Entrevista

Não tem graça vivermos num mundo cinza

Compartilhe:     |  10 de janeiro de 2015

Tatianna: Entrevista com Tatianna Silva, vencedora do “Green Talents Award 2014”
Ela tem 27 anos e já concluiu o mestrado em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Graduada em Direito e mestre em Direito Internacional Comercial e Ambiental pela UFMG, a belo-horizontina Tatianna Silva acaba de entrar para o seleto grupo dos 25 cientistas vencedores da 6ª edição do “Green Talents Award”, um dos mais importantes prêmios mundiais de sustentabilidade, entregue em novembro passado pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha.

O projeto de pesquisa dela – sobre a gestão e o tratamento do lixo no Brasil – chamou a atenção do júri e aponta caminhos para um país mais limpo e inclusivo. Em entrevista exclusiva à Ecológico, diretamente de Berlim, Tatianna demonstra otimismo e firme determinação em contribuir para o avanço das nossas políticas públicas. “Acredito no poder transformador da cidadania ativa. Estou determinada a contribuir para traçar um futuro mais verde, inclusivo e sustentável para o nosso país. Não tem graça vivermos num mundo cinza.” Confira:

Sua pesquisa está relacionada à regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em 2010, e se destacou entre projetos de estudantes de mais de 100 países. Qual a importância desse reconhecimento?

A pesquisa se refere ao meu projeto de doutorado, que pretendo iniciar ano que vem. Atualmente, estou me candidatando ao doutorado em universidades do Reino Unido e ter ganhado esse prêmio, que reconhece pesquisadores do mundo inteiro com talento e potencial na área de sustentabilidade, é um tremendo incentivo. Indica que o meu projeto está no rumo certo e reafirma, ainda, a relevância do tema “resíduos sólidos” em nível global, em especial nesta edição do prêmio, que contou com um número recorde de inscritos.

 

Quais são as bases da sua pesquisa?

Ela ainda está em fase de planejamento e deve se estender pelos próximos três anos. Em linhas gerais, pretendo avaliar se a inserção das cooperativas de catadores em sistemas formais de coleta e gerenciamento de lixo contribuiu, de fato, para a inclusão social e a emancipação econômica desses trabalhadores, colaborando também para elevar as taxas de reciclagem no país, conforme vislumbrado pela PNRS.

Há um ponto de partida?

Parto da premissa de que para o Brasil avançar em duas áreas prioritárias – erradicação da pobreza e proteção do meio ambiente – é urgente repensarmos o lixo não mais como resíduo, mas como recurso. Pretendo focar o levantamento de informações sob a ótica dos catadores de materiais recicláveis, reconhecendo o papel crucial que eles desempenham. Apresentar recomendações para melhorar a interação entre os diversos atores da cadeia de produção e tratamento do lixo também é um dos objetivos centrais do meu projeto.

Quais são as suas hipóteses sobre os motivos que emperram o cumprimento da PNRS?

Por enquanto, posso adiantar que, embora reflita artigos contidos na “Diretiva Europeia de Gerenciamento de Lixo”, publicada em 2008 e considerada uma legislação bastante avançada, a PNRS contém apenas princípios e objetivos abstratos, que dependem de regulamentação para terem sentido concreto e efetivo. A lei brasileira menciona, por exemplo, a necessidade de redução da quantidade de lixo produzida no país, bem como a urgência da promoção da reciclagem. Mas não fixa qualquer meta específica.

 

Essas metas deveriam ser estabelecidas pelo Plano Nacional de Resíduos Sólidos…

Sim. Mas embora tenha sido finalizado em versão preliminar em 2011, esse plano ainda não foi aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

 

Falta vontade política? Como superar essa realidade?

Acredito que enquanto o governo federal não traçar metas concretas – como fez a União Europeia, onde atualmente se discute o aumento da taxa mínima de reciclagem de resíduos sólidos municipais para 70% até 2030 – a efetividade da PNRS estará comprometida no Brasil. O governo também precisa indicar de forma mais clara para prefeituras, governos estaduais, empresas e sociedade civil o papel que cada um deve desempenhar para alcançarmos todos os objetivos propostos no que se refere tanto à redução quanto ao reuso e à reciclagem do lixo.

