Notícias

Moradores do Sul de Minas se dedicam ao cultivo de frutas do cerrado, cada vez mais raras

Compartilhe:     |  23 de fevereiro de 2021

Frutas podem ser encontradas em São Sebastião do Paraíso, Ibiraci, Virgínia e Carmo do Rio Claro.

A ligação com o campo é comum para muitos sul-mineiros. Muitas pessoas se lembram da infância cheia de gabirobas, araçás, araticuns e tantas outras frutas nativas do Sul de Minas. Em São Sebastião do Paraíso, Ibiraci, Virginia e Carmo do Rio Claro ainda há moradores que dedicam um tempo de sua vida ao plantio e cultivo destas frutas, que têm se tornado cada vez mais raras na região.

Um destes exemplos é Ivone Aparecida de Andrade de 70 anos. Bancária aposentada, a dona Ivone cresceu no sítio da família em Ibiraci (MG) cercada destas frutas. Dentre seus pomares estão os de gabiroba e cajuzinho rasteiro. Sabores que faz com que ela recorde sempre de sua infância cercada pelas frutas do cerrado.

“Eu cresci comendo gabiroba. Faço isso desde menina. Como é uma fruta nativa da região, aqui tem muito. A gente comia também araçá, goiaba e muitas outras frutinhas”.

A esperança para que estes “sabores da infância” continuem vivos fica por conta dos pomares de frutas nativas, cultivados na região.

Pêra-do-Cerrado

 

Adriana e sua mãe cultivam 'pêrinha' em seu sítio em São Sebastião do Paraíso (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

Adriana e sua mãe cultivam ‘pêrinha’ em seu sítio em São Sebastião do Paraíso (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

Um destes espaços criados fica em São Sebastião do Paraíso (MG). É o sítio da professora Adriana Donizete Oliveira. Uma das preciosidades que ela conserva é a rara Cabacinha-do-campo ou Pêra-do-cerrado (Eugenia klotzschiana).

A pereira é um arbusto de aproximadamente 1,5 metros de altura e que frutifica em dezembro e janeiro. A fruta foi eternizada na obra do escritor mineiro Guimarães Rosa em seu livro Grande Sertão: Veredas: “Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado. Então eu entrei, tomei um café coado por mão de mulher, tomei refresco, limonada de pêra-do-campo”. (Trecho retirado do livro Grande Sertões: Veredas).

Por crescer centímetros por ano e pelo aumento das lavouras, a pêrinha tem ficado mais rara. Por isso, poucas pessoas conhecem esta fruta ou já provaram a limonada citada do escritor.

A Adriana e sua mãe, Maria Madalena de Oliveira, possuem dois pés da planta no sítio e conhecem o sabor da pêrinha desde que eram crianças.

“Isso vem de gerações. Meu avô já conhecia a fruta. Minha mãe também conheceu desde criança. Estes pés da roça possuem muitos anos. São naturais de lá. Ninguém plantou”, revelou.

Sobre o sabor, Adriana diz que a fruta é ácida, porém muito saborosa. Tanto, que elas costumam consumir os frutos “in natura”.

Gabiroba

 

Ivone Aparecida de Andrade preserva furtas nativas do cerrado em Ibiraci (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

Ivone Aparecida de Andrade preserva furtas nativas do cerrado em Ibiraci (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

A dona Ivone de Ibiraci acredita ter mais de 200 pés de gabiroba (Campomanesia Adamantium) em seu sítio, na zona rural. Para ela, o processo da florada da fruta é uma festa, que reúne toda a família.

“Na época da florada é aquela coisa linda e quando chega novembro, elas amadurecem. É uma festa, uma delícia. Faço uma mousse com elas que fica uma delícia. Isso quando não comemos as frutas in natura. Toda a família e os amigos vão lá ao campo comer. Gostamos de comer gabiroba no pé como manda a tradição”, brincou.

Outro apaixonado por gabirobas vive em Virgínia (MG). O guia de turismo Gean Gonçalves tem um sítio com gabirobas, nativas da região da Serra da Mantiqueira.

Gean contou que conheceu o sabor das frutas com o avô, ‘seu’ Clóvis. E com ele, a família descobriu o gosto dos sucos.

“Elas acabam congeladas para fazermos sucos o ano todo. Quando é a época delas é hora da gente se deliciar”, brincou.

