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João Pessoa completa 435 anos e a natureza agradece com seus habitats naturais

Compartilhe:     |  5 de agosto de 2020

Por Alexandre Nunes

Uma cidade urbana, praticamente sem zona rural, que começa sua história no Varadouro, especificamente no Porto do Capim, às margens do Rio Sanhauá, João Pessoa, no decorrer dos seus 435 anos, retardou o seu processo de ampliação da malha urbana, que aconteceu de forma muito lenta, se for comparar com outras cidades em que houve um grande boom imobiliário. Segundo explica o historiador Valdir Lima, isso contribuiu e muito para a preservação dos ecossistemas existentes em seu território, principalmente para a preservação do verde.

João Pessoa é uma das cidades mais verdes do país, porque, segundo esclarece o historiador, há um diálogo frequente e contínuo na geografia e no paisagismo da cidade, com sua expansão urbana, o que tem contribuído para que rios, mangues e matas sobrevivam. “A cidade cresceu, mas por muito tempo conservou as características das cidades do interior nordestino, ou perdeu pouco dessas características. Mesmo João Pessoa sendo uma capital, manteve por muito tempo a característica de uma cidade pequena, com uma arquitetura bem clássica e com os espaços de poder muito próximos uns dos outros, a exemplo das igrejas, sedes dos governos municipal e estadual, Câmara de Vereadores e Assembleia Legislativa, Palácio da Justiça e quartéis. Essa personificação é muito presente na Praça dos Três Poderes, ou seja, na Praça João Pessoa, onde literalmente se encontra os poderes executivo, legislativo e judiciário”, observa.

O historiador reitera que a cidade sofre uma influência muito grande do interior da Paraíba, o que ele considera como algo muito positivo e que, de certa forma, também tem influenciado na preservação do verde, ou seja, das pequenas reservas florestais que João Pessoa tem, a exemplo dos remanescentes de Mata Atlântica, como acontece no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em pleno centro da cidade, no bairro do Róger, e no Jardim Botânico Benjamim Maranhão, na Mata do Buraquinho.

Valdir Lima lembra que, quando a cidade não tinha ainda água encanada, o Parque Arruda Câmara (Bica) fornecia o precioso líquido para a população. Era uma época em que a cidade tinha características rurais, pois havia muitos sítios, e os moradores criavam animais e pegavam água na fonte da Bica.

O historiador informa que há pelo menos 100 anos atrás, o atual Parque Solon de Lucena, a Lagoa, ainda não era um espaço público, mas fazia parte de um conjunto de vários de pântanos alagadiços que acumulavam água de chuva e formavam a então conhecida “Lagoa dos Irerês”, por conta do grande número de marrecos que viviam às suas margens e buscavam suas águas. O local atualmente é uma grande e bela área verde com resquícios da Mata Atlântica e árvores como ipês, pau-brasil e acácias, além de um majestoso colar de palmeiras imperiais.

“É quando a cidade cresce, adquire alguns equipamentos, espaços de entretenimento, lazer e cultura, como o Cassino de Verão, que depois se transforma no Cassino da Lagoa, Teatro Santa Rosa e Clube Astreia. A cidade começa a se espreguiçar, a crescer e a querer respirar ares de cidade grande, talvez até influenciada por Recife, uma metrópole próxima. E aí, acanhadamente, João Pessoa começa a ter contornos de cidade moderna, contudo, sem perder suas características, que até hoje se mantêm, de cidade pequena, arborizada e com clima pitoresco bucólico”, ilustra.

O berço: Rio Sanhauá

A riqueza paisagística de João Pessoa é privilegiada. Parte do Centro Histórico fica na cidade baixa, por onde passa a malha ferroviária e o Porto do Capim, e parte fica na cidade alta, onde está localizado o Hotel Globo, que oferece uma visão panorâmica do Rio Sanhauá e suas belezas naturais. “O rio onde tudo começou, serviu de berço para o surgimento da Paraíba. Na verdade, o estado começa com a cidade, ou seja, a vida na organização do núcleo de povoamento começa a partir das águas do rio Sanhauá, tão bem retratado nos poemas de Lúcio Lins e musicado pela grande artista paraibana Eleonora Falcone”, enfatiza o historiador Valdir Lima.

