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Nas redondezas dos incêndios da Amazônia, moradores estão doentes, preocupados e com raiva

Compartilhe:     |  28 de agosto de 2019

Uma canção popular descreve o céu acima desta cidade brasileira com mais de 400 mil habitantes como sempre azul. Mas, nesta semana, Porto Velho, juntamente com grande parte da bacia amazônica, está envolta por fumaça cinza, já que os incêndios florestais continuam assolando  a região.

Entretanto, como floresta tropical, a Amazônia não está queimando por si só. O desmatamento, ao longo do tempo, tornou seu ecossistema mais seco e os incêndios se tornaram comuns nessa época do ano, que normalmente é marcada pelo clima seco e mais frio. Muitos incêndios são feitos por fazendeiros e agricultores que buscam limpar a terra para pastagem de gado e agricultura. Neste ano, porém, dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram um aumento de quase 85 por cento nos incêndios de todo o país desde 2018, principalmente na região amazônica.

A situação é particularmente grave no estado de Rondônia, do qual Porto Velho é a capital. Lá, os incêndios aumentaram 190 por cento desde o ano passado, segundo o Inpe, apesar de as condições climáticas serem praticamente as mesmas. O estado é conhecido pelo gado bovino e está entre os mais devastados do Brasil. Este ano, aparentemente, fazendeiros causaram mais incêndios que nos anos anteriores e, como resultado, grandes áreas do estado estão queimando fora de controle.

Incêndio em uma área da floresta amazônica perto de Porto Velho, estado de Rondônia, em 21 de agosto de 2019.
FOTO DE UESLEI MARCELINO/REUTERS

Fumaça em todos os lugares

Nesta semana, o aeroporto de Porto Velho teve que ser fechado por conta do incêndio que invadiu seu perímetro, e por pouco não desviou de um depósito de combustível. Palmeiras chamuscadas agora recebem os visitantes em suas chegadas. Na cidade, a fumaça é percebida mesmo dentro de grandes shopping centers e de fechados quartos de hotel. O número de pessoas internadas em hospitais estaduais com pneumonia, tosse severa e outros problemas respiratórios triplicou na última semana, segundo reportagens locais.

Na sexta-feira de manhã (23/08), a vida nas ruas parecia normal; as pessoas não se precaviam para se protegerem da fumaça. Em uma banca de frutas na movimentada Rua Imigrantes, Laine Polinaria de Oliveira atendia um fluxo constante de fregueses comprando abacaxi, mamão, melancia e goiaba.

“Os negócios estão normais, mas todo mundo está falando sobre os incêndios”, disse ela. “Estamos acostumados com incêndios nessa época do ano, mas neste ano está bem pior que nos anteriores.

Vinda de Nova Mamoré, uma pequena cidade a 300 quilômetros de distância onde os incêndios são ainda mais intensos que em Porto Velho, Laine diz estar particularmente preocupada com seu filho de 9 anos inalando o ar sujo.

Rota de distribuição em chamas

Situado não muito longe da fronteira com a Bolívia, ao longo do rio Madeira, um afluente de 3,2 mil quilômetros do Amazonas, Porto Velho é um importante centro de distribuição no noroeste da Amazônia. A fumaça dos incêndios leva a uma baixa visibilidade para os operadores dos barcos no rio, aumentando o risco de colidirem com outros barcos ou encalharem em bancos de areia expostos.

Jerrison da Silva Cruz, operador de barco local e pescador, relatou um incidente na quarta-feira à noite, quando ele e a tripulação estavam a bordo de um navio viajando rio acima e se depararam com uma parede de fogo em uma curva acentuada no rio, a cerca de 12 horas de Porto Velho.

“Não conseguíamos ver nada por causa da fumaça,” ele conta. O capitão do navio decidiu que o melhor a se fazer era ficar no mesmo lugar, próximo à terra que já tinha sido queimada para dar lugar às fazendas de melancia, e esperar a fumaça abaixar, o que em certo momento aconteceu.

Enquanto o vasto rio Madeira pode agir como uma barreira contra os incêndios, as pequenas estradas que cruzam a enorme floresta amazônica fornecem pouca proteção para quem viaja de carro.

Povos indígenas em perigo?

Ainda mais preocupante é o destino das muitas comunidades indígenas da Amazônia. Um milhão de indígenas vivem na parte brasileira da bacia amazônica, muitos em total isolamento do mundo exterior.

“Ninguém sabe o que está acontecendo com eles… Eles não têm como chamar um bombeiro para apagar o fogo”, diz Ivaneide Bandeira Cardoso, conhecida fundadora do Kanindé, um grupo de defesa de comunidades indígenas baseado em Porto Velho.

Cardoso e muitos outros dizem que o presidente Jair Bolsonaro é o responsável direto pelo agravamento dos incêndios florestais por toda bacia amazônica  neste ano. Desde que assumiu o poder no começo do ano, Bolsonaro deixou claro que prioriza os interesses de indústrias que querem acesso livre às terras protegidas. Críticos dizem que ele encorajou fazendeiros e agricultores a queimar ainda mais terra ao afrouxar uma lei, sinalizando que seu governo não multará apropriação ilegal de terras.

“O que causa essa tragédia são as palavras do presidente”, diz Cardoso, acrescentando que, apesar de as maiores vítimas desses incêndios serem os indígenas e a natureza, é uma “tragédia que afeta toda a humanidade”, já que a Amazônia tem um papel importante no ecossistema global como sumidouro de carbono para deter os efeitos das mudanças climáticas.

Bolsonaro, em sua defesa, diz que as críticas às ações de seu governo na Amazônia são histéricas. Sem evidência nenhuma, ele até sugeriu que ONGs causam incêndios deliberadamente para “trazer problemas para ao Brasil.”

Enquanto Bolsonaro tem forte apoio em sua base conservadora, muitos brasileiros parecem extremamente preocupados que as ações do governo prejudicarão a reputação do Brasil internacionalmente e poderia levar até uma dificuldade econômica se outros países decidirem boicotar produtos brasileiros, incluindo a carne. Protestos contra as políticas governamentais na Amazônia estão agendadas para acontecerem nos próximos três dias em muitas cidades do Brasil.

Na barraca de frutas em Porto Velho, Laine diz que a atitude em relação às queimadas deliberadas na floresta está mudando entre os cidadãos comuns. “Isso é algo que as pessoas fazem há muitos anos,” ela diz. “Mas agora podemos realmente sentir as repercussões dessa prática e as pessoas estão mudando de opinião sobre isso”.

Os moradores em Rondônia parecem não deixar que o ar esfumaçado os impeçam de viver normalmente. Na quinta-feira à noite, uma pequena multidão em um bar na área externa do principal shopping de Porto Velho cantava a todos pulmões com uma banda ao vivo enquanto a fumaça invadia as ruas da cidade. O nome da canção? “Todo mundo vai sofrer”.



Fonte: Ambiente Brasil - National Geographic – Stefan Lovgren



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