ecossistema, em tradução livre) da Indonésia. Essas são concessões prévias que empresas privadas podem licenciar para restauração como parte de suas obrigações de CSR. O objetivo é recuperar essas áreas degradadas, impedindo-as de serem permanentemente transformadas em plantações de palmeiras ou terras de pequenos agricultores.

O esforço de restauração florestal em Harapan é gerenciado pela PT Restorasi Ekosistem Indonesia (REKI). A empresa se opõe ao projeto de estradas de carvão desde que foi proposto no início de 2010. Eles estimam que o projeto afetaria cerca de 6.000 hectares da floresta, grande parte através do desmatamento. Outro possível impacto seria um aumento no conflito entre humanos e animais selvagens, disse Mangarah Silalahi, diretor executivo da REKI.

“A quantidade de conflitos envolvendo elefantes que acontecem ao redor da floresta de Harapan relatados a nós é de cerca de 10 casos por ano, espalhados em locais diferentes”, disse ele, acrescentando que isso é provavelmente uma fração do número real de casos, que em sua maior parte não são reportados.

Ambientalistas dizem que a estrada de carvão não precisa atravessar a floresta. No ano passado, o comitê de avaliação do governo da província de Sumatra do Sul ordenou à empresa que a estrada contornasse a floresta, usando uma rede rodoviária já existente. O MBJ concordou em revisar seu projeto, mas ainda não publicou uma proposta de nova rota ou indicou se realmente considerará renovar as estradas existentes ao redor da floresta.

“Eles não precisariam mais cortar árvores”, disse Diki Kurniawan, diretor da Jambi chapter of the Environmental Legal Aid Foundation (YLBHL). A organização sem fins lucrativos é uma das 36 organizações locais e internacionais da sociedade civil que criticaram a avaliação de impacto ambiental do MBJ para o desenvolvimento de estradas de carvão através da floresta de Harapan.

A coalizão, chamada Anti-Destruição Florestal (em tradução livre), estima que o desmatamento resultante do projeto acarretará em uma perda de 8,84 trilhões de rúpias (US $ 615 milhões) em serviços ecossistêmicos.

Mas os planos da MBJ receberam o apoio oficial dos governadores de Sumatra do Sul e Jambi. Essas recomendações parecem ter sido fundamentais para a aprovação silenciosa do projeto pelo Ministério do Meio Ambiente no ano passado.

Mukshin, membro da comunidade Batin Sembilan, disse que nem pode imaginar o desastre que resultaria da construção da estrada em Harapan. Segundo ele, seria devastador para a comunidade indígena cujo meio de vida se baseia na floresta.

“Se tudo estiver desmatado e invadido, para onde mais os elefantes e tigres terão que ir a não ser a nossa comunidade?” perguntou ele.

*Esta história foi relatada pela equipe Indonésia da Mongabay e publicada no site da Mongabay Indonésia em 6 de julho de 2020.



Fonte: Anda - Luana Capela



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