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Lâmpadas de LED podem provocar impacto ecológico em São Paulo

Compartilhe:     |  25 de outubro de 2014

No início de outubro, o prefeito de São Paulo anunciou uma Parceria Público-Privada (PPP) para modernizar toda a iluminação pública da capital. Fernando Haddad pretende, por meio de edital, definir um consórcio para substituir cerca de 600 mil lâmpadas, em sua maioria de vapor de sódio (amarelas) ou de vapor de mercúrio (brancas), por modelos de LED branco de última geração. Com um investimento inicial de R$ 1,8 bilhão, o parceiro escolhido deverá otimizar e gerir todas as instâncias do sistema ao longo de 24 anos. A prefeitura afirma que a tecnologia irá aumentar a eficiência da rede e proporcionar maior segurança aos paulistanos; por outro lado, especialistas chamam a atenção para o relativo desconhecimento de possíveis impactos ecológicos resultantes desta transição, que vem sendo implantada em grande escala em cidades do mundo inteiro.

Um estudo publicado em outubro no periódico Ecological Applications alerta que o processo pode levar a um potencial agravamento na infestação de insetos voadores nos ambientes urbanos, quadro que poderia resultar em uma cadeia de desequilíbrios na fauna e na flora. Os animais são mais intensamente atraídos pelo diodos emissores de luz (LED, na sigla em inglês) do que pelas lâmpadas amarelas. Os pesquisadores do centro de pesquisa Scion, da Nova Zelândia, descobriram que a atração aumenta 48% quando comparada com a taxa relacionada às lâmpadas de vapor de sódio.

A causa, segundo eles, tem a ver com a evolução biológica dos receptores de luz das espécies, responsáveis pela orientação espacial em situações noturnas. “O receptor mais comum tem sensibilidade ao ultravioleta, ao azul e ao verde, o que explica o motivo de os insetos serem mais atraídos pelos comprimentos de onda azuis, que compreendem uma proporção muito menor do total de luz que emana de lâmpadas amarelas”, diz o entomologista Steve Pawson, um dos autores da pesquisa. E azul é justamente a cor primária dos diodos emissores de luz branca produzidos industrialmente.

O tom aparentemente branco é adquirido a partir de um revestimento de fósforo que absorve os comprimentos de onda azuis mais curtos, e os reemite em comprimentos maiores, fazendo com que a luz pareça branca aos olhos humanos. Na tentativa de amenizar o efeito nos insetos, os cientistas aplicaram filtros para “esquentar” a temperatura da cor, ou seja, torná-la mais avermelhada. Ao contrário das expectativas, os resultados mostraram que a atração dos animais não é substancialmente reduzida com este procedimento. “Nós suspeitamos que a razão para isso seja que cada LED branco que testamos fosse baseado em um azul, portanto mesmo LEDs brancos quentes possuem uma significativa emissão na região azul do espectro visível”, explica Pawson.

O celebrado LED azul A invenção do diodo azul representou o pontapé inicial para a produção industrial do LED branco, que permitiu o desenvolvimento de grandes projetos de iluminação pública como o do prefeito Haddad. A descoberta foi tão celebrada que rendeu o Nobel de Física 2014 para os físicos japoneses Isamu Akasaki, Hiroshi Amano e Shuji Nakamura. A Fundação Nobel julgou pertinente laurear os pesquisadores por terem criado a chave para uma alternativa mais sustentável e eficiente às velhas fontes luminosas – além de emitirem uma quantidade maior de luz, gastam cerca de metade da energia e duram até três vezes mais do que os modelos mais antigos. “Lâmpadas incandescentes iluminaram o século XX; o século XXI será iluminado por lâmpadas de LED”, prenuncia a organização.

No entanto, de acordo com Alessandro Barghini, especialista em impacto da radiação eletromagnética sobre a biosfera pelo Instituto de Biologia da USP, a ampla adoção dos diodos traz um impasse a partir do ponto de vista ambiental. “O aumento da eficiência de um processo leva a um aumento do uso do mesmo processo: a disponibilidade de iluminação artificial mais eficiente corre o risco de aumentar ainda mais desnecessariamente o fluxo luminoso”, explica. E se os impactos ecológicos da poluição luminosa já são consideráveis atualmente, podem se tornar ainda maiores com o crescente deslumbramento pelo LED.

A PPP anunciada pela prefeitura de São Paulo é, de longe, o mais ambicioso projeto do gênero de que se tem registro – em parte porque a metrópole está entre as dez maiores do mundo e pretende atualizar toda a sua infraestrutura elétrica. Outras cidades já promoveram, ou estão promovendo, programas de substituição de luzes antigas por modelos de diodo, mas em nenhum lugar houve a iniciativa de trocar 600 mil lâmpadas como aqui. Londres, por exemplo, pretende substituir a iluminação de 35 mil postes até 2016, enquanto grandes capitais como Milão, Los Angeles, Houston e Nova Iorque fizeram a opção de implantar em suas ruas entre 150 e 250 mil LEDs nos próximos anos.

