Geografia Ambiental

Maior conjunto de cânions da América do Sul possui mais de 200 quilômetros

Compartilhe:     |  28 de abril de 2015

São 36 cânions, a 1.400 metros de altitude, espalhados em um cenário selvagem entre o RS e Santa Catarina. Imensidão da paisagem impressiona.

Um lugar fascinante. Retrato da história da Terra. Abençoado pela natureza. É uma imensidão em um cenário que não é delicado. Ao contrário: é rude, selvagem, mas grandiosamente sedutor. A paisagem provoca sensações muito diferentes. Em poucos instantes é possível ir da tranquilidade de estar em um campo que parece não ter fim, ao frio na barriga de ver o chão terminar bem pertinho dos nossos pés.

Estamos no maior conjunto de cânions da América do Sul, onde ficamos mais pertinho do céu. São 1.400 metros de altitude. Um lugar de paredões, de rios que serpenteiam pedras gigantes, cachoeiras que mergulham nas profundezas do abismo e de florestas penduradas em precipícios.

É pelos cânions entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que vamos nos aventurar. São campos e desfiladeiros que se espalham do Atlântico até a serra. E você é nosso convidado a contemplar essa imensidão do alto.

Só assim podemos viajar bem ao lado destes grandes topos. Alguns formam cordilheiras. Em outro, as escarpas finas lembram uma espécie de lâmina cortando o ar.

Os vales por onde correm os rios dentro dos cânions chegam a ter 12 quilômetros de extensão. E os paredões exibem as marcas em camadas dos derrames vulcânicos que aconteceram em tempos diferentes. Fendas tão imensas que abrigam montanhas dentro delas. Nossos olhos até podem se enganar, não registrar a verdadeira dimensão desse lugar. Então, para entender o tamanho de tudo isso, imagine que dentro de um dos maiores cânions, o Fortaleza, caberiam quase três Avenidas Paulistas inteiras em todo o seu comprimento e com todos os prédios.

A curiosidade desafia o medo quando resolvemos espiar as profundezas. São 36 cânions espalhados por mais de 200 quilômetros e todos têm algo em comum: para onde quer que a gente vire, nossos olhos sempre vão encontrar a imensidão nos vales, nos paredões e nas bordas. Uma natureza tão grandiosa que com certeza vai ficar para sempre na nossa lembrança

É uma paisagem única, porque em nenhum outro lugar do mundo a natureza fez o que construiu aqui.

Globo Repórter: O que aconteceu com o planeta para que surgissem estas rochas?
Ariane da Silveira, geóloga: Bom, aproximadamente 130 milhões de anos atrás, a América do Sul e África estavam juntas. Então, neste período, houve uma fragmentação destes continentes, e foi havendo extravasamento de lava vulcânica. Houve uma espécie de rachadura na terra. Este evento foi um dos maiores eventos geológicos que aconteceram no planeta terra.

Todos os rios da região formam cachoeiras espetaculares

A paisagem de milhões de anos fica ainda mais inquietante quando nos damos conta de que ela continua a se modificar a cada segundo, bem diante de nossos olhos. A água que esculpe a rocha brota farta da terra. Nos campos, basta apertar um pouco a vegetação com a mão para ver que ela está mesmo em toda a parte. Destas áreas banhadas saem fiapos de água que se derramam em rios. Um reservatório natural de vertentes cristalinas, quase intocadas pelo homem.

“Não passa por dentro de lavouras, não tem questão de agrotóxico. São águas realmente muito puras” explica o analista ambiental Magnus Severo.

Todos os rios da região além de esculpirem pedras gigantes, formam cachoeiras espetaculares, uma mais alta e mais linda do que outra. Caem como se fossem música feita especialmente para esta região.

Não há um levantamento de quantas cachoeiras existem espalhadas entre as pedras, mas há uma infinidade e cada uma cai do jeito que o relevo obriga. Por isso nenhuma é igual a outra.

Globo Repórter: É um trabalho de milhões de anos?
Lúcio Santos, analista ambiental: Sim, o trabalho de escavação, da erosão. É um trabalho de milhões, centenas de milhões de anos. Exatamente por isso é que está como está.

Em um ponto, a força da correnteza parece até ter dividido uma montanha inteira. Às vezes, o que parece um rio raso, se transforma de repente em uma queda grandiosa de água.

Alguns rios correm paralelamente, formando pequenas ilhas. Outros se encontram no meio do caminho, juntam suas águas e correm para o meio dos cânions.

