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João Pessoa: uma história que começa às margens de um rio e chega aos 434 anos

Compartilhe:     |  5 de agosto de 2019

Uma terra rica em recursos naturais, repleta de espécies da Mata Atlântica, manguezais, pau-brasil, com toda sua diversidade da flora e da fauna, banhada pelo Rio Paraíba. Assim era o lugar onde se estabeleceu João Pessoa, capital da Paraíba, que completa 434 anos de existência, nesta segunda-feira (5). Os índios potiguara eram os principais habitantes da região, antes da fundação da cidade.

Os indígenas viviam em numerosas aldeias, faziam uso da abundância dos recursos naturais. Esses povos tiravam da natureza, da pesca, caça, da coleta de frutos e da prática da agricultura, todo o seu sustento. As famílias nativas seguiam suas tradições em um trecho de terra então chamado de Parahyba ou Paraíwa, cujo significado é trecho de rio difícil de navegar.

Interessante lembrar que, antes da fundação da cidade de Philipéia, os potiguara comercializavam com os franceses pau-brasil, peles de onça, macacos, papagaio, algodão e resina de árvores. “Em troca, eles recebiam tesouras, facas, espelhos, machados, tecidos, miçangas, objetos úteis e valorizados no cotidiano indígena”, conta o antropólogo e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Estévão Palitót.

A fundação da capital paraibana no final do século XVI, precisamente em 1585, se deu entre conflitos e derramamento de sangue, tendo o índio como protagonista, uma vez que esses povos resistiam ao domínio europeu. Os potiguara eram bravos guerreiros e estiveram juntos aos franceses que frequentavam a costa paraibana em busca de pau-brasil, madeira que era abundante neste território.

De acordo com o historiador e professor George Vasconcelos, a presença francesa e a aliança com os potiguara foram motivos de grande preocupação para Portugal, que teve de lançar mão de diversas expedições militares no sentido de ocupar a região que corresponde
hoje à Paraíba e efetivar assim, sua colonização.

“Em uma dessas expedições, portugueses e seus aliados espanhóis falharam na tentativa de ocupar e fundar o núcleo de povoamento na região que conhecido nos nossos tempos como Forte Velho. O forte, construído de madeira e terra batida, denominado de São Felipe e São Tiago, foi destruído por reações indígenas potiguara e seus aliados franceses”, contou George Vasconcelos.

Durante as guerras de conquista, outros povos indígenas, os tabajara, vindos de terras mais afastadas, próximas ao Rio São Francisco, se aliaram inicialmente com os potiguara, ambos de língua tupi. Aliás, conforme explicou o antropólogo Estévão Palitót, o tupi era falado no litoral brasileiro, desde o sul de São Paulo até o Ceará. “O portugueses a chamavam de língua geral da costa do Brasil, porque um índio do litoral do Ceará poderia se comunicar na língua Tupi com um índio do litoral Sul de São Paulo”, frisou Palitót.

Com costumes semelhantes e falando a mesma língua, os potiguaras e tabajaras firmaram uma aliança e conviveram em harmonia durante um período. Depois, essa aliança foi quebrada e os tabajara passaram para o lado dos portugueses.

Com o apoio dos tabajara, Portugal consegue, enfim, fundar o núcleo de povoamento. Nascia assim, a Filipéia de Nossa Senhora das Neves, às margens do Rio Sanhauá, justamente onde se localiza o Porto do Capim. A cidade foi batizada em honra à divindade católica e ao então rei de Portugal e da Espanha, Felipe II.

“Portugal, então, conseguiu além de um grande aliado, a segurança que precisavam para efetivar a conquista. Vencidos os franceses e expulsos os potiguara para o litoral Norte, a criação do núcleo fixo de povoamento e conquista desta parte do território estava quase efetivada. Mas as lutas com os potiguaras só cessariam de vez no século seguinte”, concluiu o historiador George.

Lagoa de todas as gerações

Uma das paisagens que chama bastante atenção e está viva no dia a dia dos pessoenses é o l Parque Solon de Lucena (Lagoa). Entre 1935 e 1940, o governador eleito de forma indireta, Argemiro de Figueiredo, urbanizou a espaço, antes chamado de Lagoa dos Irerês.

Segundo José Octávio, nesse mesmo período, ele ergueu o colégio Lyceu Paraibano e criou a Avenida Getúlio Vargas. Por fim, construiu o Cassino da Lagoa, que hoje funciona como restaurante, mas em meados do século XX funcionou como bar e sorveteria. “Por volta de 1950, o Cassino se tornou palco de grandes manifestações políticas”, declarou José Octávio.

Em cada recanto de João Pessoa, seja na parte baixa ou alta da cidade, podemos encontrar indícios de uma época de conquistas, muitas delas marcadas por batalhas e conflitos políticos. Um deles é a Casa da Pólvora, que servia de armazém para guardar material bélico, situada no alto da Ladeira de São Francisco. Construída em 1710, foi a terceira da cidade. As demais não resistiram ao tempo. A construção da Casa da Pólvora foi motivada pela Guerra dos Mascates, em Pernambuco.

“O receio era que o grupo marchasse para a Paraíba”, recordou Mello. A ameaça não se concretizou, e a Casa da Pólvora continuou com sua atribuição original por muitos anos, até perder a serventia.

As praças também refletem episódios relevantes na evolução urbana. Uma que faz alusão direta a João Pessoa, ex-presidente da capital paraibana, assassinado em 1930, é a Praça Presidente João Pessoa, também conhecida como Praça dos Três Poderes, por estar localizada entre as sedes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais.

O monumento, instalado em 1933, em formato quadrilátero no estilo art déco, simboliza a coragem, o civismo e altivez do ex-presidente da cidade. “Esse monumento é obra de um escultor italiano chamado Uberto Cozzo, que morava em João Pessoa. O monumento é produto de um concurso lançado pelo governador Gratuliano Brito, para homenagear João Pessoa”, contou José Octávio.

A capital paraibana, que foi inicialmente Nossa Senhora das Neves, Filipeia de Nossa Senhora da Neves, Frederica, Parahyba até chegar a João Pessoa, é um pedaço do Brasil repleto de valor histórico, artístico e cultural.

Cidade das fontes naturais

Na história da cidade de João Pessoa, vale reservar um capítulo para as fontes. Esses propulsores de água que guarneceram a região em uma época em que não se imaginava ter redes de esgoto, muitas vezes passam despercebidas pela população. Entre as que existiram ao longo dos séculos, o professor e historiador George Vasconcelos destaca as Fontes de Santo Antônio, localizada no Conjunto Arquitetônico de São Francisco, e a de Tambiá, que está no Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica).

“A água, tirada dessas construções belíssimas, era vendida no lombo de jumentos pelos chamados Aguadeiros, e matou a sede de incontáveis gerações de paraibanos. No período colonial, este era um ofício de pessoas negras livres, pobres e também escravizados”, afirmou Vasconcelos.

O historiador ainda recorda da extinta fonte do Gravatá. Construída no século XVII, próximo à área onde está a Rodoviária de João Pessoa, a fonte foi soterrada em 1922.



Fonte: Espaço Ecológico - Jornal A União - Alexsandra Tavares



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