Notícias

Mark Lilla: “Hoje, os jovens só se interessam pelo que os afeta pessoalmente”

Compartilhe:     |  3 de dezembro de 2018

9 perguntas para Mark Lilla

1. O que é liberalismo identitário e por que o senhor argumenta que ele é despolitizador?

Na história recente dos Estados Unidos, houve dois tipos de política identitária. A primeira, dos anos 50 a 70, defendia os direitos de afro-americanos, mulheres e gays. Lutava por igualdade, cidadania e solidariedade. Exigia reparação histórica, mas era também generosa. Por isso, conquistou a solidariedade de pessoas que não pertenciam a esses grupos. Um segundo tipo de política identitária floresceu a partir dos anos 80, obcecada pela identidade pessoal, com o que diferencia você dos outros. A primeira dizia “somos todos iguais e queremos ser tratados com igualdade”. Já essa segunda política identitária se baseia na afirmação da diferença e na exigência de respeito à singularidade. Ninguém pode falar em nome de ninguém. Isso jogou as pessoas umas contra as outras. Quando eu era estudante, nos anos 60, e o marxismo ainda estava por aí, nós nos interessávamos por um pouco de tudo: política, economia, raça, classes sociais. Hoje, os jovens só se interessam pelo que os afeta pessoalmente e não enxergam a necessidade de se engajar numa luta comum com outras pessoas. São despolitizados no sentido de não saber como ganhar o poder político.

2. O senhor diz que os progressistas devem oferecer uma visão ambiciosa dos Estados Unidos, “capaz de inspirar cidadãos de todas as classes sociais em todas as regiões do país”. Como construir uma visão diferente dos EUA do passado (branco, anglo-saxão, protestante e industrial) e adequada a um país que hoje tem mais diversidade econômica, social, racial e sexual?

O liberalismo do passado e o do futuro devem compartilhar dois princípios fundamentais, solidariedade e igualdade, e reinterpretá-los à luz da situação atual. Imagine um ex-metalúrgico branco de Detroit que não consegue emprego para sustentar sua família e um negro de classe média que é com frequência parado pela polícia quando dirige. A preocupação de um deles é econômica; a do outro é o racismo. No entanto, uma plataforma política baseada na defesa da solidariedade e da igualdade pode contemplar ambos. O futuro de todos nós depende do bem comum, precisamos enfrentar certos problemas coletivamente.

3. Como os progressistas podem articular um discurso que inclua a defesa das minorias sem abandonar as políticas sociais e econômicas e alienar o resto do eleitorado?

Burgueses como eu e você pensam que as minorias têm uma voz e demandas unificadas. Não têm. Se você é um trabalhador negro ou uma mãe solteira negra, você não está pensando em reparação racial, mas em escolas seguras para seus filhos e acesso à saúde. Quando falarmos sobre direito de minorias — e devemos falar sobre isso —, não deve ser em oposição aos direitos de outras populações. Vence eleição quem é capaz de conversar com cada grupo sobre seus problemas e de lhes mostrar por que os princípios de solidariedade e igualdade vão ajudá-los. Hoje, o Partido Democrata não é capaz de propagar uma mensagem tão abrangente. Em vez de oferecer uma visão de futuro coerente para todos, Hillary Clinton (candidata à Presidência em 2016) falava de um jeito quando a plateia era negra e de outro quando era branca. Ninguém entendia o que unia esses discursos e ela soava hipócrita. Uma mensagem somente baseada em identidade não é bem-sucedida.

4. Os religiosos são firmes opositores das políticas identitárias. Como os progressistas podem vender uma “visão ambiciosa de futuro” ao eleitor religioso?

Nos EUA, os evangélicos não falam mais em caridade, tiraram o Sermão da Montanha da Bíblia . Os católicos estão obcecados com o aborto. Não podemos confiar nos religiosos para pregar solidariedade social, pois eles estão preocupados com outros assuntos. Por outro lado, nas democracias, precisamos do voto daqueles que discordam de nós. A política identitária da nova esquerda é um tipo de moralismo puritano. Eles não querem conversar com religiosos porque acham que têm o dever moral de chamar de monstros misóginos todos aqueles que se opõem ao aborto. Melhor seria conversar com os religiosos e dizer: “Ok, nisso discordamos, mas podemos concordar sobre outras políticas do Partido Democrata”. Podemos ouvi-los com tolerância e simplesmente discordar. Ou perguntar, sem hostilidade, por que eles acreditam no que acreditam. A esquerda se preocupa muito em não ofender ninguém, menos os brancos religiosos, que são demonizados. Se eles nos convidarem para ir à igreja, podemos ir. Não é difícil.

5. Quem deve ser o candidato do Partido Democrata na eleição presidencial de 2020?

Não temos muitas opções, mas eu acredito que seria sábio indicar um governador pouco conhecido e com aparência responsável. Se não fizermos nada idiota, Donald Trump vai perder. Não devemos tentar nada novo ou radical. Devemos nos comportar bem e assistir à explosão pública de Trump. A esquerda do partido pensa que a próxima eleição é uma oportunidade para ser mais radical e falar em socialismo, mas isso é fazer o jogo de Trump. Aliás, os liberais não devem limitar seu foco às eleições presidenciais. A verdadeira ação acontece em nível estadual. Até recentemente, o Partido Republicano controlava dois terços das legislaturas estaduais. Ou seja, eles tinham poder para limitar as leis federais. Há estados em que o acesso ao aborto é muito difícil, às vezes impossível. Distritos eleitorais foram redesenhados para impedir a representação política dos negros. Um Bernie Sanders não conseguiria fazer nada se fosse eleito. Precisamos vencer eleições locais. Por isso, precisamos nos organizar para levar nossas mensagens aos municípios. Mas, nos últimos 30 anos, uma ideologia impediu o Partido Democrata de fazer isso.

6. Em seu livro O progressista de ontem e o do amanhã, o senhor diz que a esquerda não sabe falar sobre segurança pública porque não quer ofender ninguém. O combate à criminalidade foi o foco do discurso do presidente eleito, Jair Bolsonaro. De que forma a esquerda pode falar sobre violência sem ser racista ou classista, como a direita às vezes é?

A esquerda precisa começar entendendo que as principais vítimas da criminalidade são as minorias que vivem nas periferias. Nos EUA, ativistas negros costumam repetir que nossa população carcerária é muito grande e que nosso sistema penitenciário é racista. Tudo isso é verdade. Mas o discurso de prefeitos negros é diferente. Temos muitos prefeitos negros, e eles falam sobre o combate à criminalidade com tanto vigor quanto qualquer republicano não racista. Quem sofre com a criminalidade não são os burgueses ativistas sem contato com a realidade, mas os pobres das favelas no Rio de Janeiro. Precisamos nos aproximar deles e desenvolver uma linguagem e uma estratégia para ajudá-los. Os liberais e a esquerda não devem usar as políticas contra o crime como meios para outros fins. Isso é perigoso, é o que fazem gente como Trump e Bolsonaro. As propostas deles de combate ao crime são pura demagogia para animar as massas, deixá-las com medo e persuadi-las de que estão resolvendo o problema para se perpetuar no poder. São uns cínicos.



Fonte: Época



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Colecionadores de fãs, os siameses são inteligentes, comunicativos e brincalhões. Conheça curiosidades da raça

Leia Mais