“Se São Paulo colocar LED em sua rede pública, como é a nossa pretensão, a economia será comparável ao consumo de energia elétrica de uma cidade inteira entre 100 e 150 mil habitantes”, explica Simão Pedro, secretário de serviços da atual gestão. O responsável pela pasta, que coordena o Departamento de Iluminação Pública (Ilume), declarou estar ciente dos riscos ecológicos, mas acredita que os benefícios da medida superem os possíveis prejuízos. “Temos levado muito mais em conta nessa questão ambiental o efeito positivo da diminuição do consumo de energia elétrica do que estudos pontuais”, afirma.

O edital está disponível para consulta pública até 24 de novembro, e deve pautar uma audiência pública entre os dias 10 e 15 do mesmo mês. Segundo o secretário, o documento de licitação será publicado oficialmente em dezembro deste ano, e o cronograma prevê a assinatura do contrato com o vencedor no primeiro trimestre do ano que vem. O consórcio escolhido deverá assumir o controle de todo o parque elétrico nos primeiros seis meses de vigência da parceria e, já em 2015, construir um centro de controle operacional para monitorar a rede remotamente e em tempo real, além de implantar cerca de 60 mil lâmpadas de LED (10% do total).

Nos quatro anos seguintes, a concessionária deverá substituir anualmente pouco mais de 22% do total de luminárias, de modo que ao final do quinto ano todo o sistema já esteja atualizado e plenamente operante. Algumas diretrizes devem orientar o processo. “Pretendemos doar bens inservíveis para prefeituras mais pobres que estão assumindo ativos de iluminação pública que antes eram das concessionárias”, diz Simão Pedro, que reforçou o fato de a prefeitura ter oficializado a intenção em um decreto. “As lâmpadas substituídas seguem a norma de que os fabricantes têm que dar a destinação correta, principalmente para as de mercúrio, que são mais complicadas do ponto de vista ambiental”, ressalta.

Ao longo de 24 anos, a empresa ou o consórcio que cobrar a menor contraprestação da prefeitura deverá receber um valor máximo de R$ 7,3 bilhões pelos serviços prestados. De acordo com o secretário, este limite consiste no montante total arrecadado pelos cofres públicos por meio de taxas mensais cobradas nas contas de luz dos cidadãos (R$ 4,60) e das empresas (R$ 11), que resultam atualmente em R$ 280 milhões ao ano.

O LED branco tem um lado negro? 

Quem mora na capital e transita regularmente pela Avenida 23 de Maio deve ter reparado que desde abril deste ano as lâmpadas nos postes são de diodo branco. O secretário de serviços Simão Pedro defende que a transição trouxe melhorias significativas ao tráfego. “Dois anos de gestão no Ilume nos mostrou que a melhor iluminação diminui os acidentes em grandes vias. Estamos para apresentar um estudo da CET [Companhia de Engenharia de Tráfego] para verificar o quanto diminuíram os problemas de trânsito na região da 23 de Maio entre o aeroporto e o Anhangabaú”, comenta. Outras áreas também já contam com a luz branca do LED, como o Parque Ibirapuera e algumas localidades do centro. “Ninguém nunca questionou, pelo contrário, a população tem gostado muito”, pontua.

Steve Pawson, autor do estudo que verificou o aumento na taxa de atração dos insetos, não deixa de reconhecer os pontos positivos da PPP paulistana. “A decisão de São Paulo de atualizar sua iluminação municipal é um plano muito ambicioso, e vai trazer claros benefícios em termos de economia de energia e de redução dos custos associados à manutenção com a expectativa de vida mais longa dos LEDs”, argumenta. “No entanto, uma mudança tão significativa no perfil da iluminação noturna trará consequências ecológicas. Prever a extensão, magnitude e escopo delas é difícil, senão impossível”, aponta o entomologista.

Pawson enxerga a medida como uma chance de ouro para os pesquisadores brasileiros empreenderem estudos que avaliem o antes e o depois da transição e, assim, descobrirem de forma mais contundente se existe ou não um lado negro no LED branco. “Eu encorajo os cientistas locais a trabalharem em conjunto com os oficiais do governo para desenvolver um estudo que mensure o escopo e a magnitude de qualquer efeito ambiental deste plano tão ambicioso, de forma que possa ser útil ao processo de tomada de decisão de outras cidades”.



Fonte: Revista Galileu



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