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Lixo na Baía de Guanabara preocupa atletas das Olimpíadas de 2016

Compartilhe:     |  10 de junho de 2014

Nico Delle Karth, velejador austríaco se preparando para as Olimpíadas de Verão de 2016 declarou que a Baía de Guanabara era o lugar mais sujo no qual ele já havia treinado.

Lixo de todo tipo surgia na superfície, de pneus de carros a colchões flutuando. A água fedia tanto a esgoto que ele tinha medo de colocar o pé para impulsionar seu barco na água.

— Nunca vi algo assim antes —, Delle Karth disse sobre a Baía de Guanabara, onde serão realizadas as provas de iatismo e de windsurfing.

Agora que o Brasil luta para terminar uma série de estádios para o início da Copa do Mundo em menos de duas semanas, o país sofre duras críticas pelo gerenciamento do próximo megaevento em suas mãos, os Jogos Olímpicos de 2016.

Francesco Ricci Bitti, presidente da influente associação que representa vários esportes das Olimpíadas de Verão, disse que os Jogos no Rio estavam na — posição mais arriscada— de todas as Olimpíadas que ele conseguia recordar. John D. Coates, um dos vice-presidentes do Comitê Olímpico Internacional, declarou em abril que os preparativos do Rio eram — os piores que ele já havia vivenciado —, faltando ainda começar a construção do Parque Olímpico Deodoro, o segundo local mais importante depois do Parque Olímpico.

A Baía de Guanabara, situada entre o Pão de Açúcar e outros picos, oferece o tipo de imagem de cartão postal que as autoridades cariocas, como anfitriões dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, querem celebrar. Porém, ela se tornou o ponto central das reclamações que transformaram as águas poluídas do Rio no símbolo das frustrações com os preparativos tumultuados para as Olimpíadas.

— Bem-vindo à lixeira que é o Rio —, declarou a equipe de iatismo alemã em uma avaliação tipicamente franca sobre a sede da regata olímpica.

Os brasileiros que treinam aqui concordam.

— Pode ficar bem nojento, com carcaças de cachorros em alguns locais e água marrom pela contaminação dos esgotos —, declarou Thomas Low-Beer, de 24 anos, aspirante olímpico brasileiro que navega na baía. Ele se recorda de seu barco se chocando com o que acreditava ser um sofá parcialmente submerso, derrubando-o nas águas escuras da Baía.

Embora os dirigentes internacionais reclamem que o Brasil tenha tido quase cinco anos para se adiantar desde que venceu sua candidatura às Olimpíadas, alguns dos atrasos têm origem em problemas crônicos com os quais a nação luta há tempos.

Há décadas, prejudicadas pela improbidade administrativa e por alegações de corrupção, campanhas bem financiadas acabaram sendo decepcionantes. As rivalidades políticas nas esferas do governo municipal, estadual e federal provocaram brigas internas, inclusive um impasse sobre quem deve pagar por certos projetos das Olimpíadas. Manifestações contra os despejos para dar espaço às Olimpíadas desaceleraram as obras.

As Olimpíadas estão longe de ser a única grande preocupação de um país que luta com a desaceleração econômica. A Copa do Mundo começa em 12 de junho, vários dos 12 estádios onde as partidas de futebol devem ser realizadas ainda não estão prontos, e inúmeros projetos de transporte só serão encerrados após o fim do torneio. E para piorar, um operário morreu em um acidente de trabalho em maio – o oitavo trabalhador morto em serviço nos estádios da Copa do Mundo.

A preparação para as Olimpíadas pode ser um desafio ainda maior. As autoridades brasileiras haviam sustentado que as sedes dos Jogos Pan-Americanos em 2007 podiam ser reformadas a baixo custo. Mas no ano passado, tiveram de demolir um velódromo, pois ele não estava dentro dos padrões das Olimpíadas. Agora, a cidade planeja construir uma nova estrutura que custa 10 vezes mais que a original.

Greves atrasaram as obras do Engenhão, que sediou os Jogos Pan-Americanos, após sua interdição no ano passado por receio de que o teto pudesse desabar; o estádio será usado para as competições de atletismo em 2016. Confrontos violentos entre os trabalhadores grevistas e os seguranças também atrasaram as obras do Parque Olímpico, o principal complexo de instalações dos locais de competição.

Algumas autoridades afirmam que a situação é mais precária que os preparativos das Olimpíadas de 2004 em Atenas.

