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Na natureza, o olhar frequentemente denota ameaça ou confronto iminente

Compartilhe:     |  26 de junho de 2015

O olhar do dono Entre cães e humanos, o olhar compartilhado promove a liberação de ocitocina, hormônio que consolida o amor.

Por: Franklin Rumjanek

Especialistas descreveram as bases fisiológicas do olhar entre cães e humanos, medindo os níveis de ocitocina nos animais e em seus donos quando eram colocados num mesmo ambiente e estabeleciam contato visual. (foto: Tony Alter / Flickr / CC BY 2.0)

Cada vez mais, observa-se que os donos dos cachorros tendem a atribuir a esses animais características humanas. Do ponto de vista comportamental, é verdade que os cães estabelecem com seus donos uma interface que envolve não só a linguagem falada (os cães conseguem compreender um vocabulário de cerca de 150-200 palavras) como também a linguagem corporal. Uma dessas manifestações é quando os cães encaram seus donos fixando o olhar diretamente nos olhos como um modo de transmitir emoções.

Entre espécies do mundo animal, fitar nos olhos representa em geral uma ameaça, um sinal que costuma significar confronto iminente. Em abril, Miho Nagasawa e colaboradores, da Universidade Azabu, em Sagamihara (Japão), publicaram um interessante trabalho na revista Science mostrando as bases fisiológicas do olhar entre cães e humanos.

A equipe de Nagasawa mediu os níveis do hormônio ocitocina em cães e seus donos quando eram colocados num mesmo ambiente e estabeleciam contato visual. A ocitocina é um hormônio secretado pela neuro-hipófise e seu papel clássico é a ação na musculatura lisa do útero e das glândulas mamárias, produzindo, no primeiro, as contrações que auxiliam o trabalho de parto e, nas segundas, a liberação do leite durante a lactação. Além dessas funções, a ocitocina é hoje considerada um neurotransmissor que medeia o comportamento social, particularmente a formação dos fortes laços que se estabelecem entre a mãe e o(a) filho(a), assim como entre parceiros sexuais.

Nagasawa e colaboradores mostraram que o olhar compartilhado entre os cães e seus donos promovia a liberação de ocitocina em ambos. Segundo os pesquisadores, esse comportamento, que teria coevoluído nas duas espécies, mimetiza a manifestação mais importante de ligação social entre mãe e filhos. Em outras palavras, além dos efeitos no útero e nas glândulas mamárias, a ocitocina é o hormônio que consolida o amor.

Nagasawa e seu grupo mostraram que a ação da ocitocina ia além daquela já conhecida entre membros da mesma espécie. Este trabalho evidenciou também que os lobos, mesmo aqueles criados desde filhotes por tratadores, não exibiam o mesmo comportamento, isto é, raramente olhavam para os tratadores e não secretavam ocitocina quando colocados no mesmo recinto. A ausência de produção de ocitocina também foi verificada nos tratadores, o que confirma a natureza distinta da relação cão-humano.

Os pesquisadores ainda mostraram que a administração de ocitocina aos cães aumentava a duração do olhar, mas curiosamente, nesse caso, o efeito do hormônio só era observável nas fêmeas. Em resumo, além de esclarecer a natureza química do amor/afinidade, a equipe de Nagasawa revelou que, pelo menos no que tange às emoções dependentes da ocitocina, o sistema nervoso central das fêmeas parece ser diferente do dos machos.

Há outras evidências que indiquem isso? Sim. A possível diferença constitutiva entre machos e fêmeas foi o tema de outro trabalho publicado em maio na revista Nature Neuroscience, em que Bridget Nugent, da Universidade da Pennsylvania, e colaboradores mostraram que o cérebro de camundongos é naturalmente feminizado.

O cérebro só se torna masculinizado quando, num indivíduo macho, genes do cromossomo Y induzem a produção de testosterona. Nessa situação, ocorre o bloqueio dos mecanismos que tornariam aquele cérebro feminino. Nugent descobriu que o mecanismo de bloqueio é a metilação em certas regiões do DNA. A metilação do DNA, um dispositivo frequentemente usado pela célula para reprimir genes, seria então a chave molecular que determina a fisiologia associada ao sexo.

Resta saber se essa chave pode ser generalizada para outras espécies e se, como no caso das cadelas, determina o comportamento afetivo diferenciado.



Fonte: Revista Ciência Hoje



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