Notícias

O que se sabe sobre o novo vírus transmitido por mosquitos que pode estar circulando no Rio

Compartilhe:     |  23 de maio de 2019

Além dos nomes dengue, zika e chikungunya, os moradores e o poder público do Rio de Janeiro poderão ser apresentados a outro vírus, também transmitido por mosquitos e que dá indícios de ter adoecido pessoas do Estado nos últimos anos: o mayaro.

Na semana passada, o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou que seus pesquisadores, liderados por Amilcar Tanuri e Rodrigo Brindeiro, confirmaram casos de infecção pelo mayaro em três pacientes adoecidos em 2016, todos da cidade de Niterói.

O mayaro é endêmico (tem presença contínua) na Amazônia e é normalmente transmitido pelos mosquitos do gênero Haemagogus, que vive nas matas e também é conhecido por propagar a febre amarela silvestre. É um perfil diferente do Aedes aegypti, vetor da dengue, zika, chikungunya e da febre amarela urbana – já que este vive nas cidades.

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, Tanuri explicou que sua equipe ainda busca detalhes sobre os deslocamentos destes pacientes para, por exemplo, regiões de mata no próprio Estado fluminense – mas suas fichas indicam que eles não viajaram para regiões endêmicas no período em que foram infectados.

A notícia da chegada do mayaro ao Estado prenuncia desafios: a infecção por ele causada gera sintomas semelhantes à causada por chikungunya, como febre alta e dores articulares, o que dificulta o diagnóstico. Por isso, ele é chamado de “primo” da chikungunya.

A gravidade da infecção pelo mayaro é considerada moderada, mas já houve casos com complicações sérias como hemorragia, problemas neurológicos e até morte. Não há imunização ou tratamento específico para a doença, mas sim o controle de seus sintomas, como por exemplo o uso de remédios para controlar a febre.

A confirmação da presença do mayaro no Rio também é um passo inicial diante de muitas incógnitas ainda a serem descobertas pelos cientistas; entenda.

O que se sabe sobre a doença

O vírus foi isolado pela primeira vez na década de 50 a partir de amostras de sangue de pacientes infectados em Trinidad e Tobago, na América Central.

Casos no Brasil já foram registrados ainda em 1955 em um surto em Belém do Pará, e posteriormente em outras partes da Amazônia e do Centro-Oeste, como em Goiás há quatro anos.

Praia, lagoa e áreas de mata em visão aérea de NiteróiDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionCasos foram registrados em Niterói; cidade fica na região metropolitana, mas tem áreas de mata

Em outros países, a proximidade com a floresta também é decisiva na manifestação da doença, como em regiões do Peru, Bolívia e Venezuela.

“Os principais celeiros das arboviroses (vírus transmitidos por artrópodes, como os mosquitos) estão na floresta amazônica, com 192 tipos de vírus (já descritos), mas nem todos em humanos; e a costa oeste da África, com mais 600 tipos”, explica o epidemiologista.

No caso do mayaro, mamíferos – incluindo os humanos – e até aves já foram descritos como hospedeiros para o vírus, ou seja, são “reservatórios” cujo material infectado é transmitido pelos mosquitos.

Os insetos do gênero Haemagogus são o principal vetor, mas pesquisadores acreditam que o Aedes aegypti pode ser um transmissor “competente” do vírus – e isto traz implicações sérias para o desenvolvimento da doença nas cidades.

O que falta entender

Os pesquisadores da UFRJ identificaram o mayaro a partir da análise a nível molecular de 279 amostras que, pelos sintomas, indicavam infecção por chikungunya.

Mas 57 destas amostras não puderam confirmar a presença da chikungunya, e então os cientistas fizeram uma reanálise delas. Com uma técnica chamada PCR em Tempo Real, a equipe conseguiu finalmente identificar um gene específico do mayaro em três amostras. Os resultados devem ser consolidados e publicados nos próximos meses em um artigo.

Equipamentos usados em laboratório na técnica PCR em Tempo RealDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPesquisadores da UFRJ usaram técnica chamada PCR em Tempo Real

“Nosso interesse agora é descobrir se em 2019 o vírus continua circulando. Se está circulando, onde? E ele já pôde infectar mosquitos urbanizados?”, indica Amilcar Tanuri.

Para buscar estas respostas, a equipe está correndo atrás de amostras de pacientes infectados neste ano, inclusive em outras partes do Estado como cidades que já tiveram casos de febre amarela silvestre – portanto, envolvendo o Haemagogus ou ainda o mosquito Sabethes.

E, como indicou Tanuri, os cientistas procuram também indícios se o Aedes já possa ter picado um hospedeiro do mayaro e estar transmitindo o vírus, ampliando em muito a possibilidade de expansão da doença nas cidades.

Neste cenário, uma das medidas mais importantes a ser tomada já é conhecida – mas ainda deficiente: o combate ao mosquito, com a promoção do saneamento e da limpeza, impedindo a proliferação de ovos e larvas do vetor na água parada, por exemplo.

“(Este tipo de arbovirose) É um subproduto da expansão das fronteiras agrícolas, da entrada da zona urbana dentro da mata, do movimento de pessoas”, explica Tanuri.

Desafios para levar pesquisa adiante

Segundo o cientista, dos mais de 6 mil casos relatados pelo Estado do Rio de Janeiro como indicativos de chikungunya neste ano, cerca de 20% não foram conclusivos para confirmação desta doença – o que abre margem para que possam na verdade incluir casos de mayaro.

Mas estudar milhares de amostras implica em custos e demanda investimentos, o que joga luz sobre obstáculos sérios a serem enfrentados na investigação. Segundo Tanuri, “desde 2014” o investimento em pesquisa através de órgãos de fomento federais e estaduais vem caindo, e agora neste ano o cenário deve ser agravado pelo contigenciamento de verbas para universidades federais como a UFRJ – afetando condições básicas para o estudo, como o fornecimento de luz, água, limpeza e segurança.

Em 2016, o trabalho da equipe de Amilcar Tanuri e Rodrigo Brindeiro no laboratório da UFRJ chegou a uma das publicações científicas mais importantes do mundo, a revista Lancet, na qual os brasileiros apresentaram o sequenciamento completo do genoma do zika.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, de dezembro de 2018 ao início de maio, o Rio de Janeiro foi o Estado com a maior incidência de chikungunya no país – configurando um surto. Já em relação à dengue, zika e febre amarela, um relatório de janeiro do governo estadual mostra que a situação é melhor do que nos anos anteriores.



Fonte: BBC Brasil



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Pet diferente: 10 curiosidades sobre coelhos

Leia Mais