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Mudanças climáticas causam inundações e ameaçam populações de girafas

Compartilhe:     |  19 de dezembro de 2020

O nível dos lagos do Vale Rift na África Oriental está subindo, colocando em risco as comunidades que vivem em suas costas e os animais que existem ao longo do seu curso.

Girafas abandonadas, flamingos em fuga e impalas ilhados: nos últimos anos, o aumento do nível da água nos lagos do Vale Rift, no leste da África, tornou-se a norma, provocando o deslocamento de pessoas, ameaçando a vida selvagem e submergindo escolas e hotéis.

O aumento gradual no nível da água foi notado pela primeira vez há 10 anos, mas foi acelerado pelas fortes chuvas em 2019, de acordo com o secretário principal do Ministério do Meio Ambiente e Florestas do Quênia, Chris Kiptoo.

Este ano, o Lago Turkana, o lago mais ao norte do Quênia, estava seis metros mais fundo que o normal para o mês de novembro. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) descreveu como “crítico” o nível de risco deste lago. Segundo a organização, sua perspectiva de conservação para 2020, publicada este mês, adverte: “As qualidades únicas do Lago Turkana, que é um grande lago em um ambiente desértico, estão sob ameaça à medida que as demandas por água para o desenvolvimento aumentam e o capital financeiro para construir grandes barragens fica disponível”.

Especialistas também expressaram temor de que dois outros lagos do Vale Rift, Baringo e Bogoria, possam se fundir com consequências ecológicas catastróficas. Imagens comparativas tiradas pelo Observatório da Terra da NASA em 2013 e 2020 mostram depósitos pesados de sedimentos ao longo das bordas dos dois lagos que agora estão a 13km de distância, sendo que antes essa distância era de 20km.

Um porta-voz do governo diz que o Lago Baringo expandiu de 176 km² para 260 km², enquanto o Bogoria expandiu de 34 km² para 45 km². “A Reserva Nacional do Lago Bogoria experienciou uma mudança no ecossistema do lago, levando a uma redução acentuada no número de flamingos de 1,5 milhão para menos de 100.000.”

O Lago Baringo é um habitat de água doce que hospeda peixes, crocodilos do Nilo e hipopótamos. As populações locais dependem de sua água para uso doméstico e agricultura. O Lago Bogoria é alcalino e abriga milhares de flamingos que dependem das algas verde azuladas que crescem em suas águas. Os gêiseres de água quente e fontes termais que costumavam atrair turistas para a região estão submersos.

“Se os dois lagos se fundirem, a água doce de Baringo diluiria o álcali em Bogoria e reduziria o crescimento das algas, devido à alteração no pH”, diz Mark Boitt, especialista em sistemas de informações geográficas. “Há vários anos, um aumento semelhante nas águas do Lago Nakuru fez com que milhões de flamingos fugissem para Bogoria. Mas por quanto tempo eles podem continuar se mudando de um habitar para outro? Estamos no limiar da rápida perda de biodiversidade ao redor dos lagos.”

Atualmente o aumento do nível da água em Baringo já afetou os animais selvagens residentes na ilha de Longcharo, localizada no lago, à medida que as águas reduzem o tamanho da ilha e as áreas disponíveis de pastagem. Em setembro, as autoridades de vida selvagem realocaram avestruzes, impalas e javalis para uma área de conservação no continente. No início deste mês, duas das oito girafas abandonadas na ilha também foram transportadas para um lugar seguro.

“Transportar uma girafa é um processo delicado. Temos que examinar o habitat e garantir que ancoramos a barcaça de uma maneira que facilite a entrada das girafas sem causar estresse desnecessário”, diz Jackson Komen, diretor do Serviço de Vida Selvagem do Quênia, em Baringo.

“Levou um dia inteiro apenas para transportar uma só girafa, sendo que a barcaça leva pelo menos duas horas para chegar ao continente. As demais, incluindo algumas fêmeas grávidas, serão transportadas um pouco mais tarde.”

