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Lista de árvores tombadas em Porto Alegre é atualizada sem incluir novos exemplares

Compartilhe:     |  24 de maio de 2015

Desde a década de 1970, algumas centenas de árvores da Capital são imunes ao corte. Um relatório preserva 308 espécies exóticas e 360 nativas, classificadas por beleza, localização, raridade e potencial sementeiro. São critérios que não vêm da academia, mas o estudo desses exemplares pode parar lá depois. As árvores interferem no microclima da cidade, na interação de espécies — inclusive o Homo sapiens — e até no curso da história.

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O inventário — um dos primeiros feitos Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), criada em 1976 — ganhou uma atualização que será publicada nos próximos dias. O levantamento foi coordenado por Lísia Ely, funcionária secretaria que bancou a detetive e pesquisou praticamente sozinha o paradeiro de quase 1,8 mil árvores. Os resultados mostram um pouco da gestão verde da Capital. Mais de metade delas saíram da lista: ou porque já não existiam mais ou porque o endereço estava errado.

O tombamento é apenas uma parte da preservação. Outras regras existem para transplante, poda e supressão, e quem fizer isso sem autorização é multado. Atualmente, 87% das árvores de Porto Alegre são plantadas pela própria Smam e apenas 13% por cidadãos.

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Nos bastidores, quem conhece a lista diz que ela é um problema para a secretaria, que recebe frequentes solicitações de destombamento devido à construção de novos empreendimentos imobiliários. Nesses casos, o jeito é entrar com processo administrativo ou incorporar a árvore na arquitetura.

O advogado e professor de direito ambiental Gustavo Trindade explica que leis como a do tombamento existem para assegurar a manutenção do verde, mas consideram a segurança. Quando a vegetação ameaça cair, um canetaço viabiliza a sua remoção.

Embora não tenha critérios científicos, o trabalho é considerado importante. Mas biólogos consultados pela reportagem concordam que o inventário peca em pelo menos dois aspectos: manter a inclusão de espécies exóticas, como eucalipto, fícus e pinus, e não incluir novos itens, como exemplares nativos e centenários.

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Pesquisador da UFRGS, o biólogo Paulo Brack explica que uma nova versão do inventário poderia tombar espécies ameaçadas como a xixá, as palmeiras butiás e o palmito-juçara, encontradas em algumas ruas e jardins de casas ou edifícios.

— É uma lista passível de reanálise. Há áreas com muito concreto, em que a presença das árvores ajuda a garantir biodiversidade. Mas há diversas espécies exóticas que poderiam ser substituídas — diz.

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A bióloga Arlinda César, do Instituto Venturi de Estudos Ambientais, acredita que a atualização do cadastro é uma oportunidade de inserir a população e outras esferas públicas, como educação e cultura, no cuidado com o ambiente. Ao mencionar o exemplo da cerejeira como árvore símbolo do Japão, ou o Canadá, que popularizou em souvenires a folha do plátano, ela ressalta a importância de árvores antigas receberem um tratamento digno de patrimônio histórico.

Nativas x exóticas

Grande parte das cidades brasileiras é rodeada de árvores exóticas. Em Porto Alegre, até o início dos anos 2000, elas representavam 53% do total. O Plano Diretor de Arborização Urbana estabeleceu uma meta de 70% para a presença de nativas. A Smam diz que tem priorizado o seu plantio, mas precisaria de novos estudos para saber como estão esses índices hoje.

As árvores nativas são fundamentais para manter a biodiversidade como um todo. Alguns bichos não conseguem se adaptar a plantas de outras origens. Nesse sentido, a lista de árvores tombadas recém refeita poderia incluir espécies ameaçadas como palmeiras butiás ou o palmito-juçara, por exemplo.

— A arborização e a vegetação urbana como um todo, em resumo, têm duplo papel: ecológico e cultural. Sem isso, teremos uma vida sujeita a mais estresse em todos os sentidos — afirma o biólogo Paulo Brack.

Também há árvores que, do ponto de vista cultural, poderiam estar no novo relatório. Uma delas é a paineira que demarca historicamente a Rua Siqueira Campos, no Centro.



Fonte: Zero Hora



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