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Modelo de consumo americano é inviável, diz cientista canadense

Compartilhe:     |  13 de julho de 2014

No papel de filantropo ativista, o empresário Bill Gates arrebanhou um fiel grupo de seguidores em redes sociais. No dia 16 de junho, ele registrou um recorde: 13 000 compartilhamentos de um comentário no Twitter.

O assunto era um dado do novo livro do cientista canadense Vaclav Smil — o de que a China consumiu mais cimento nos últimos três anos do que os Estados Unidos em todo o século 20.

Lançada em dezembro, sob o título Making the Modern World: Materials and Dematerialization (“Fazendo o mundo moderno: materiais e desmaterialização”, sem tradução para o português), a obra defende que o atual modelo de consumo impede que os avanços tecnológicos minimizem o impacto ambiental das indústrias no mundo.

Nos últimos anos, Gates ajudou Smil a sair do anonimato acadêmico. Dos 33 livros que já escreveu, 16 foram indicados pelo empresário em seu blog. “É um pensador original, que nunca dá respostas simples para questões complexas”, disse Gates. De sua casa no Canadá, Smil falou a EXAME.

EXAME – O senhor defende que a inovação tecnológica não dará conta de diminuir o impacto ambiental gerado pelas indústrias. Por quê? 

Vaclav Smil – Todo o problema está no atual modelo de economia, baseado no crescimento. A quantidade total de materiais usados aumentou, embora a quantidade relativa tenha sido reduzida. Em termos relativos, somos mais criativos e eficientes. Em termos absolutos, com uma população consumidora crescente, estamos usando mais materiais e destruindo mais o meio ambiente.

EXAME – Qual é a solução? 

Vaclav Smil – Todo país quer e precisa crescer. Mas nenhuma nação quer crescer 1% ou 2%. A meta é chinesa, com dois dígitos. E, para conseguir isso, a maioria das economias se pauta pelo consumo. Nesse sentido, a eficiência e a inovação tecnológica na verdade acabam fazendo parte do problema no momento em que criam novas necessidades.

Antes, usávamos o mesmo aparelho telefônico por 20 anos. Agora temos um novo a cada seis meses. Jogamos fora bilhões de equipamentos todos os anos. E isso não faz sentido algum. Para tornar as coisas mais sustentáveis, precisamos ser mais radicais e reformular a forma como consumimos.

EXAME – Não parece utópico defender isso? 

Vaclav Smil – É a única saída que temos. Precisamos de um sistema em que a busca é pela qualidade de vida, não pelo crescimento econômico. É claro que esse pensamento não faz sentido para Bangladesh ou para regiões pobres do Brasil. Mas ­países ricos podem muito bem considerar o ganho de qualidade de vida, não o crescimento econômico.

EXAME – E qual é a saída para os países emergentes?

Vaclav Smil – Não há recursos suficientes se todos quiserem seguir o modelo de consumo americano. A China é um exemplo perfeito disso. Tudo lá é gigante. Os carros, as casas, os prédios… A China tenta ser maior do que os Estados Unidos. Não é uma questão de buscar o desenvolvimento humano. É uma questão de ser o primeiro animal na cadeia.

Ainda há milhões de chineses pobres, enquanto uma fatia da população vive melhor do que americanos ricos. Hoje, a China já compra mais produtos de luxo, como Louis Vuitton, Gucci e Prada, do que todo o resto do mundo junto. O país é o maior importador de petróleo no mundo. O maior consumidor de energia. Isso é inviável em escala global.

EXAME – O que pode acontecer caso essa seja uma meta perseguida por muitos países?

Vaclav Smil – Em algum momento, os recursos vão ficar mais caros, as questões ambientais complicarão a situação e possivelmente teremos novas crises econômicas. A China, por exemplo, tem altos níveis de consumo de água. Isso fará com que esse recurso fique mais caro no futuro, assim como já é no Oriente Médio.

A China também já importa muita comida. Existem limites para isso. É um preço muito alto a pagar. Mas, enquanto tudo isso ainda está controlável, o crescimento de consumo deve se manter alto.

EXAME – O senhor defende que já produzimos comida suficiente para alimentar com folga toda a população mundial — mas mesmo assim temos gente morrendo de fome. Onde está o problema?

Vaclav Smil – Mais uma vez, é um problema do nosso padrão de consumo. Ainda há muito desperdício. Cerca de 40% de todo o alimento produzido nos Estados Unidos é simplesmente jogado no lixo. Além disso, concentramos nossos hábitos alimentares em produtos pouco sustentáveis.

Algumas pessoas consomem muito e ainda há muito desperdício. Ninguém precisa comer um bife de 100 gramas todos os dias. Assim como ninguém precisa ser vegetariano. Podemos comer menos e diversificar a alimentação.

Desse modo, é possível produzir alimentos para 10 bilhões de pessoas. Mesmo a carne vermelha, se cortada em pedaços e preparada ensopada, pode ser uma refeição para mais de uma pessoa.

EXAME – Há algum país que avança para um modelo mais sustentável?

Vaclav Smil – Esqueça a noção de país. Hoje tudo é global. Se eu quiser comprar um avião grande, existem apenas duas empresas — Airbus e Boeing. Se for pequeno, também só duas — Embraer e Bombardier. Pensar em ações locais é coisa do século passado.

O desenvolvimento atual tem como base a lógica global. Se você pensar em máquinas de colheita, existem pouquíssimas empresas. Esses oligopólios comandam o mundo e são eles que podem fazer a diferença.

EXAME – Qual o principal obstáculo a uma mudança de hábitos de consumo?

Vaclav Smil – O consumo é uma ferramenta para mostrar que estamos à frente socialmente. Quando saio de casa com meu Honda velho e meu vizinho está com sua Mercedes-Benz nova, ele olha para mim com ar de superioridade. Somos animais buscando uma gradação social. É isso.

As pessoas seguem comprando brinquedos a vida toda para mostrar superioridade. É o carro maior, a casa maior, milhões de aparelhos eletrônicos. Para quê?



Fonte: Exame



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