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Lixão a céu aberto garante ambiente fértil pra proliferação de mosquito

Compartilhe:     |  2 de fevereiro de 2016

Como é possível depois de 40 anos de combate a mosquito chegarmos ao caos de causar emergência mundial com a propagação explosiva do vírus zika? Com a mentalidade atrasada de quem toma decisões em nosso nome, como o adiar o fim dos lixões. Enquanto tiver lixão a céu aberto, tá garantido ambiente fértil pra proliferação de mosquito.

A moça entrou no ônibus com seu filho no colo, não se diferenciava de qualquer outra jovem mãe. Até que ajeita a criança para passarem pela roleta. Dá para ver a diferença na cabeça do menino, meus olhos se enchem de água. Entendo na hora o quanto é pequena a comoção que se sente com as notícias sobre microcefalia associada ao vírus Zika quando se vê de perto um inocente pagando pela omissão e irresponsabilidade de “administradores” públicos e legisladores.

Sim, omissão e irresponsabilidade, e falta de escrúpulos, consciência e ética, porque o mosquito que transmite Dengue, Zika e Chikungunya não é um desconhecido na terrinha. Muito menos é um mistério como se prolifera e como é combatido. E, especialmente, porque afeta a vida das pessoas, muitas pessoas, que somos nós. Nós, que pagamos vários impostos e financiamos serviços que deviam estar disponíveis, mas, somos roubados sistematicamente em dinheiro, cidadania e direitos.

Eu participei do primeiro Dia D Contra a Dengue, a mobilização nacional do Ministério da Saúde para combater o mosquito Aedes aegypti. Foi em 2002, com uma estratégia bacana, que envolveu ongs e apoiou ações antes da data de lançamento da campanha, então, quando chegou o dia de botar o bloco na rua já tinha informação e engajamento circulando pelas cidades. O ambientalista Eduardo Romero me convidou para criar a campanha do Bálsamo, em Campo Grande [MS], sugeri o slogan Todo dia é Dia D! já que a necessidade do esforço ser constante estava indicada nos dados: 800 mil casos de Dengue registrados no Brasil; transmissão de Dengue em todos os estados [menos Santa Catarina e do Rio Grande do Sul]; número absoluto de mortes por Dengue maior que por Malária.

Nesse ano, o governo federal implantou o Programa Nacional de Controle da Dengue [PNCD], com 8 medidas essenciais, entre elas “a atuação multissetorial, no fomento à destinação adequada de resíduos sólidos”, e gastou cerca de R$ 1 bilhão, dos quais 85% em vigilância e controle do mosquito. Em 2003, gastou R$ 790 milhões com custeio, compra de equipamentos e inseticidas, manutenção e capacitação de pessoal e ações de comunicação.

São quase 14 anos só na história recente do combate ao Aedes Aegypti no Brasil. Tempo bastante para fazer o certo do jeito certo. Não era para estarmos em situação tão crítica. Não era para ter um brasileiro em qualquer canto do país sem saber o que fazer e sem agir para eliminar focos e sem cobrar as responsabilidades dos administradores públicos. Ainda mais com tanta tecnologia para engajar, inspirar e informar, não era para chegarmos em 2015 com a maior das epidemias de Dengue no país nem 2016 com esse caos de mosquitos, Dengue, Zika e Microcefalia.

As mesmas orientações até hoje repetidas

Sem a tal da destinação adequada de resíduos sólidos

A relação óbvia entre ambiente e saúde parece desimportante para governos e sociedade. Confundimos higiene com aparência. Estamos no topo do ranking mundial de consumo de produtos e serviços de beleza. Somos ótimos consumidores e péssimos cidadãos, engajados na desimportância de vivermos em um ambiente saudável, desengajados do dever cuidar e do poder cobrar.

