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Mudanças climáticas: 2020 será um dos três anos mais quentes já registrados

Compartilhe:     |  6 de dezembro de 2020

A Terra continuou a registrar um aquecimento significativo em 2020, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Uma avaliação preliminar aponta que este ano será um dos três mais quentes, logo atrás de 2016 e 2019.

Os seis anos mais quentes em registros globais, que remontam a 1850, ocorreram desde 2015.

O aquecimento mais notável foi no Ártico Siberiano, onde as temperaturas ficaram 5°C acima da média.

Como sabemos a temperatura de 2020 se o ano ainda não acabou?

Para calcular o aumento anual das temperaturas para seu relatório, a OMM usa informações de cinco conjuntos de dados globais diferentes.

São comparadas então as medições modernas com as temperaturas obtidas entre 1850-1900. Este valor de referência é algumas vezes tratado como níveis pré-industriais.

Com dados disponíveis de janeiro a outubro deste ano, a OMM diz que 2020 ficará cerca de 1,2ºC acima da linha de base, com uma margem de erro de 0,1ºC.

Todos os cinco conjuntos de dados atualmente têm 2020 como o segundo mais quente, atrás de 2016 e antes de 2019, com base em comparações com períodos semelhantes em anos anteriores.

No entanto, a expectativa dos cientistas é que a média mais baixa das temperaturas de novembro e dezembro provavelmente empurrarão 2020 para o terceiro lugar.

Isso porque um evento climático La Niña se desenvolveu no Oceano Pacífico, e isso normalmente reduz as temperaturas.

Ainda assim, a OMM acredita não será suficiente para tirar 2020 do topo da lista de anos mais quentes.

“Anos quentes recordes geralmente coincidiram com um forte evento El Niño, como foi o caso de 2016”, diz Petteri Taalas, secretário-geral da OMM.

“Estamos passando por um La Niña, que tem um efeito de resfriamento nas temperaturas globais, mas não foi suficiente para frear o aquecimento deste ano.”

Essas pequenas diferenças de temperatura são importantes?

Esses números relativamente semelhantes de temperatura global registrados nos últimos anos escondem diferenças consideráveis em nível local.

Em 2020, a Sibéria teve temperaturas em torno de 5ºC acima da média, o que levou a uma medição de 38ºC em Verkhoyansk no dia 20 de junho, que é provisoriamente a temperatura mais alta conhecida registrada em qualquer lugar ao norte do Círculo Polar Ártico.

Icebergs ao largo da Groenlândia durante verão ártico

O período de janeiro a outubro também foi o mais quente já registrado na Europa.

Mas alguns lugares ficaram abaixo da média, incluindo partes de Canadá, Brasil, Índia e Austrália.

No geral, entretanto, o quadro de 2020 reforça a visão de que está ocorrendo um aquecimento global, impulsionado pelas atividades humanas. A década de 2011 a 2020 é a mais quente já registrada.

Calor nos oceanos

A maior parte do excesso de calor gerado pelos gases de aquecimento da atmosfera acaba nos oceanos.

Isso está colocando ainda mais pressão sobre os mares, com cerca de 80% das águas globais experimentando pelo menos uma onda de calor marinha neste ano.

Esses eventos, semelhantes às ondas de calor em terra, levam à exposição prolongada a altas temperaturas, que podem ter impactos devastadores nos ecossistemas marinhos.

Estima-se que uma onda de calor de longa duração na costa da Califórnia, conhecida como “a bolha”, matou até 1 milhão de aves marinhas em 2015-16.

Os pesquisadores afirmam que esses eventos se tornaram mais de 20 vezes mais frequentes nos últimos 40 anos.

“Cerca de 90% do calor que se acumula no sistema climático a partir das mudanças climáticas antropogênicas é armazenado no oceano”, diz John Church, da Universidade de New South Wales, em Sydney, na Austrália.

“Esta última atualização da OMM mostra claramente que os oceanos estão se aquecendo continuamente e em um ritmo acelerado, contribuindo para o aumento do nível do mar. Isso significa que as mudanças climáticas estão se intensificando, o que levará a novas mudanças nas próximas décadas.”

Aquecimento contínuo

A OMM afirma que o aquecimento continua a impulsionar o derretimento do gelo em muitas partes do mundo, incluindo a Groenlândia, onde cerca de 152 bilhões de toneladas foram perdidas neste ano até agosto de 2020.

Ocorreram 30 grandes tempestades durante a temporada de furacões do Atlântico Norte, quebrando o recorde de número de tais eventos.

Mulher de máscara se abana com leque sentada em ônibus

Além de números recordes, novas evidências sugerem que os furacões ficaram mais fortes quando atingiram a terra por causa do aumento das temperaturas.

Outros impactos observados pela OMM neste ano incluem incêndios florestais na Sibéria, Austrália e ao longo da costa oeste dos Estados Unidos e da América do Sul, o que fez nuvens de fumaça circularem pelo globo.

Inundações na África e no Sudeste Asiático desalojaram um grande número de pessoas e prejudicaram a segurança alimentar de milhões.

Qual foi a reação a este relatório?

As descobertas da OMM não são uma surpresa para a maioria dos observadores. “O estado do clima global? Perigoso”, diz Dave Reay, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido.

“Essas atualizações anuais sobre a deterioração da saúde planetária sempre trazem uma visão desanimadora. Este ano é um alerta vermelho completo. O calor crescente, as secas intensificadas e os incêndios florestais galopantes apontam os impactos agudos das mudanças climáticas em 2020. Eles também alertam para o enfraquecimento crônico de sumidouros globais de carbono, os oceanos, árvores e solos ao redor do mundo, que está em andamento.

“Junte a isso ainda mais emissões e aquecimento, e as metas climáticas do Acordo de Paris fugirão de nossas mãos para sempre. O ano que se segue será definido por nossa recuperação da covid-19, os séculos à frente serão definidos por quão ambientalmente amigável essa recuperação realmente será.”

Crianças brincam em área alagada em meio a construção destruída por furacão na Nicarágua

Os ativistas ambientais dizem que o relatório adiciona urgência aos apelos para uma recuperação pós-covid-19 centrada nas mudanças climáticas e no meio ambiente.

“Embora a pandemia tenha sido a maior preocupação para muitas pessoas no mundo desenvolvido em 2020, para milhões em lugares vulneráveis ​​ao clima, a emergência climática continua sendo a maior ameaça e, infelizmente, não há uma vacina para consertar o clima”, diz Kat Kramer, da Christian Aid.

“Essas descobertas mostram o quão importante é garantir que as medidas de recuperação econômica do governo não fortaleçam a economia dos combustíveis fósseis, mas atuem para acelerar a transição para um mundo com zero carbono.”

De acordo com um novo relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), as mudanças climáticas são hoje a maior ameaça aos mais importantes patrimônios mundiais.

A UICN diz que 83 desses locais estão agora ameaçados pelo aumento das temperaturas, incluindo a Grande Barreira de Corais, na Austrália, onde o aquecimento do oceano, a acidificação e o clima extremo contribuíram para um declínio dramático do ecossistema. Sua situação foi classificada pela primeira vez como “crítica”.



Fonte: BBC Brasil



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