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Milhões de pessoas se deslocam por conta das mudanças climáticas

Compartilhe:     |  17 de junho de 2021

Segundo especialista, falta de um enquadramento legal para esse tipo de migração dificulta a “visibilidade” dos afetados e o desenho adequado de políticas públicas

Secas. Avanço da desertificação. Falta de colheitas. Chuvas torrenciais. Alteração das estações. Temperaturas extremas. Esses são alguns dos motivos que desencadeiam um tipo de movimento migratório que tem se tornado mais comum no mundo: o de refugiados pelas mudanças climáticas.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), cerca de 64 milhões de pessoas no mundo foram obrigadas a se deslocar por conta das mudanças climáticas. E esse número pode chegar a marca de 1 bilhão nos próximos 50 anos.

“As alterações do clima em curso acarretam em graves problemas para o meio ambiente e para a sociedade, principalmente para as populações mais vulneráveis”, explica, em entrevista ao Um Só Planeta, António Vitorino, diretor da Organização Internacional para as Migrações (OIM), a Agência das Nações Unidas para as Migrações, dedicada a promover uma migração segura, ordenada e digna no Planeta.

A população da América Central tem convivido com esse problema – e muitos estão procurando os Estados Unidos como novo lar. A vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, afirmou, em abril, que seu governo se concentrará em ajudar os agricultores da América Central afetados pelas mudanças climáticas, em um esforço para enfrentar uma das raízes da migração.

Ela apontou a mudança climática como uma das principais causas do aumento da migração, devido às condições climáticas extremas, como secas, que devastam a indústria agrícola da América Central.

“Não se trata apenas da devastação econômica e do que temos que fazer para ajudar na recuperação econômica e no desenvolvimento, mas há fome extrema e insegurança alimentar”, disse Harris. “Se pais e filhos literalmente não podem comer, se não podem ter o essencial que todos precisam para viver, é claro que vão fugir”, acrescentou.

Em países da região, como El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, a associação da pandemia com padrões climáticos erráticos, secas prolongadas, chuvas excessivas e furacões fez a fome quase quadruplicar nos últimos dois anos, atingindo cerca de 8 milhões de pessoas em 2021.

Com casas e fazendas destruídas, estoques de alimentos reduzidos e oportunidades de emprego esvaindo, quase 15% das pessoas entrevistadas pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP, na sigla em inglês) em janeiro disseram que estavam fazendo planos concretos para migrar.

Conforme o Relatório Mundial sobre Deslocamento Interno (Global Report on Internal Displacement – GRID 2021, na sigla em inglês), lançado em maio deste ano, as catástrofes naturais forçam a migração de três vezes mais pessoas do que as que se deslocam por conflitos políticos.

O ano de 2020 contabilizou cerca de 6,9 milhões de migrantes por conta de conflitos políticos, ante 24,2 milhões de pessoas deslocadas por secas, terremotos, enchentes, ciclones e incêndios florestais.

“Problemas sociais já enfrentados pelas populações em situação de vulnerabilidade são agravados com as mudanças climáticas, afetando suas condições de saúde, emprego e renda. Com a degradação do meio ambiente, ocorre o aumento dos períodos de estiagem e desertificação, redução da agricultura e da pecuária familiar, estimulando migrações”, destaca Vitorino.

América Latina na mira do clima

Banco Mundial estima que, nos próximos 30 anos, 17 milhões de pessoas em toda a América Latina poderão ser obrigadas a abandonar suas casas devido aos desastres climáticos.

Países de renda média e com grande dependência do setor agrícola serão os principais afetados pelas migrações provocadas pela crise climática, segundo um estudo internacional publicado no ano passado na revista científica Nature Climate Change. Na mira do clima, estão países como o Brasil, Argentina, Uruguai e México.

Algumas regiões da África e da Ásia também serão afetadas. Ciclones, fortes chuvas e alagamentos atingiram com força países como China, Filipinas e Bangladesh (na foto).

O estudo compilou 30 pesquisas científicas já publicadas sobre o tema e analisou, em âmbito global, a relação entre o aquecimento do Planeta e os movimentos de migração. Os pesquisadores preveem que as populações dos países de menor renda (como Bolívia e Paraguai) e das nações mais ricas (Estados Unidos e Canadá) serão as que menos deverão emigrar.

Parte das soluções apontadas por especialistas para a redução das consequências das mudanças climáticas passa por reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A aposta nas energias limpas e renováveis também é fundamental na busca pela descarbonização da economia, com possíveis efeitos benéficos também na redução das migrações climáticas.

“A melhor maneira de proteger os afetados é estabilizar o clima global, reduzindo rapidamente as emissões de gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis, bem como aumentar, simultaneamente, a capacidade adaptativa”, destacam os cientistas na Nature.

Bangladesh: exposta ao avanço da desertificação, população busca refúgio longe de casa. — Foto: Zakir Chowdhury / Getty Images

Bangladesh: exposta ao avanço da desertificação, população busca refúgio longe de casa. — Foto: Zakir Chowdhury / Getty Images

Visibilizar para proteger

Para mitigar o problema, outro passo importante é adequar as legislações nacionais e internacionais para proteger afetados que buscam refúgio, vítimas dos desequilíbrios ambientais e econômicos em suas nações. Dar visibilidade aos “invisíveis” climáticos é um dos focos da Rede Sul-Americana para as Migrações Ambientais (Resama).

“A Resama existe justamente para colocar o tema nesse cenário, para que as migrações ambientais sejam reconhecidas como uma categoria específica que permita essa visibilidade e uma proteção que, até este momento, não existe, do ponto de vista global e regional”, diz Erika Pires Ramos, fundadora da Resama.

A falta de um enquadramento legal para esse tipo de migração, explica Erika, dificulta a produção de dados específicos e também um enfoque nas políticas públicas. Publicado em abril, o relatório Visibilizar para Proteger, organizado pelo Observatorio Latinoamericano de Movilidad Humana, Cambio Climático y Desastres (MOVE-LAM), aponta que falta vontade política para que esse tipo de problema seja mais evidenciado.

“Esse tema é bem complexo. Falamos em migração ambiental de forma bem ampla – um fenômeno que já é uma realidade, mas falta muita vontade política ainda para que essa temática seja incorporada efetivamente nas políticas nacionais de clima”, explica ela. Na esteira de uma pandemia que aprofunda as desigualdades no mundo, mais do que nuca é urgente que essa “emergência humana” venha à luz e entre na agenda pública.



Fonte: Um Só Planeta - Por Guilherme Justino



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