— Acho que em termos de disponibilidade de tempo, estamos em pior situação —, disse Ricci Bitti, presidente das Federações Internacionais das Olimpíadas de Verão.

Ricci Bitti e outros dirigentes das Olimpíadas declararam publicamente que não existe Plano B, e que os jogos não serão transferidos do Rio. Mesmo assim, as autoridades brasileiras responderam à crítica com declarações que não tranquilizaram nem um pouco os dirigentes do evento.

Eduardo Paes, prefeito do Rio, declarou aos repórteres que ele e outras autoridades tinham — total certeza — de que cumpririam as promessas de entregar os locais dos jogos dentro do calendário.

O ministro dos esportes, Aldo Rebelo, rebateu as notícias não confirmadas de que os dirigentes dos Jogos Olímpicos estavam cogitando transferir a sede dos jogos.

— Essa especulação não passa de um blefe —, Rebelo disse. E, salientando a grande arrecadação de patrocínios para os jogos no Rio, declarou, — A Olimpíada no Rio de Janeiro também é um bom negócio para o Comitê Olímpico Internacional —.

De todos os desafios que o Brasil enfrenta, a despoluição da Baía de Guanabara pode ser o mais difícil.

As autoridades prometeram enfrentar o problema depois que a conferência das Nações Unidas, a ECO-92, chamou a atenção para as águas imundas do Rio. O governo fluminense conseguiu mais de um bilhão de dólares em empréstimos através do governo do Japão e do Banco Interamericano de Desenvolvimento para os projetos de despoluição, porém, eles não tiveram quase sucesso algum, segundo especialistas do meio ambiente.

O Instituto do Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro estima que mais de 10% do lixo da região não sejam coletados, e que grande parte disso chega à baía através dos canais e dos rios degradados.

Quantidades enormes de lixo bruto vazam para dentro das águas. As autoridades estabeleceram a meta de tratar até 80% da água antes das Olimpíadas de 2016, contudo, menos de 40% estão sendo tratados atualmente. As autoridades responsáveis pelo meio ambiente no Rio reconheceram que não conseguirão cumprir essa meta, segundo reportagem da Associated Press nos últimos dias, que citou uma carta enviada ao governo federal solicitando financiamento para combate à poluição.

Chamando a baía de — turva, marrom e fedorenta —, Lars Grael, de 50 anos, uma lenda do iatismo brasileiro, detentor de duas medalhas olímpicas, falou que já havia se deparado quatro vezes com cadáveres humanos enquanto navegava na baía. Ele disse aos repórteres que as autoridades deveriam transferir os eventos de iatismo para Búzios, que fica a horas de distância.

As autoridades aqui insistem que nada disso irá acontecer. Carlos Portinho, secretário do meio ambiente do estado, afirmou que a crítica à Baía de Guanabara era um exagero, defendendo que os últimos testes haviam demonstrado que a contaminação por coliformes fecais na região da raia olímpica estava dentro dos padrões “satisfatórios” no Brasil.

Reconhecendo que a despoluição da Baía de Guanabara seria um — projeto de longo prazo —, Portinho declarou que as autoridades haviam desenvolvido três pequenos “ecobarcos” para coletar o lixo; até as Olimpíadas, 20 ou 30 poderão estar em operação. Ele declarou que novas estações de tratamento de esgoto estavam sendo construídas, enquanto “ecobarreiras” flutuantes facilitariam a coleta do lixo na baía.

Os especialistas ambientais brasileiros afirmam que essas ações são o mínimo que precisa ser feito.

— O governo poderia empregar até aviões de carga para coletar o lixo da baía e ainda assim o problema não seria resolvido —, disse o biólogo Mario Moscatelli. — A baía ainda seria uma latrina. É um insulto à população carioca dizer que ela estará limpa para as Olimpíadas —.

Em 2008, a China lutou com o crescimento de algas que ameaçava o iatismo. Só que as autoridades chinesas empregaram cerca de 1.000 barcos, o que nem se compara às dezenas que finalmente poderiam constituir a frota da coleta de lixo no Rio.

— A China fez um ótimo trabalho de despoluição da água —, disse Ian Barker, atleta que é treinador da equipe irlandesa de iatismo. Já em relação aos poucos barcos empregados na coleta de lixo na Baía de Guanabara, ele disse, — Isso parece ser a soma de tudo o que fizeram até agora, o que não chega nem a arranhar a superfície do problema —.



Fonte: ZH



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