 

Nesse aspecto, você considera importante a adoção de mecanismos de incentivo e também de cobrança?

Isso é fundamental para impulsionar os diferentes atores a assumirem e compartilharem a parcela de responsabilidade que lhes cabe. Países como Inglaterra, por exemplo, só foram bem-sucedidos no esforço de aumentar as taxas de reciclagem, a partir do momento em que o governo introduziu a cobrança de taxas progressivas sobre a tonelada de material encaminhado para aterros sanitários. A reciclagem tornou-se então a opção número um, por viabilizar a recuperação de valor a partir da reinserção dos materiais recicláveis na cadeia produtiva.  

Com sua pesquisa você demonstra o desejo de mudar a forma como as políticas públicas são definidas no Brasil. De onde surgiu a inspiração para esse projeto?

Acredito no poder transformador da cidadania ativa. Infelizmente, em nosso país, ainda temos uma visão bastante passiva quanto aos direitos e deveres do cidadão. Por isso, vejo com bons olhos e esperança os movimentos surgidos desde junho de 2013. Independentemente de filiação partidária, percebo um número crescente de pessoas se conscientizando da importância de sermos atores da política nacional e não meros espectadores e consumidores de políticas públicas. Faço parte desse grupo e estou determinada a contribuir com o que estiver ao meu alcance para traçar um futuro mais verde, inclusivo e sustentável para o Brasil.

 

Segundo o MMA, o Brasil perde R$ 8 bilhões/ano por não reciclar os resíduos que são encaminhados diariamente aos aterros e lixões. A reciclagem só está presente em 8% dos municípios. Há um percentual ideal de reciclagem?

O ideal seria reciclar e compostar tudo o que descartamos, ou seja, viver em uma “sociedade lixo zero”. No entanto, limitações tecnológicas e econômicas impedem que esse cenário seja alcançado. Em alguns casos, ainda não há tecnologia disponível para processar certos tipos de materiais. Em outros, embora disponível, a tecnologia é economicamente inviável, pois tem custos mais elevados do que os benefícios gerados. Na União Europeia, como citei, a meta de reciclar 50% do lixo domiciliar até 2020 está sendo revisada, diante da proposta da Comissão Europeia de aumento para 70% até 2030.

 

Isso comprova, então, que a implantação e a ampliação da coleta seletiva são essenciais para elevar as taxas de reciclagem…

Sem dúvida. Pouquíssimas cidades oferecem o serviço, embora a separação dos materiais recicláveis nos domicílios melhore a qualidade dos recursos coletados, pois diminui o grau de contaminação e, com isso, aumenta o valor que se recupera por meio da reciclagem.

 

E em relação ao lixo orgânico?

Essa é outra questão crucial e que não vem merecendo a atenção necessária. Hoje, mais de 50% do lixo brasileiro é composto por material orgânico, mas só 1% dele é destinado à compostagem. Há duplo desperdício, pois o país tem muito a lucrar com a produção de fertilizantes naturais a partir do lixo, considerando, principalmente, o expressivo volume da nossa produção agrícola.

 

Qual é a sua visão sobre a chamada economia circular?

Esse é um termo que vem ganhando popularidade tanto no meio empresarial quanto acadêmico e político, principalmente na Europa. Trata-se de um contraponto ao nosso modelo econômico linear atual, baseado na lógica do extrair-consumir-descartar e que encara os recursos como resíduos sem valor. Extraímos recursos da natureza, transformamos em produtos, consumimos e, posteriormente, descartamos. Além de ambientalmente insustentável, esse modelo é economicamente inviável, pois esbarra na escassez de matériasprimas que já assombra mercados ao redor de todo o mundo.