Carnaval importa, futebol importa, selfie importa, consumismo importa, ostentação importa, saber a cor da cueca do jogador de futebol importa, usar o esmalte da atriz da novela importa, comentar o que fazem as celebridades boçais importa, curtir transas, traições, bebedeiras e reboladas da parada musical universitária importa, smartphone conectado importa, fofocar no zapzap importa. Ter lixões na sua cidade não importa, espalhar lixo em calçadas, praças, praias, rios não importa, ambientes sujos não importam, você nem nota, isso não merece a sua atenção.

A sujeirada que amontoamos nas cidades mantém insalubres os lugares em que moramos. A gestão displicente do lixo que geramos favorece a proliferação de baratas, formigas, pulgas, ratos e de mosquitos, claro! Então, sinto dizer que podemos gastar uma dinheirama no combate ao Aedes Aegypti que vamos continuar enxugando gelo. Vai ter mosquito proliferando adoidado enquanto houver lixão, enquanto não investirmos na Gestão Eficiente dos Resíduos.

Inacreditável ainda ser assim - registro em 31/01/2016 na cidade do Rio de Janeiro

Inacreditável ainda ser assim – registro em 31/01/2016 na cidade do Rio de Janeiro

Temos uma lei nacional para cuidarmos do “lixo”, avançada, bonitona no papel, desconhecida da maioria da população. É a Política Nacional de Resíduos Sólidos [PNRS], em vigor desde 2010, ignorada por administradores públicos e legisladores. Conforme seus prazos, os Planos Municipais de Gestão de Resíduos seriam entregues até agosto de 2012 e o fim dos lixões nas cidades brasileiras ocorreria até agosto de 2014. Nenhum dos dois foi cumprido.

De acordo a Associação dos Municípios, não tem “nível técnico” para elaboração dos planos de gestão de resíduos nas cidades pequenas do interior do Brasil. Bom, se havia ciência disso, e a associação representa os municípios, alguma saída devia ter sido pensada antes de vencer o prazo, né? Não implantar a Política Nacional de Resíduos Sólidos significa não cumprir a lei, o que definitivamente não é uma solução, sequer poderia ser uma opção tamanho desrespeito a nós. Os deputados federais e senadores dispõem de altas verbas para consultorias, por que não contrataram para auxiliar “seus” municípios e estados a atenderem a essa demanda de interesse de todos nós? Pois é… O pior é que preferiram adiar o fim dos lixões.

Deputados federais “geniais” aprovaram em outubro de 2014 empurrar tudo para 2018. Senadores “geniais” superaram os colegas e aprovaram em julho de 2015 esticar o adiamento do fim dos lixões para até 2021. Prefeitos e governadores insistem nos lixões a céu aberto em 60% dos municípios brasileiros, tão “geniais” quanto deputados estaduais e vereadores que fazem de conta que não há problema nisso. E com toda essa “genialidade”, decidiram por um provável colapso do lixo, garantiram criadouros oficiais de mosquitos até agora e por mais 5 anos, nos ajudando a estar expostos aos riscos da Dengue e do Zika. Também estão engajados na desimportância de vivermos em um ambiente saudável.

Os lixões são foco constante da proliferação de mosquitos. A misturância de lixo orgânico com materiais recicláveis faz deles uma rede de motéis para os Aedes Aegypti namorarem e abrigarem as larvas de seus milhares de mosquitinhos, patrocinada por todos nós.

Despejamos 30 milhões de toneladas de lixo nos lixões em 2014, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Sólidos [Abrelpe], dava para encher mais de 200 Maracanãs, imagina. A geração de lixo aumentou quase 30% em apenas 4 anos, desde 2010. 20 milhões de brasileiros nem contam com coleta de lixo.

Sem Gestão Eficiente dos Resíduos, continuamos jogando tudo que consideramos lixo em qualquer lugar. Criando nossos lixõeszinhos portáteis, permitindo lixões nas cidades, aceitando não ter coleta seletiva, asseguramos ambientes propícios para os mosquitos. A “disseminação explosiva” do vírus Zika e o recorrente avanço da Dengue estão diretamente relacionados com aspectos ambientais e sociais, para os quais temos legislação que simplesmente não cumprimos.

