Notícias

Informações necessárias para quem começa a trilha de estudos sobre oceanos

Compartilhe:     |  21 de março de 2019

Na aula inaugural do Programa de Engenharia Oceânica da Coppe/Ufrj, que aconteceu na última segunda-feira (18), os alunos ouviram uma palestra bastante informativa sobre o valor dos mares. Há 15 anos trabalhando com tudo o que se refere aos oceanos, o professor português Miguel Marques, convidado da Coimbra Business School, levou aos estudantes a chance de refletirem sobre o futuro da profissão que querem abraçar. Foi também o momento de lançar o livro que o professor ajudou a organizar – junto com Andre Panno Beirão e Rogério Ruschel – e tem o mesmo título da palestra: “O valor do mar – uma visão integrada dos recursos do oceano do Brasil” (Ed. Essential Idea).

“Valor não é cifrão, nem dólar, nem euro. É um conjunto de coisas”, disse o professor, para fugir de interpretações equivocadas.

Corroborando o que disse, Marques apresentou uma pesquisa bem variada sobre o Brasil no mundo marítimo, mostrando que o país oferece muitas oportunidades no setor, justamente porque ainda está aquém em algumas questões. O Brasil não está no corredor de navegação com maior tráfego comercial, segundo o estudo feito pela empresa PWc, apesar de ter carga e frota suficientes. Construiu-se em território brasileiro, até agora, meio por cento dos navios que trafegam pelo mundo. Apenas Japão, Coreia do Sul e China constroem 90% dos navios, o que o professor classifica de “algo insustentável”.

O Brasil está entre os dez maiores em termos de energia fóssil offshore (petróleo e gás), mas não aposta em energias renováveis. Neste quesito, o Reino Unido fica em primeiro lugar, seguido por Alemanha, China e Dinamarca. Nosso país também tem bons atletas no surf e na vela, mas consta também dos registros internacionais de ataques de piratas.

“E não estamos falando de cenas românticas dos filmes. Pirataria é coisa séria”, disse Marques.

Informações importantes para quem quer se especializar no setor.

Faltou tempo, porém, para mostrar aos estudantes os valores intangíveis do mar, que vêm sendo menosprezados, recorrentemente, por um sistema que prefere valorizar mais o lucro rápido. Ou o desenvolvimento a qualquer custo. O estudo sobre engenharia oceânica não necessariamente vai exigir dos alunos informações sobre a saúde dos mares. Mas, necessariamente, quem estuda qualquer coisa ligada aos oceanos um dia vai sentir necessidade de se conectar mais com tudo o que diz respeito à maneira insustentável que a humanidade os tem tratado.

Assim que cheguei em casa, uma das notícias em destaque do G1 era sobre uma baleia que morreu e nela foram encontrados 40 quilos de plástico em seu estômago. Eram 40 quilos de sacas de arroz, sacolas de supermercado, sacolas de plantação de banana e sacolas plásticas em geral. Dezesseis sacas de arroz no total, afirmou o biólogo marinho Darrell Blatchey, que tentou salvar o animal. Era tanto plástico que não houve espaço mais para alimentos e a baleia morreu de fome e desidratação.

O plástico se tornou o tipo mais comum de detrito em mares. É grande a preocupação dos pesquisadores. Num estudo publicado há cinco anos pelo site “The Scientist” os pesquisadores já advertiam para o fato de que, a maior parte desse lixo consiste em minúsculos fragmentos menores do que uma unha. Mas são micropartículas que podem ficar presas em grandes concentrações: há trechos do Atlântico Norte, por exemplo, que possuem mais de 50 mil dessas peças por quilômetro quadrado.

São as chamadas “externalidades” dos plásticos, considerados parte integrante da economia global. Em 2016, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, a Agência da ONU para o Meio Ambiente, o Pnuma, lançou um estudo estimando em 40 bilhões de dólares o prejuízo causado pelas tais externalidades. Naquele mesmo Fórum, um estudo mostrou que “dado o crescimento projetado no consumo, se nada mudar, espera-se que até 2050 os oceanos contenham mais plásticos do que peixes (por peso), e toda a indústria de plásticos consumirá 20% da produção total de petróleo, e 15 % do orçamento anual de carbono” .

Eis um valor sobre o qual os estudantes precisam se debruçar para mudar a situação.

Plástico é retirado do estômago de baleia morta encontrada nas Filipinas — Foto: D'Bone Collector/Facebook

Plástico é retirado do estômago de baleia morta encontrada nas Filipinas — Foto: D’Bone Collector/Facebook

Por outro lado, também no setor pesqueiro temos problemas. A sobrepesca, resultado direto de uma ida com toda sede ao pote do capital, já está causando a extinção de espécies marinhas. O relatório Living Blue Planet, que a organização WWF faz anualmente, em 2015 deu conta de que populações de animais selvagens marinhos despencaram pela metade nos últimos 40 anos, “com algumas espécies sofrendo quedas muito maiores em decorrência da perda de habitat, pesca excessiva, aumento da temperatura do mar e piora da acidez dos oceanos”.

É um declínio “potencialmente catastrófico”, afirmam os pesquisadores. E vale lembrar que a catástrofe maior recairá sobre a humanidade, caso não haja uma tomada de consciência a tempo. A tal ponto vai a crise, que hoje já se cria salmão em cativeiro em fazendas com enormes redes flutuantes. Peixes que não vivem uma vida normal, apenas nascem e são engordados para alimentar o homem. Há impactos disso na natureza, é claro. E fica a sugestão, para a nossa lista de desafios aos jovens que começam agora a descobrir os segredos do mar. E o valor dele.

Outra questão séria é o aquecimento dos oceanos. O ano passado foi o mais quente já registrado nos mares, o que não só ameaça as espécies como contribui para o aumento do nível das águas. É nas águas dos mares que se pode sentir, com toda a força, o aquecimento global. O fenômeno está sendo tão rápido que vem assustando até mesmo os cientistas acostumados com a ideia.

Estamos vivendo tempos difíceis. No Brasil e no mundo as opiniões estão polarizadas, e vêm ganhando terreno a opinião das pessoas que pensam em fazer crescer primeiro, para depois repartir. Esta visão abre caminho para uma corrida sobre os bens que a natureza nos oferece, a todos indiscriminadamente. Aqueles que têm mais e melhores ferramentas é que neles chegam primeiro.

Seja como for, é importante que a geração que começa agora a corrida, se informe sobre as consequências de um desastroso ceticismo quanto a tudo o que a ciência vem afirmando. O poder de escolha é que nos diferencia, já que vivemos num sistema democrático.



Fonte: G1 - Amélia Gonzalez



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Projeto de lei ‘Animal não é coisa’ é aprovado pelo Senado

Leia Mais