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Mulheres que vivem em aldeias espalhadas se organizam para defender suas florestas

Compartilhe:     |  1 de junho de 2019

Quando a informação começa a chegar, elas não conseguem evitar mudanças profundas em seu modo de vida. Direcionadas culturalmente para cuidar da roça e da casa, as mulheres do Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, começam a se organizar para defender o que consideram mais valioso: o território coberto por florestas.

“A partir do momento em que a gente começou a saber do mundo lá fora, a gente viu que as ameaças vêm principalmente do governo, que tenta acabar com nossos direitos, com nossas terras”, diz Amairé Kaiabi-Suia, de 33 anos, enquanto recebe no rosto a pintura de seu povo.

É ela que abre a reunião inédita entre mulheres de 16 etnias que vivem nas aldeias espalhadas nas sub-regiões alto, médio e baixo Xingu, em meados de maio. É a oportunidade para todas compartilharem o que sabem sobre as últimas decisões anunciadas em Brasília. Cercadas por Floresta Amazônica, a cidade mais próxima, Canarana (MT), está a um dia de viagem – incluindo trajeto de barco e carro.

“Apesar de a gente já ter nosso território demarcado, esse atual governo vem falando que quer diminuir ou rever o que já foi feito”, fala Iré Kaiabi, de 39 anos, sobre o governo de Jair Bolsonaro. “Nossa preocupação é que a gente possa perder o que conquistou com a luta dos nossos antepassados e que os outros povos, que ainda esperam demarcação, não consigam esse direito”.

Watatakalu Yawalapiti, de 38 anos, e sua irmã Anna Terra Yawalapiti, de 35, lideram esse despertar. “Ainda existe muito preconceito por sermos mulheres”, diz Anna. “Mas a gente não quer ficar nem atrás, nem na frente: queremos estar lado a lado lutando com os nossos homens”.

A luta é para manter a floresta. “A mata e os rios são importantes para que nossos filhos cresçam aqui, tenham de onde tirar os alimentos, construção de suas casas, seus medicamentos. Tudo o que a gente precisa ter é o nosso território”, explica Watatakalu.

Mas, para ir além do Xingu e chegar aos centros de decisão, o apoio dos caciques e das lideranças das aldeias é fundamental. Sinharo Kaiabi, cacique da aldeia Ilha Grande, no médio Xingu, local onde o encontro foi realizado, aprovou o evento que reuniu mais de 190 mulheres em sua comunidade.

“Muitas moram em aldeias espalhadas e não sabem o que está acontecendo, principalmente nesse governo, que está mudando tudo nas áreas indígenas”, afirma. “É muito raro elas conversarem sobre novas políticas. Muitos de nós, homens, dão poucas oportunidades. Mas eu apoio”, diz.

Muitas das mulheres moram em aldeias espalhadas e não sabem o que está acontecendo, principalmente neste governoMuitas das mulheres moram em aldeias espalhadas e não sabem o que está acontecendo, principalmente neste governo

Cercadas pelo desmatamento

O Parque Indígena do Xingu, com 27 mil quilômetros quadrados, foi a primeira área demarcada no país, em 1961. Marcada por uma grande biodiversidade e riquezas culturais preservadas das 16 diferentes etnias, a floresta continua bem preservada dentro do território.

Ainda assim, para a cacica e pajé Mapulu Kamayurá, do alto Xingu, a riqueza de seu povo está comprometida. Da mata, ela sempre retirou remédios, comida e água. “Quem está acabando com o que ainda tem de floresta é o governo, os fazendeiros. Essa é minha preocupação. Onde vão ficar nossos netos?”, questiona.

No entorno das aldeias, na bacia hidrográfica do rio Xingu, o desmatamento não para. Só nos quatro primeiros meses de 2019, mais de 36 milhões de árvores (30 mil hectares) foram derrubadas na região. O avanço da agropecuária, grilagem e abertura de estradas ilegais explicam os índices.

Segundo dados do ISA (Instituto Socioambiental), a área total desmatada em março e abril na bacia foi de 21.495 hectares – um aumento de 156% em relação aos dois primeiros meses do ano. A maior parte desse desmatamento (13 mil ha) foi em Mato Grosso, apontam as medições do Sirad X, um sistema de monitoramento da Rede Xingu+.

Em janeiro e fevereiro, três municípios do estado, Santa Carmem, Feliz Natal e União do Sul, já haviam chamado a atenção pelo salto de área desmatada – provavelmente para abertura de grandes áreas de floresta para cultivo de soja. Eles estão muito próximos do Parque Indígena do Xingu.

“A ameaça maior são nossos vizinhos: os fazendeiros, sojeiros. Eles tramam contra a gente o tempo todo porque acham que a gente desperdiça terra. Eles não entendem que a floresta em pé vale mais do que o dinheiro deles. Não só pra gente, mas para eles também”, argumenta Watatakalu.

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Impactos das mudanças no clima

Wisio Kaiabi, de 60 anos, uma das pioneiras no movimento de mulheres, coloca os impactos das mudanças climáticas no topo de suas preocupações. “Estamos sofrendo com muita quentura”, diz sobre a temperatura. “Isso não acontecia antes. Mas agora os fazendeiros estão chegando muito perto das nossas terras, acabando com as matas e a quentura está vindo para dentro do Xingu”, afirma.

Os impactos relatados pelos indígenas estão de acordo com medições de pesquisadores. Quando uma área de floresta desaparece para se transformar em lavoura, a temperatura da superfície sobe até 5°C. “Esse efeito também aumenta a temperatura do ar próximo à superfície, assim, o desmatamento em grande escala, como o ocorreu no entorno do Xingu, pode teoricamente ajudar a explicar a sensação térmica narrada pelos indígenas”, afirma Divino Silvério, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

O sumiço da cobertura florestal tem impacto também sobre a produção de água. Sem árvores, todo o vapor que elas transferem para o ar, num processo chamado de evapotranspiração, desaparece.

O estudo feito por Silvério na bacia do Xingu mostrou que a conversão da floresta em plantações e pastagens entre 2000 e 2010 fez com que 35 km³ de vapor de água deixassem de ser produzidos. Uma área de floresta convertida em lavoura apresenta redução de 33% na evapotranspiração. “É um vapor de água que deixou de virar chuva, diz Silvério.

No Xingu, com as mudanças do padrão climático, as mulheres tentam agora reaprender a plantar na hora certa. A diminuição e irregularidade das chuvas já provocaram perdas nas colheitas de mandioca, banana, batata doce, amendoim. Para Wisio, cacique na aldeia Guarujá, a sobrevivência de todos está atrelada à presença da mata.

“Essa floresta nos dá saúde´”, diz, ainda em luto, depois de perder uma neta com pneumonia. “Ela é importante para tudo. Não só para indígena. E para mudança climática não acontecer”.

*A viagem das jornalistas ao Parque Indígena do Xingu foi realizada com apoio da Rainforest Journalism Fund em associação com o Pulitzer Center.



Fonte: Deutsche Welle 



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