Não precisa desenhar

A Organização Mundial de Saúde [OMS] alerta ao mundo que o Brasil é propagador do vírus Zika nas Américas. O governo brasileiro anuncia guerra com armas das batalhas até agora perdidas na tolerância absurda ao fato da Dengue causar mortes. Era só aqui, né?

O espalhamento do vírus e da má fama é oportunidade para ajustar a mira, acertar o alvo, considerando aspectos ambientais e sociais, para fazer o bom combate. Mudar da displicência para a eficiência na destinação dos resíduos sólidos é o primeiro round. É urgente investir no fechamento dos lixões nos municípios, na elaboração dos Planos Municipais de Gestão de Resíduos, na efetivação da responsabilidade compartilhada pelo lixo nosso de cada dia, na coleta seletiva, na reciclagem e na educação ambiental.

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A destinação adequada dos resíduos, prevista no programa lá de 2002, é um dos aspectos ambientais e sociais que precisamos incluir no combate a mosquitos, Dengue ou vírus Zika, não o único. Estudo na floresta Amazônica indica que a combinação entre desmatamento, agricultura e cobertura de vegetação baixa no lugar da floresta natural torna o ambiente mais propício para o mosquito. Uma das integrantes do estudo aqui, Amy Y. Vittor, professora assistente de medicina da Universidade da Flórida, também aponta que urbanização e pobreza criam o ambiente fértil para os mosquitos se alastrarem por amplos espaços. E os efeitos das mudanças climáticas, como temperaturas mais altas e maior umidade, ainda podem tornar áreas sem boa vida para os mosquitos em outros ambientes férteis.

A natureza não tem fronteiras nem preconceitos. Se na comunidade vizinha dos condomínios chiques não tem coleta de lixo nem saneamento, pobres e ricos estão expostos aos mesmos riscos.  No entanto, a desigualdade social diferencia os recursos a que pobres e ricos têm acesso. Alguns podem comprar telas, repelentes e inseticidas, evitar gravidez e bebês microcéfalos, a maioria depende da saúde pública [em crise] em estados e municípios [em crise].

O governo federal informa que vai distribuir repelentes industriais para grávidas e dependentes do bolsa-família. Por que prefere comprar produtos cheios de química ao invés de investir no repelente natural, brasileiríssimo, de qualidade superior, capaz de repelir o mosquito transmissor da Dengue, da Chikungunya e do Zika vírus sem nenhuma contraindicação, já aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa]? Conviver com o mosquito na base de repelentes e inseticidas não resolve, é mais um negócio que intoxica gente, bichos e meio ambiente. E com um toque de falta de visão de nação, é um convívio ainda mais surreal.

Nós vamos isso, nós vamos aquilo…

Nós não vamos nada só com frases de efeito e mais do mesmo. Vamos é surtar a cada Verão em tempos de aquecimento global, sem atuação articulada aos aspectos ambientais e sociais determinantes tanto para a proliferação do mosquito e a propagação de Dengue e Zika quanto para as soluções.

Por duas vezes declaramos a eliminação do último foco de mosquitos e a erradicação do Aedes, em 1955 e 1973. O Ministério da Saúde tem programas de combate ao mosquito desde 1976, quando fomos reinfestados por causa de falhas na vigilância epidemiológica e das mudanças sociais e ambientais com a urbanização acelerada. Daí, tivemos as três epidemias de Dengue no Brasil de 1986 a 1999. A partir de 1994 ocorreu a rápida dispersão do mosquito Aedes Aegypti pelo país, o que culminou na terceira onda epidêmica [1997 e 1998]. Em 1996, o Plano de Erradicação do Aedes aegypti [PEAa] gastou em três anos de mais de 1 bilhão de reais para estruturar o combate em 3.701 municípios, porém, sem investir em saneamento, informação, educação e comunicação social nem em legislação de suporte [apesar de previsto]. Em 2001, foi lançado o Plano de Intensificação das Ações de Controle da Dengue [PIACD], substituído no ano seguinte pelo PNCD do Dia D.