A gente não cansa de olhar. Dá mais um voo rasante. E outro. É difícil partir e deixar lá em baixo esse lugar onde a natureza foi tão caprichosa. E quantas surpresas neste passeio pelas alturas. Do alto, uma imagem rara: um grupo de veados campeiros, como que para nos distrair se dispersam.

E como correm: cada animal pode alcançar até 70 quilômetros por hora. Tão rápidos que olha só como passam por baixo da cerca. Mãe e filhote vão juntos – ela na frente, como que para indicar o caminho. O maior perigo aqui não é a proximidade dos precipícios. O homem ocupou a maior parte da terra que antes servia de casa ao animal. Sem espaço e perseguido por caçadores, o veado campeiro está quase extinto. Então, quando desaparecem no cenário gigante, a gente não pode deixar de torcer para que se mantenham assim: seguros e escondidos dentro desse paraíso.

Mesmo vendo tudo de cima, é impossível não sentir vontade de estar lá, bem pertinho dos paredões. Trocamos então o helicóptero pelo lombo do cavalo. Em grupo seguimos para o cânion Monte Negro, o ponto mais alto do Rio Grande do Sul.
O dia ensolarado parece perfeito, mas como estamos nas alturas, temos que compartilhar o espaço com elas: as nuvens, que passam grudadas no chão. Não se intimidam com o belo sol da manhã e nem com a lua minguante que ainda aparece no céu.

Em poucos minutos, a gente desaparece na neblina. É o que os moradores daqui chamam de viração. O tempo muda assim, em apenas alguns minutos. Em um mesmo dia pode ter neblina, sol, vento e chuva.

Apesar do nevoeiro, seguimos em frente, com frio na barriga, contornando à beira de um abismo que não conseguimos enxergar. O risco só não existe porque estamos acompanhados de moradores e cães acostumados a esse esconde-e-aparece dos precipícios. Eles sabem onde está o perigo. Mas que dá medo, isso dá.

A nuvem sai de dentro do precipício, abaixo dos nossos pés, como se fosse uma fumaça surgindo do fundo da terra.

É até difícil acreditar que a poucos metros de onde estamos, tem um precipício de 1.403 metros. É o cânion Monte Negro. E a neblina acontece por causa da massa de ar quente que vem do oceano que fica a mais ou menos 40 quilômetros daqui. Esta massa de ar quente, encontra a massa de ar frio aqui de cima da serra e acontece este fenômeno da natureza.

Pinheiros são árvores típicas do Sul do Brasil e podem chegar a 50 metros de altura

Apesar da neblina, seguimos. Porque mesmo enxergando pouco mais de um palmo a frente, o visual é incrível.

“Eu posso passar trezentas vezes aqui com um, com dois, com dez pessoas, e cada vez vejo com o olho diferente. Eu tenho sempre uma luz diferente, um pássaro diferente. O pássaro, o vento. Sempre dá para perceber”, comenta o guia Paulo Hafner.

Pacientemente esperamos. Quem sabe a neblina se dissipe? Mas, nada! Tudo o que vimos foram pedacinhos. Partimos levando na lembrança a imagem da paisagem bela mesmo que escondida e na companhia agradável de quem mora e é feliz nessa região. No dia seguinte o cânion nos recebeu recheado de nuvens. Até parece que queria fazer suspense, se revelando aos poucos. O engraçado é que assim, a gente nem sente tanto medo. As nuvens amortecem nossos temores porque aqui vale a máxima: o coração não sente o que os olhos não veem. Estamos no mesmo nível onde os pássaros voam. E nas alturas vivem o beija-flor, o tico-tico, as andorinhas e a gralha azul: um pássaro gritão mas que tem uma missão muito especial. Boa parte das araucárias, a árvore com copa voltada para o céu, foi plantada pela gralha azul. Ela se alimenta dos pinhões, o fruto da araucária e costuma esconde-los durante o inverno, época de safra, para buscar depois, mas aí, acaba esquecendo, e estes brotam espalhados pela região.

Os pinheiros são árvores típicas do Sul do Brasil e podem chegar a 50 metros de altura. A gralha é uma lição ao homem que até pouco tempo derrubava araucárias centenárias. Cortou tanto que o que vemos hoje é só 1% do que antes era uma grande floresta.

Mesmo assim a cada final de tarde as araucárias com seus galhos tão característicos, feitos de espinhos, continuam encantando nossos olhos quando junto com o sol, anunciam a noite.

E mesmo quando o sol desaparece no horizonte, a paisagem é um presente. Até parece que a lua e os paredões de pedra do cânion Itaimbezinho fizeram um pacto: que esse lugar nunca deixe de ser iluminado.

Fonte: Globo Repórter



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