Os vencedores da edição 2014 do Green Talents: a esperança de um futuro mais ecológico – Crédito: Divulgação

Trata-se de um modelo inspirado na ótica da natureza…

Sim. Nele, tudo é reaproveitado e reutilizado em ciclos. Perdas devem ser reduzidas ao mínimo, o que representa não só um avanço na preservação dos recursos naturais como também excelente oportunidade de redução dos custos produtivos. A ideia de uma economia regenerativa baseia-se numa série de princípios, entre eles, a prevenção do desperdício, o prolongamento do ciclo de vida dos produtos, a melhoria dos processos produtivos e a transição para novos modelos de negócios pautados na venda de serviços, em vez da venda de produtos.

Poderia citar um exemplo da aplicação desse conceito?

A Xerox alterou o seu modelo de negócios e, em vez de simplesmente competir pela venda de equipamentos de impressão, passou a investir, em paralelo, no setor de prestação de serviços. Por meio do Managed Print Services, ela oferece impressoras a seus clientes em um sistema de comodato semelhante ao adotado pelas empresas de internet banda larga, que cedem o modem aos seus clientes.

 

E eles podem optar por contratar o serviço de gerenciamento dos sistemas de impressão?

Isso mesmo. Com esse modelo, ganham os clientes, que não têm de arcar com os custos de aquisição, manutenção e atualização de seus aparelhos e ganha também a Xerox, com a redução dos custos com insumos e a fidelização dos clientes. Em 2012, a prestação desses serviços respondeu por mais de 50% dos US$ 22,4 bilhões da receita anual da empresa.

 

Em que colégios você estudou na capital mineira? Como foi a
sua infância?

Na Escola Lúcia Casasanta e no Colégio Marista Dom Silvério. Fui criada pela minha mãe, mulher de fibra, – com a ajuda da minha querida avó. E cresci ouvindo que a educação era a melhor herança que ela poderia me deixar. Isso me marcou. Acredito no poder transformador da educação. Sempre fui uma aluna esforçada e, olhando para trás, percebo os frutos que a dedicação aos estudos está me rendendo agora.

 

Pretende retornar ao Brasil após o doutorado? Que recado deixa aos estudantes mineiros?

Sem chances de largar a minha pátria amada. Minha ausência é temporária, apenas para investir na minha educação e expandir meus horizontes. A educação me deu asas para alçar voos mais longos, confiança e determinação para me levantar diante das inevitáveis quedas. Ter acesso ao saber é um privilégio, desperdiçá-lo é bobeira. Sonhe alto, tente, caia, levante e persista. Vale a pena!

 

Qual é o seu sonho de um Brasil e de um mundo mais sustentáveis?

Não tem graça vivermos num mundo cinza. Nosso futuro precisa ter todas as cores. Sou otimista em relação às mudanças que estão ao nosso alcance promover, embora seja realista quanto ao tempo que levaremos para consolidá-las. A transição para um modelo de desenvolvimento sustentável vai prosperar, pois os benefícios econômicos dessa mudança são cada vez mais claros e indiscutíveis. Embora esteja certa de que a natureza cobrará com juros os danos causados no passado, vislumbro um futuro de progresso na seara ambiental. Meu sonho é o de um mundo mais solidário e menos competitivo; sem lixo ou pobreza e no qual todos tenham acesso à educação. E, acima de tudo, sejamos reconhecidos pelo que somos e não pelo que temos.

 


Fique por dentro:

Desde 2009, o Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha promove o Green Talents – Fórum Internacional para Iniciativas de Alto Potencial em Desenvolvimento Sustentável, destinado a promover o intercâmbio internacional de ideias relativas a soluções ecológicas.

 


O Brasil em números:

De acordo com o “Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2013”, divulgado em agosto passado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), aproximadamente 41,7% do lixo coletado no país tem como destino final lixões irregulares.

 

Há lixões em todos os estados e 60% dos municípios brasileiros encaminham seus resíduos para locais inadequados. Ainda de acordo com a pesquisa, feita em 404 municípios (o que representa 45% da população), foram geradas mais de 76 milhões de toneladas de lixo em 2013, um aumento de 4,1% em relação a 2012.

Fonte: Revista Ecológico – Luciana Morais



Fonte: Revista Ecológico - Luciana Morais



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