Mobilização, mutirão, exército, repelente, fumacê, orientações de sempre, promessas de vacina, nenhuma “ideia nova”, nenhum milagre. Ainda hoje tem gente que não abre a porta de casa pelo mesmo motivo de décadas atrás, insegurança e violência. Ainda hoje tem focos de mosquitos em terrenos e imóveis particulares pelo mesmo motivo de décadas atrás, especulação imobiliária. Ainda hoje tem focos em obras paradas, construções inacabadas e prédios desativados pelo mesmo motivo há décadas, abandono do poder público.

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E lá se foram 40 anos de combate… O mundo mudou. Mudamos radicalmente de áreas rurais para áreas que urbanizamos violentamente, mudamos a maneira de nos comunicar, mudamos comportamentos e hábitos de consumo, mudamos para mais a cada ano a quantidade de lixo que geramos, mudamos o clima. O Brasil mudou. Com mais pessoas nas cidades, mais urbanização, mais imobilidade, mais pressas, mais pressão comercial em distrações de entretenimento e futilidades, temos menos tempo e interesse de cuidar do lugar em que moramos e dos espaços e equipamentos públicos, de uso coletivo. E a participação cidadã vem diminuindo na medida da acumulação de tragédias evitáveis, com perda da confiança nos administradores públicos e da credibilidade dos governos.

O desafio de não comprometer as possibilidades das gerações futuras empaca na governabilidade torta e na governança frouxa dos “líderes” políticos que se igualam na estupidez de fazer de conta que meio ambiente e pessoas são dispensáveis. Precisamos fazer a passagem da mediocridade para um novo gerenciamento de políticas públicas, guiado por outros valores, e da imaturidade do negar, mentir e roubar para a gestão que tem a cidadania como suporte de governos [locais, regionais e nacional].

A mentalidade atrasada de quem toma decisões em nosso nome faz com que tragédias se repitam e problemas se agravem. E não, não estou falando desse ou daquele partido. O nosso desastre mais devastador é elegermos uma maioria de representantes imbecilizados por poder, mordomias e esquemas, descontrolados nos destinando a prejuízos ambientais, sociais e econômicos, ignorantes úteis ao crescimento custe o que custar, obedientes a um moral mercantil imoral, incapazes até para cumprir leis, sequelados por vontade própria.

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Conheça o Bio-repely, repelente natural criado por pesquisadores pernambucanos, aprovado pela Anvisa: http://www.unasus.gov.br/noticia/dermatologista-pernambucano-cria-repelente-natural-contra-o-aedes

Leia o estudo que relaciona ambiente, desmatamento, clima, urbanização e pobreza com a proliferação de mosquito e com a propagação do vírus Zika: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/de-onde-vem-o-zika-e-por-que-ele-e-um-problema-no-brasil

Saiba mais sobre a história do combate ao mosquito no Brasil no Artigo “Aedes aegypti: histórico do controle no Brasil” de Ima Aparecida Bragal e Denise Vallell{ http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?pid=S1679-49742007000200006&script=sci_arttext

Descubra os 7 erros no combate ao mosquito no Brasil: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/01/1735561-foco-no-mosquito-e-questionado-apos-30-anos-de-epidemias-de-dengue.shtml

Acesse o PDF do Guia para a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos nos municípios, disponível desde 2013 pelo Programa Cidades Sustentáveis, e ajude os moradores a se mobilizarem por uma gestão eficiente do lixo na sua cidade: http://www.mncr.org.br/biblioteca/publicacoes/livros-guias-e-manuais/guia-para-a-implantacao-da-politica-nacional-de-residuos-solidos-nos-municipios-brasileiros-de-forma-efetiva-e-inclusiva



Fonte: Revista Ecológica - Beatriz Diniz



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