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Isolamento e separação levam à criação de novas espécies, diz estudo

Compartilhe:     |  5 de março de 2015

A visão popular de que são as mutações adaptativas que levam ao surgimento de novas espécies, herdada das ideias de Charles Darwin sobre seleção natural e evolução, não é suficiente para explicar a grande diversidade de seres vivos que vemos hoje na Terra. É o que mostra a análise de cerca de 2,2 mil estudos de biologia molecular envolvendo mais de 50 mil espécies pertencentes a praticamente todos os domínios e reinos usados para classificar a vida em nosso planeta. Fruto de mais de uma década de trabalho sobre dados coletados graças aos avanços no sequenciamento do DNA, o projeto da “Árvore do Tempo da Vida” indica que é o isolamento físico, geográfico e biológico de uma população que faz com que, com o tempo, ela acumule incompatibilidades genéticas com a espécie original até se tornar de fato distinta dela — de forma que, mesmo que sejam novamente reunidas, eventuais cruzamentos gerarão uma prole inviável ou estéril.

TESE ‘DIFÍCIL DE ENGOLIR’

Embora frise que a descoberta não signifique que não existam mutações adaptativas no sentido darwinista, Blair Hedges, diretor do Centro para a Biodiversidade da Universidade Temple, nos EUA, e um dos líderes da pesquisa, publicada ontem no periódico científico “Molecular Biology and Evolution”, destaca que os resultados da análise mostram inegavelmente que são o isolamento e o tempo, e não a adaptação, os principais motores da especiação, nome dado ao processo de separação de espécies de seres vivos a partir de um ancestral comum. Tanto que, seja para uma planta, um inseto ou um vertebrado, a Árvore indica que o período necessário para que isso aconteça é aproximadamente o mesmo para todos estes tipos tão diferentes de seres: cerca de 2 milhões de anos.

— Este achado demonstra que a especiação é mais dependente do tempo do que pensávamos — diz Hedges. — A adaptação continua a ocorrer, então não estamos dizendo que Darwin está errado e que mutações adaptativas não levam a novas espécies, mas sim dizendo que a especiação e a diversificação são processos separados da adaptação. A princípio, vai ser difícil para as pessoas engolir esta constatação, já que ela vai de encontro à ideia popular de que é a adaptação que guia a especiação. Eu mesmo fiquei surpreso com estes resultados, mas, diante da força das evidências, é inevitável aceitá-los. Dado o isolamento durante o devido tempo, uma população vai se tornar uma nova espécie mesmo que não sofra alterações adaptativas.

E esta não foi a única descoberta do estudo que vai contra o senso comum. A análise indicou ainda que, em quase todos os “ramos” da Árvore, o ritmo de especiação e diversificação se manteve constante ou até acelerou ao longo da história da vida na Terra, contrariando a noção de que deveria diminuir à medida que novas espécies ocupavam os nichos ecológicos disponíveis. Como prova reversa disso, os cientistas lembram que, após os eventos de extinção em massa pelos quais nosso planeta passou ao longo dos últimos 250 milhões de anos, não foi observada nenhuma grande aceleração neste ritmo entre as espécies sobreviventes.

— O constante ritmo de diversificação que encontramos indica que os nichos ecológicos para a vida não estão ficando saturados — conta Hedges, para quem o projeto ajudará nas pesquisas em campos que precisam de perspectiva evolucionária, da agricultura à medicina e aos possíveis efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade. — O objetivo último da Árvore do Tempo da Vida é descobrir quando cada espécie e todos os seus ancestrais surgiram ao longo do caminho até a origem da vida na Terra, há cerca de 4 bilhões de anos.



Fonte: O Globo - Cesar Baima



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