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Inteligência artificial usa som para coibir desmatamento e monitorar baleias

Compartilhe:     |  17 de fevereiro de 2020

Um dos principais desafios para a preservação do meio ambiente está no monitoramento. Como descobrir que madeireiros estão usando suas motosserras no meio de florestas ou notar a presença de determinadas espécies no meio do oceano? Para esses fins, os esforços de conservação acabam de ganhar um importante aliado: a inteligência artificial.

A solução foi criada pelo físico americano Topher White. Nascido em San Francisco, na Califórnia, ele decidiu abandonar um bom emprego no International Thermonuclear Experimental Reactor — consórcio internacional que está construindo um reator experimental a fusão nuclear — e usar seu conhecimento para salvar florestas tropicais na Indonésia, após uma temporada como voluntário numa ONG de proteção dos gibões.

“Eu percebi que havia extração ilegal de madeira na reserva. Eles tinham três guardas florestais, em período integral, mas eles não eram capazes de impedir o desmatamento. Não era viável monitorar toda a floresta”, contou White, sobre o nascimento da sua ONG, a Rainforest Connection.

Para resolver o problema, White modificou smartphones usados, que iriam para o lixo, aproveitando apenas o processador, a antena e o microfone. Instalados no alto das árvores, esses equipamentos são capazes de gravar os sons da floresta, que são enviados para processamento na nuvem por um algoritmo de inteligência artificial, que identifica praticamente em tempo real o barulho de motosserras e maquinário pesado.

Colocados numa pequena caixa plástica selada, esses smartphones se mantêm em operação contínua por cerca de três anos. A energia vem de painéis solares e, com uma antena externa, os aparelhos se conectam à internet para o envio dos dados.

As caixas são instaladas nas árvores mais altas de uma região, a cerca de 50 metros de altura, de onde é possível captar sinal de torres de celular a dezenas de quilômetros de distância. Com microfone externo, os smartphones são capazes de captar sons num raio de 1,5 quilômetro.

Topher White mostra celular usado para combater o desmatamento ilegal Foto: Sérgio Matsuura
Topher White mostra celular usado para combater o desmatamento ilegal Foto: Sérgio Matsuura

São 200 megabytes de dados por dia, de cada um dos mais de 200 equipamentos instalados em florestas tropicais de 12 países, inclusive na Amazônia brasileira.

“No Brasil nós temos uma grande operação, com os índios Tembé, no estado do Pará. E o que eu posso dizer é que nós vimos um grande aumento nas ações dos nossos parceiros naquela área”, contou White, em referência ao governo do presidente Jair Bolsonaro, mas sem citar números exatos. “O que vemos é que o governo estadual está reforçando sua atuação, enquanto o governo federal está recuando”, disse.

Esse mesmo algoritmo está sendo usado por uma iniciativa da divisão de inteligência artificial do Google para rastrear baleias na costa dos Estados Unidos e do Canadá. Há três anos, a gigante de buscas foi procurada por pesquisadores do Serviço Nacional de Pesca Marinha, órgão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em inglês), que desejava uma solução para localizar baleias em alto-mar.

“Uma pesquisadora da NOAA perguntou para o pai como ela poderia identificar o som de baleias num volume imenso de áudio. De brincadeira, ele respondeu: ‘Procure o pessoal do Google’. Foi isso o que ela fez”, contou Matt Harvey, engenheiro de software do Google AI que atua no projeto.

Nesta iniciativa, o som não é captado por smartphones usados, mas sim por microfones especializados na captação de sons marinhos das agências de proteção dos EUA e do Canadá. E o algoritmo da Rainforest Connection foi adaptado para identificar sons de baleias jubarte e de orcas.

“Para se ter uma ideia da dificuldade de um humano flagrar o som desses animais, em um ano de projeto, com áudios de cinco locais diferentes, identificamos cerca de dez encontros. Na quase totalidade do tempo não há orcas nem jubartes nessas passando por essas áreas. É inviável destacar um pesquisador para acompanhar essas gravações em tempo real”, explicou Harvey.

E, nas florestas, o plano de White é ampliar o uso dessa técnica, conhecida como bioacústica. Além das motosserras, ele planeja usar áudios para identificar sons de tiros, para flagrar caçadores. E também para monitorar espécies numa determinada região.

“Para rastrear tigres, por exemplo, existem pessoas que caminham pelas florestas atrás de rastros, como pegadas e cocô. Existem as armadilhas de câmeras, que tiram fotos quando um animal passa. Mas a verdade é que quando um tigre caminha pela floresta, mesmo que ele não faça barulho, existem outros animais que alertam sobre sua presença. Então, nós podemos usar o som, ou o tecido de sons da mata, para dizer o que está acontecendo”, disse White.

“Nas florestas há muita vida, muitas coisas acontecem o tempo inteiro, mas ninguém está lá para ver. Então, ouvir é uma forma interessante para compreender melhor as interações que ocorrem entre as espécies”, contou.

*O repórter viajou a convite do Google.



Fonte: Época - Sérgio Matsuura*



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