Cajuzinho rasteiro

Outra riqueza guardada e preservada pela dona Ivone são os cajuzinhos do cerrado. O cajuí (Anacadium Humili) tem caules subterrâneos e exibem apenas suas folhas e frutos.

“No início da primavera no ano passado, surgiram umas florezinhas discretas naquele matinho. Daí uns dias surgiram os cajuzinhos bem pequenos. Logo estavam amarelinhos, docinhos e uma delícia”, falou a bancária aposentada.

Ivone possui 70 anos e contou que desde os 13 anos via os cajuzinhos no pasto, mas nunca tinha visto um fruto. Este encontro com os cajuzinhos e as castanhas só ocorreu em 2020, após algumas medidas para garantir a frutificação da planta.

“Minha mãe sempre me mostrava as folhinhas perdidas no campo, mas eu nunca tinha visto um fruto. Cercamos um quadrinho pequeno no meio do pasto onde tinha uma moita de folhas de cajuzinho e retiramos o gado, para não pisotear a planta”, explicou.

As fotos das frutas foram parar nas redes sociais e foi um sucesso.

“Quando postei estes cajuzinhos em um grupo de frutas nativas em uma rede social foi uma loucura. Gente do Brasil inteiro queria castanhas. Sou apaixonada pelo cerrado: pelas frutas, flores e ervas medicinais”, relatou.

Ananás

 

Frutas acompanham a estrada da entrada da fazenda de Waldineia em Carmo do Rio Claro (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

Frutas acompanham a estrada da entrada da fazenda de Waldineia em Carmo do Rio Claro (MG) — Foto: Arquivo Pessoal

Outra fruta que tem ficado rara em seu ambiente natural é o Ananás (Ananas ananassoides). Conhecido também como abacaxi-do-cerrado, a planta chama atenção na entrada da fazenda de Waldineia Lemos Jonas, em Carmo do Rio Claro (MG).

Basta passar poucos metros da porteira do sítio que fica no bairro Itapixé de Cima, que logo aparece uma fila deles margeando a estrada.

“Minha mãe contou que eles estão aqui na fazenda há uns 46 anos. Nós comemos os frutos maduros como fazemos com o abacaxi mesmo. Também congelamos as poupas para fazer suco. É uma delicia”, afirmou Waldineia.

Ela contou que a fruta foi plantada pelo seu pai, João Jonas. Ainda de acordo com Waldineia, está cada vez mais difícil de encontrar a fruta.

Por que tão raras?

O professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Marcelo Polo, que estuda as frutas do cerrado, afirmou que o que torna as frutas nativas raras e desconhecidas da maioria da população é o avanço da agricultura e o costume de valorizar as frutas estrangeiras que consumimos hoje.

“A partir dos anos 40, frentes agrícolas foram abertas para plantio de café e criação de gado no Sul de Minas. Mas foi nos anos 60 que o cerrado sofreu um maior ataque com o desmatamento para produção de carvão seguido de pastagem. Hoje, encontramos muitas áreas abandonadas, onde algumas espécies ressurgem”, explicou.

Mas ao contrário dos fatores econômicos que levam a explorar a terra em grandes culturas, a dona Ivone quer preservar as frutas nativas nos 24 hectares que possui e assim, ela vai colecionando espécies.

“Quando morei em Brasília acabei descobrindo que eu tinha muita coisa no sítio de Ibiraci. Muitas frutas do cerrado que não conhecíamos. Foi assim com o pequi e o bacupari-mirim. Temos ainda marolo, murici-miúdo, vários tipos de araçá e outras frutas que estou conhecendo agora. Preservo com unhas e dentes, com amor e paixão, mesmo que muitas pessoas me critiquem por não explorar a terra de outra forma”, garantiu.

Vegetação no Sul de Minas

O principal bioma do Sul de Minas é a Mata Atlântica, encontrada principalmente na região da Serra da Mantiqueira. Porém, em outras regiões como a Serra da Canastra, o cerrado e os campos de altitude são predominantes.

O Cerrado está presente nas cidades que se aproximam da região central de Minas Gerais. Um exemplo são as cidades que cortam as represas de Furnas e Peixoto, como Guapé, Alpinópolis, Passos, Delfinópolis e São João Batista do Glória.



Fonte: G1 - Por Jonatam Marinho



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Características da inteligência canina: curiosidades que você precisa saber (estudo)

Leia Mais