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Mudança climática pode ter impulsionado novo coronavírus

Compartilhe:     |  6 de fevereiro de 2021

Novo estudo é o 1º a apontar evidências que o clima possa ter desempenhado papel direto no surgimento do SARS-CoV-2.

Um novo estudo publicado na revista Science of the Total Environment fornece a primeira evidência de um mecanismo pelo qual as mudanças climáticas podem ter desempenhado um papel direto no surgimento do SARS-CoV-2, o vírus que causou a pandemia COVID-19.

O estudo revelou mudanças em grande escala no tipo de vegetação na província de Yunnan, no sul da China, e nas regiões adjacentes em Mianmar e Laos, no último século. Mudanças climáticas, incluindo aumentos de temperatura, luz solar e dióxido de carbono atmosférico – que afetam o crescimento de plantas e árvores – mudaram os habitats naturais de arbustos tropicais para savanas tropicais e florestas decíduas. Isso criou um ambiente adequado para muitas espécies de morcegos que vivem predominantemente em florestas.

O número de coronavírus em uma área está intimamente ligado ao número de diferentes espécies de morcegos presentes. O estudo descobriu que outras 40 espécies de morcegos se mudaram para a província de Yunnan, no sul da China, no século passado, abrigando cerca de 100 outros tipos de coronavírus transmitidos por morcegos. Este “hotspot global” é a região onde os dados genéticos sugerem que o SARS-CoV-2 possa ter surgido.

“As mudanças climáticas no último século tornaram o habitat na província de Yunnan adequado para mais espécies de morcegos”, diz o Dr. Robert Beyer, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge e primeiro autor do estudo, que recentemente recebeu uma bolsa de pesquisa europeia no Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam, na Alemanha. “Entender como a distribuição global de espécies de morcegos mudou como resultado da mudança climática pode ser um passo importante na reconstrução da origem do surto COVID-19”, acrescenta.

Pesquisa

Para obter seus resultados, os pesquisadores criaram um mapa da vegetação do mundo como era há um século, usando registros de temperatura, precipitação e cobertura de nuvens. Em seguida, eles usaram informações sobre os requisitos de vegetação das espécies de morcegos do mundo para calcular a distribuição global de cada espécie no início do século XX. Comparar isso com as distribuições atuais permitiu-lhes ver como a “riqueza de espécies” de morcegos, o número de espécies diferentes, mudou em todo o mundo durante o último século devido às mudanças climáticas.

“À medida que as mudanças climáticas alteraram os habitats, as espécies deixaram algumas áreas e se mudaram para outras – levando seus vírus consigo. Isso não apenas alterou as regiões onde os vírus estão presentes, mas provavelmente permitiu novas interações entre animais e vírus, fazendo com que vírus mais prejudiciais fossem transmitidos ou evoluíssem”, explica Beyer.

Morcegos e Coronavírus

A população de morcegos do mundo carrega cerca de 3.000 tipos diferentes de coronavírus, com cada espécie de morcego abrigando uma média de 2,7 coronavírus – a maioria sem apresentar sintomas. Um aumento no número de espécies de morcegos em uma determinada região, impulsionado pela mudança climática, pode aumentar a probabilidade de que um coronavírus prejudicial aos humanos esteja presente, seja transmitido ou evolua ali.

A maioria dos coronavírus carregados por morcegos não consegue entrar em humanos. Mas é muito provável que vários coronavírus que infectam humanos tenham se originado em morcegos, incluindo três que podem causar mortes em humanos: Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) CoV e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) CoV-1 e CoV-2.

A região identificada pelo estudo como um hotspot para um aumento impulsionado pelo clima na riqueza de espécies de morcegos também é o lar de pangolins (mamíferos que vivem em zonas tropicais da Ásia e da África), que supostamente agiram como hospedeiros intermediários para SARS-CoV-2. É provável que o vírus tenha saltado dos morcegos para esses animais, que foram então vendidos em um mercado de animais selvagens em Wuhan – onde ocorreu o surto humano inicial.

Os pesquisadores ecoam os apelos de estudos anteriores que estimulam os formuladores de políticas a reconhecer o papel da mudança climática nos surtos de doenças virais e a abordar a mudança climática como parte dos programas de recuperação econômica do COVID-19.

“A pandemia COVID-19 causou enormes danos sociais e econômicos. Os governos devem aproveitar a oportunidade para reduzir os riscos à saúde de doenças infecciosas, tomando medidas decisivas para mitigar as mudanças climáticas ”, afirma a professora Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, envolvida no estudo.

“O fato de que a mudança climática pode acelerar a transmissão de patógenos da vida selvagem aos humanos deve ser um alerta urgente para reduzir as emissões globais”, acrescenta o professor Camilo Mora da Universidade do Havaí em Manoa.

Os pesquisadores enfatizaram a necessidade de limitar a expansão de áreas urbanas, fazendas e áreas de caça em habitat natural para reduzir o contato entre humanos e animais transmissores de doenças.

O estudo mostrou que, no último século, a mudança climática também gerou aumentos no número de espécies de morcegos em regiões ao redor da África Central e em manchas espalhadas na América do Sul e Central.

O estudo pode ser lido, em inglês, na Science of the Total Environment.



Fonte: CicloVivo



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