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Medicamento usado no tratamento da sífilis some das prateleiras no Brasil

Compartilhe:     |  22 de junho de 2015

Uma ampola da penicilina benzatina, que todo mundo conhece pelo nome comercial de benzetacil, custaria pouco mais de R$ 1 na farmácia. Sairia de graça na rede pública. Isso, se tivesse…

No balcão da farmácia do ambulatório de um hospital federal no Rio que é referência no tratamento de Aids e sífilis. Os pacientes buscam os medicamentos no local, só que nas prateleiras não há o benzetacil? “Isso. Estamos em falta há algum tempo. Aproximadamente uns três meses”, conta uma funcionária.

A penicilina benzatina que sumiu das prateleiras é o antibiótico mais indicado para uma doença grave, transmitida sexualmente. “É o tratamento de escolha e o melhor tratamento para sífilis. Não só no paciente com aids, mas também nas pacientes gestantes e nos pacientes que estão fazendo profilaxia para febre reumática”, afirma Fernando Ferry, diretor do hospital Universitário Gaffrée e Guinle, no Rio de Janeiro.

Febre reumática é uma doença autoimune que causa inflamações em todo o corpo. Guilherme, de nove anos, mora em Belo Horizonte e precisa tomar esse tipo de penicilina regularmente para controlar a doença.

“Vou no posto, em hospital, em farmácia. Tá complicado. A gente não está achando em canto nenhum”, diz Luciene Marques da Costa, mãe de Guilherme.

A falta do antibiótico é ainda mais preocupante porque os casos de sífilis dispararam entre os brasileiros. Só em São Paulo, entre 2007 e 2013, o número de notificações da doença cresceu mais de 600%.

“Nós já vivemos uma situação epidemiológica de grande crescimento do número de casos, e certamente a ausência do medicamento mais adequado pode trazer uma piora nesses números e enfrentarmos dificuldade muito grandes no Brasil”, observa Érico Arruda, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O Ministério da Saúde diz que a penicilina benzatina está em falta porque o fornecedor da matéria-prima, que é importada, mudou. E que o problema não se limita ao Brasil.

“No mundo inteiro a oferta da penicilina benzatina, desde o segundo semestre do ano passado e todo o primeiro semestre desse ano, tem sido muito menor do que costumava ser. Hoje nós estamos já perto de voltar a ter a produção do que seria a necessidade mensal”, declara Jarbas Barbosa, secretário do Ministério da Saúde.

Será? O Fantástico procurou em oito estados e no Distrito Federal. Ligamos para farmácias, unidades de pronto-atendimento, as UPAs, postos de saúde e hospitais públicos.

Nas farmácias, não encontramos em sete de oito capitais. Nos hospitais, metade não tinha. Nas UPAs e nos postos de saúde a situação é melhor. Mas o uso da penicilina benzatina está controlado. “Ela só está sendo liberada para ser feita em alguns casos. Febre reumática, gestantes e DST”, afirma uma funcionária.

Com o antibiótico, é fácil curar a sífilis. Mas se a doença não for tratada, pode causar graves problemas cardíacos e neurológicos. Principalmente quando a mãe passa para o bebê a chamada sífilis congênita. “Uma gestante com sífilis pode ter repercussões em relação a perder a criança, ter um aborto espontâneo”, explica Érico Arruda.

“O bebê pode nascer com retardo mental, baixo peso, pode ter alterações no dente, alterações na face, e inclusive ter um desenvolvimento neurológico muito prejudicado pela sífilis”, observa Fernando Ferry.

Entre 2008 e 2013, o número de bebês que morreram por causa da sífilis congênita quase triplicou. “O Brasil assina um pacto mundial com a Organização Mundial de Saúde de erradicação da sífilis congênita até esse ano, 2015. E certamente com esse desabastecimento estaremos muito longe de cumprir essa meta”, alerta Arruda.

“A sífilis é um problema nacional. Ela precisa ser tratada, e o único medicamento capaz de evitar esse tipo de problema é a penicilina benzatina”, explica Carlos Eduardo Figueiredo, vice-diretor do Instituto Fernandes Figueira, no Rio.

Uma mulher, que não quis se identificar, descobriu que estava com sífilis só na hora do parto. O antibiótico disponível vai ser dado apenas para o bebê. “É difícil, porque você trata a criança, mas os pais não são tratados”, ela lamenta.

Existem remédios substitutos para a penicilina benzatina. Mas o custo pode aumentar em até vinte vezes. O Instituto Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro é reconhecido pelos ministérios da Saúde e da Educação como um centro de referência no atendimento de mulheres, crianças e adolescentes. Mas hoje a gestante que chegar ali com sífilis vai sair sem o antibiótico que garante a cura da doença.

Fantástico: Esse antibiótico alternativo que vocês estão dando aqui, ele não é garantia de cura para a sífilis?
Carlos Eduardo Figueiredo, vice-diretor do Instituto: Não. Não é garantia de cura. Eficácia é menor, e ela vai ser considerada sempre, se ela não tomou a penicilina benzatina, conforme protocolo do próprio Ministério da Saúde como inadequadamente tratada.
Fantástico: É um problemão?
Carlos Eduardo Figueiredo: É um grave problema de saúde pública no Brasil.



Fonte: Fantástico



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