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Molécula presente em veneno de abelha destrói células de câncer em laboratório

Compartilhe:     |  8 de setembro de 2020

Se você já foi picado por uma abelha, deve saber que é uma experiência bastante dolorosa. O veneno desses insetos possui um componente chamado melitina, que penetra nas células da pele e promovem a sensação de dor. Um novo estudo, porém, descobriu que a mesma molécula pode ter um potencial terapêutico promissor: destruir células de tumores malignos.

Pesquisadores australianos vinham estudando alguns sub-tipos de câncer de mama, incluindo um menos comum e especialmente agressivo, conhecido como câncer de mama triplo-negativo. Ele leva esse nome porque não apresenta três moléculas que outros cânceres de mama geralmente possuem: o receptor de estrogênio, o receptor de progesterona e o receptor HER2. Isso é um problema, já que os tratamentos específicos para outros tumores têm como alvo exatamente esses receptores que não existem no triplo-negativo. Ou seja, os outros tratamentos são ineficazes contra ele.

Cerca de 15% de todos os diagnósticos de câncer de mama são do tipo triplo-negativo. Como não há um tratamento específico para ele, utiliza-se em geral recursos mais gerais contra os tumores, como quimioterapia e cirurgias. Tentativas anteriores de se desenvolver um medicamento específico contra as células desse câncer não se mostraram muito frutíferas, porque as substâncias acabavam destruindo tecidos saudáveis no processo.

No novo estudo, publicado na revista Nature Precision Oncology, cientistas australianos testaram o uso da melitina encontrada em veneno de abelhas como tratamento para esses tumores. A substância já havia sido apontada anteriormente como um possível caminho para destruir células cancerígenas devido a suas propriedades citotóxicas, incluindo para melanomas. De fato, a melitina não está presente apenas no veneno das abelhas – ela também é produzida e armazenada nos próprios tecidos do inseto, funcionando como uma arma contra patógenos e uma possível defesa contra doenças infecciosas. Apesar desses indícios, não havia um estudo que de fato testasse o tratamento até o momento.

Em células de câncer cultivadas em laboratório, o veneno das abelhas melíferas (Apis mellifera, também conhecida apenas como abelha-europeia) se mostrou extremamente eficaz. Ele destruiu as membranas celulares das células que formam o tumor em cerca de uma hora. Para verificar se a melitina de fato era a substância responsável por esse efeito, os pesquisadores também testaram o veneno de uma outra abelha, a mamangaba (Bombus terrestris), que não possui melitina, mas sim outras substâncias também capazes de destruir células. O veneno dessas abelhas, por sua vez, quase não teve efeito nos tumores, o que indica que a molécula responsável de fato é a melitina.

A melhor parte: além de destruir as células dos tumores, uma quantidade específica do veneno da abelha causou poucos danos às células saudáveis – algo essencial para um tratamento médico. O estudo indica que isso ocorre porque as células do câncer expressam duas moléculas específicas – chamadas EGFR e HER2 – que não aparecem com tanta intensidade em tecidos normais. O veneno de abelha, por sua vez, parece interagir mais com esses receptores. Além de destruir por completo as células em 60 minutos, o tratamento também impediu que elas se reproduzissem em menos tempo ainda – 20 minutos. Isso porque o veneno pode interferir nas mensagens químicas que levam ao processo de divisão celular do tumor.

Não satisfeitos, a equipe também produziu uma versão sintética  da melitina, e os testes mostraram que a versão de laboratório da substância teve efeito quase igual ao veneno produzido naturalmente pelas abelhas. Eles testaram se seria seguro utilizar a molécula em conjunto com outros tratamentos de quimioterapia, utilizando camundongos. Nos testes, a melitina teve resultados promissores, especialmente quando combinada com o docetaxel, um medicamento já utilizado para tratar vários cânceres de mama.

“A combinação de melitina e docetaxel foi extremamente eficiente na redução do crescimento do tumor em camundongos”, disse em comunicado Ciara Duffy, autora do estudo.

Os resultados são bastante positivos, mas é essencial lembrar que os estudos foram feitos apenas em laboratório. Centenas de substâncias podem destruir células de câncer cultivadas em laboratório, mas, quando se trata do corpo humano, o processo é bem diferente. Os próprios autores escrevem que o próximo passo é testar a toxicidade da substância em células normais – afinal, a melitina é a principal causadora da sensação de dor em uma picada de abelha. Isso sem falar do perigo para pessoas alérgicas, em quem o veneno pode ser fatal. Por isso, qualquer tratamento que envolva a molécula deve levar em conta todos os efeitos colaterais no nosso corpo.

Até lá, nada de tratamentos alternativos que envolvam picadas de abelhas em pacientes com câncer – vai causar mais mal do que bem.



Fonte: Superinteressante - Por Bruno Carbinatto



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