Denúncia

Lobos-guarás são infectados com sarna após contato com seres humanos

Compartilhe:     |  25 de abril de 2021

Eles foram diagnosticados com sarna sarcóptica, ou sarna canina, uma infestação por um ácaro devastador que também ocorre em cachorros domésticos

Imagem de lobo-guará
Foto: Pixabay

Era 11h30 da manhã e o dia era 4 de fevereiro 2021. Um céu cinza ameaçava chuvas fortes. Tudo estava calmo como de costume na portaria da Fazenda Brejão, mais ou menos 10 quilômetros de Arceburgo, uma cidade de 10,00 no estado de Minas Gerais no Brasil. Luiz Máximo Gonçalves Filho, 53, estava encerrando o seu turno como segurança.

“Eu vi um animal se aproximando, mas tinha algo de errado com ele”, disse ele ao Mongabay. “Quando eu cheguei mais perto, eu pude ver o lobo-guará, mas estava sem pelo no seu corpo.”

Algumas horas depois, às 2h30 da tarde, o lobo-guará reapareceu. A chuva agora já estava caindo forte. Gonçalves Filho foi alertado por um bando de pássaros siriema semelhantes à cegonha, que começou a fugir.

“Eu olhei para baixo na estrada e vi o lobo sem pelo de novo. Eu corri para pegar o meu celular e comecei a filmar.”

Calmamente e com cuidado, o animal, que Gonçalves Filho diz ser provavelmente uma fêmea, entrou na fazenda e desapareceu. Ele nunca mais viu.

A cidade de Arceburgo situa-se na zona entre a exuberante Mata Atlântica e o seco Cerrado. Não é incomum achar animais de ambos biomas aqui, incluindo o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).

“Nós vimos eles aqui na fazenda algumas vezes”, disse Gonçalves Filho. “Eles normalmente vêm à noite para pegar algum tipo de sobra. Eu tenho certeza que vi esse mesmo lobo a cerca de três semanas atrás, mas ela tinha pelo então.”

O vídeo do lobo-guará sem pelo chegou a mesa do secretário municipal do meio ambiente, Ademir Carosia, quem imediatamente contatou o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros no Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (Cenap/ICMBio). Os especialistas  sugeriram a sarna sarcóptica como possível causa do problema do animal, uma condição que também é encontrada em cachorros domésticos e mais conhecido como sarna canina.

O caso não foi uma surpresa para Rogério Cunha de Paula, uma bióloga e analista ambiental no Cenap, que estudou lobos-guarás por 25 anos. De Paula coordena o Plano Nacional de Ação para a Conservação de Caninos Selvagens (PAN Canídeos) no ICMBio e disse que começou a avistar os lobos-guarás com sarna sarcóptica em 2012, nas Montanhas Canastra em Minas Gerais. Um caso em São Paulo afirma ter sido documentado três anos antes, havendo relatos de casos também nos estados de Goiás e Bahia.

“Nós ainda não investigamos o problema completamente”, disse De Paula. “ Mas, no ano passado, começamos a mapear relatos de lobos com alopecia [calvície] parecido com os animais que nós identificamos com sarna sarcóptica.”

Segundo ele, a região onde fica Arceburgo provavelmente está sofrendo uma infestação do ácaro Sarcoptes scabiei, responsável por esse tipo de sarna.

Cachorros domésticos como possível fonte de transmissão

Sarcoptes scabiei é um parasita que vive nas camadas internas da pele do animal hospedeiro. A veterinária Flávia Fiori, uma especialista em lobo-guará no Instituto para a Conservação Neotropical de Carnívoros Pró-Carnívoros, diz que quando ataca a pele do animal, começa a entrar em um túnel na boca, causando desconforto aos animais.

“As consequências da sarna no animal podem eventualmente levar à morte por causa de infecções secundárias”, Fiori disse. “ A pele é o primeiro e maior organismos de defesa, e uma vez que a sua integridade foi comprometida, o animal pode entrar em contato com outros patógenos e desenvolver infecções que enfraquecem ainda mais a saúde”.

Contatos entre os lobos-guará e cachorros domésticos infectados com sarna sarcóptica é o motivo mais provável dos casos na fronteira São Paulo/Minas Gerais.

“Nós ainda não temos nenhum estudo sobre a corrente epidemiológica, ou seja, a forma como o ectoparasita de propaga nos lobos brasileiros”, disse Fiori. “Então, nós não podemos alegar que o lobo em Arceburgo e outros lobos então pegando o ácaro pelo contato com animais domésticos. Mas também não podemos tirar a responsabilidade porque o aumento da proximidade de pets com animais selvagens em geral pode torná-lo provável.”