Segundo explica ele, em João Pessoa, a segunda cidade mais antiga do Brasil, é possível conviver harmoniosamente com o rio, a mata, o manguezal e a estrutura arquitetônica da cidade, um desenho muito bonito e com uma simetria muito grande. E afirma: “A vida das cidades, naturalmente, como em toda a humanidade, se localiza próximo a rios e, tal qual acontece com os rios, segue em direção ao mar”.

O historiador lembra que a ocupação urbana de João Pessoa começa com a pequena elite local formada por usineiros e senhores de engenho se instalando na ruas principais do centro, como por exemplo Rua Nova – atual Rua General Osório – e Rua Direita – hoje Rua Duque de Caxias -, e segue para Jaguaribe, onde são construídos grandes casarões, principalmente, nas ruas hoje denominadas João Machado e Trincheiras. Depois, na década de 1920, no governo de Camilo de Holanda, acontece a abertura da Epitácio Pessoa, uma avenida que liga o centro da cidade à orla, e a expansão urbana caminha em direção às praias.

João Pessoa é uma cidade que também dispõe de recursos hídricos, já que é cortada pelos rios Sanhauá, Jaguaribe, Cabelo, Cuiá, Timbó, Mumbaba, Gramame, Rio da Bomba e Riacho Mussuré. Ao todo são nove rios que se fazem perceber no desenho da cidade. Valdir ressalta que a degradação desses mananciais tem mobilizado os ambientalistas, numa luta constante pela preservação das nascentes e despoluição dos leitos e contra a invasão das margens.

Apesar do desenvolvimento e expansão urbana das praias da capital, com um acentuado processo de metropolização e verticalização arquitetônica, em algumas áreas, há uma harmonia com a natureza, já que é proibido por lei a construção dos “espigões”, ou seja, edifícios com mais de 9 metros de altura, nas ruas principais próximas à beira-mar. “Isso faz com que tenhamos ainda uma visão privilegiada do mar e uma ventilação que corre livremente. Pena que a paisagem do Extremo Oriental das Américas esteja ameaçada, devido ao processo de degradação natural que vem causando o desmoronamento da falésia do Cabo Branco. Mesmo assim, a natureza permanece muito harmoniosa e generosa com João Pessoa, porque próximo à falésia do Cabo Branco e Ponta do Seixas temos remanescentes de Mata Atlântica”, ressalta.

Valdir Lima acrescenta que um exemplo de convivência harmoniosa cidade/natureza é o que acontece no bairro do Castelo Branco, onde a Universidade Federal da Paraíba tem o seu campus construído dentro de uma reserva de Mata Atlântica, a Mata do Buraquinho. “Ali convivem harmoniosamente os prédios que compõem a estrutura física da universidade e a mata”, destaca.

Depois, a cidade começa a crescer para a região Sul, com os bairros dos Bancários, Mangabeira, Valentina, José Américo e tantos outros, sem perder a proximidade com a ventilação que vem do mar, passando antes pelo Altiplano. No outro extremo da cidade, é bom lembrar do bairro dos Estados, Jardim 13 de Maio, Ipês e Mandacaru, entre outros, que mantêm uma boa relação com o verde da arborização urbana. Ao descer do Alto do Mateus, vislumbra-se a Ilha do Bispo, com seus manguezais e suas colônias de pescadores, sirizeiros, marisqueiros e catadores de caranguejo, numa relação significativa das pessoas com o meio ambiente, de onde retiram o necessário para garantir a própria sobrevivência.



Fonte: Espaço Ecológico



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