O governo nomeou um comitê técnico multiagências para investigar a causa do aumento do nível da água nos lagos, a divulgação do relatório final está prevista para os próximos dias.
Silas Simiyu, um geólogo local, diz que a atividade humana ao redor das áreas de captação de água é uma das principais razões para o aumento do nível da água.

“Podemos estar falando de um aumento do volume de água, mas nos esquecendo que, na verdade, é a capacidade dos lagos de reter água que reduziu. A água dos aquíferos subterrâneos sempre aumentou dependendo dos ciclos de movimento tectônico. Mas nunca os lagos foram assoreados como são hoje”, diz Simiyu. “Em vez de agir como tigelas profundas que podem conter mais água, os lagos estão se tornando frigideiras largas e finas devido ao assoreamento.”

Ele diz: “Alguns falam de aumento das chuvas, mas as chuvas em curso não são as mais intensas previstas para estas áreas. Vamos aceitar que nossas próprias atividades exacerbaram o problema.”
Susan Jepkemoi, cientista ambiental do Great Rift Centre for Research and Development (Centro Great Rift para Pesquisa e Desenvolvimento), diz que o aumento populacional veio com a demanda por mais áreas de cultivo, além disso, mais pessoas se estabeleceram próximo aos lagos.

“A mudança no uso da terra sem levar em conta o meio ambiente terá sérias consequências climáticas nesses lagos”, diz ela. “As pessoas ao redor dos lagos continuam cortando árvores para queima de carvão. Isso esgota a cobertura do solo que leva a inundações. A água do escoamento leva consigo o solo superior aos lagos, que são os pontos mais baixos do Vale Rift, o que causa o assoreamento.”

O fenômeno provocou revolta nas comunidades locais. À medida que a água avança mais para o interior, os campos de pastagem continuam encolhendo e igrejas, escolas e hospitais que estavam ativos no início do ano agora estão em ruínas.

“Faça um passeio de barco aqui e há grandes chances de que você esteja andando em cima de edifícios de vários andares, as relíquias de uma cidade perdida”, diz Francis Cherutich, guia turístico em Baringo.
Para Kangogo Arap Kipotota, de 83 anos, sua pequena mercearia na cidade de Kampi Ya Samaki passou a funcionar como sua casa. Sua antiga casa está submersa a vários quilômetros da loja. Ele se lembra da cheia do lago em 1961, mas o episódio não chega nem perto dos níveis atuais. Naquela época, era uma longa caminhada para chegar ao lago. Agora está quase na porta da loja dele. Como outros residentes, ele teme ter que se mudar novamente para um lugar mais alto.

“O lago estava tão longe que eu levaria nossas ovelhas e cabras para pastar além daquela árvore”, diz ele, apontando para um tronco de árvore a mais de 500 metros de sua loja. “Nós caminhávamos nas bordas rasas do lago. Você não pode tentar isso agora, uma vez que crocodilos e hipopótamos se tornaram nossos vizinhos próximos”.

Ambos os lagos são áreas importantes de aves que atraem milhares de ornitólogos de todo o mundo. No entanto, uma avaliação de 2019 dos lagos Baringo e Bogoria feita pela organização BirdLife International classificou seu status de risco como “muito alto”.

A indústria hoteleira local também foi duramente atingida pelo aumento das águas. Hotéis e pousadas que dependiam do turismo foram parcial ou completamente submersos. No resort Soi Safari Lodge, em Baringo, a única parte visível de um salão estilizado na forma de uma tradicional cabana africana é o telhado. Recentemente, em julho, o prédio ficava a 800 metros da margem original do lago.

“A Covid-19 paralisou o negócio do hotel. Agora o lago tomou o hotel. E parece não haver fim para a invasão do lago nas propriedades”, diz Peter Chebii, gerente do hotel.

Sem nenhum sinal de que as águas vão recuar, Boitt adverte: “Falhamos em proteger o meio ambiente e agora estamos colhendo os frutos amargos. Ou reabilitamos ou perdemos nosso sustento quando a terra – desmatada devido ao cultivo – revida usando os lagos. Só nós podemos frear este fenômeno. Mas será que podemos mesmo?”.



Fonte: Anda - Por Peter Muiruri (The Guardian)



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