Sarna sarcóptica pode ser transmitida através do contato direto ou indireto. Transmissão direta, Fiori disse, “pode acontecer entre membros de um grupo familiar, durante a parentalidade, o acasalamento ou brigas. Mas entre animais de espécies diferentes, acontece durante a caça”.

Transmissões indiretas ocorrem quando os animais têm contato com objetos inanimados que animais anteriormente infestados tiveram contato. “No caso da vida selvagem, pode ser pela grama ou mesmo pela toca contaminada”, Fiori disse.

Mas ela acrescentou que essas formas de transmissão conhecidas ainda não foram comprovadas no caso de lobos-guarás.

Mapeamento nacional de casos é um dos projetos em andamento no PAN Canídeos que, entre os objetivos, visa reduzir os impactos negativos de doenças e interações com animais domésticos”.

Além de trabalhar com lobos-guarás, o plano nacional de ação visa reduzir os fatores que causam impactos negativos ao cachorro-do-mato (Speothos venaticus), o cachorro-orelhudo (Atelocynus microtis), e a raposa-do-mato (Lycalopes vetulus). Todas as quatro espécies são classificadas como vulneráveis na lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil.

Historicamente, a maior ameaça para os lobos-guarás tem sido a perda e transformação do seu habitat. Mudanças trazidas pela ocupação humana e atividades econômicas como agricultura e pecuária no Cerrado, o bioma natural da espécie, estão entre as principais causas do encolhimento da população de lobo. No mesmo tempo, o desmatamento das florestas tropicais amazônicas e atlântica permitiu que os lobos se expandissem para áreas que antes estavam fora de sua área natural. As populações de lobo-guará se estabeleceram em áreas onde a Mata Atlântica está sendo regeneradas, e estudos estão em andamento para entender se isso também está acontecendo dentro do Arco do Desmatamento no sul da Amazônia, onde 22 lobos-guarás foram registrados nos últimos 25 anos.

Oito lobos já foram infectados

O mapeamento feito pelos pesquisadores do PAN Canídeos por meio da captura e fotografia de lobos-guará já achou outros sete animais com sarna sarcóptica nos municípios da Mococa, São José do Rio Pardo e Caconde, todos no lado da fronteira de São Paulo com Minas Gerais. Mococa fica apenas 15 km de Arceburgo.

Um dos lobos era uma fêmea de 6 anos, capturada em Mococa em julho de 2019. Ela teve uma ninhada de filhotes, e seu problema de sarna foi descoberto quando imagens dela foram capturadas por câmeras pertencentes ao projeto Lobos do Pardo.

Lobos do Pardo é uma parte do Pró-Carnívoros com a Cenap/ICMBio e uma empresa de fornecimento de energia AES Tietê, visando à conservação das espécies dentro da Bacia do Rio Pardo. Os pesquisadores capturaram o lobo em uma armadilha especialmente projetada para lobos-guará. Eles então foram capazes de coletar amostras de tecido para estudo, medicá-la e liberá-la com um colar de monitoramento. Eles também a chamaram de Pimenta.

“Pimenta tinha graves problemas de pele e pelo, mas o tratamento foi um sucesso”, Fiori disse. Ela disse que animais ameaçados tipicamente mostram grande melhora um mês após a medicação oral, depois de três meses, todos os sinais de sarna desaparecem.

Enquanto o tratamento para sarna sarcóptica está bem estabilizado, a prevenção para a doença não está. E como os estudos sobre a transmissão da doença em lobos-guará só está começando, pesquisadores ainda não têm respostas exatas. Mas evitar contato com animais domésticos é considerado essencial.

“Sem dúvida nenhuma, eu só vejo vantagens em evitar o contato entre animais domésticos e selvagens, especialmente cachorros e gatos domésticos”, Fiori disse. “Ou os lobos-guará então pegando sarna de cachorros ou não, evitando o contato minimiza possíveis riscos de não só isso mas também várias outras doenças que eles podem estar carregando e passando”.

Fiori disse que donos de cachorros e gatos devem cuidar deles com responsabilidade, mantendo a vacinação e tratamentos contra vermes atualizados, garantindo que eles estejam saudáveis e bem alimentados, e protegidos dentro das suas próprias linhas de personalidade.

Quanto ao lobo-guará sem pelo em Arceburgo, oficiais da cidade disseram que eles instruíram os residentes e funcionários da fazenda para contatar as autoridades se eles vissem o animal novamente.

“Eu realmente gostaria de ajudar aquele pequeno lobo”, disse Gonçalves Filho, o segurança que primeiro a viu.

Esse artigo foi primeiramente postado pelo time da Mongabay Brasil.



Fonte: Anda - Dimas Marques (Fauna News) | Maya Johnson (Mongabay) | Traduzido por Giovanna Reis



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