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Naveguemos por uma internet que faça bem à nossa saúde mental

Compartilhe:     |  3 de julho de 2020

Leonardo da Vinci (1452-1519) driblou a peste em Milão fazendo a única coisa que sabia fazer: criar. “Única coisa” é maneira de dizer. Símbolo maior do homem renascentista, o pintor, arquiteto, escultor, poeta, inventor, matemático, músico, etcetera não deixou de produzir enquanto uma epidemia, no final do século XV, ceifava a vida de um terço da população da cidade.

Hoje, enquanto enfrentamos a pandemia do coronavírus, a tecnologia disponível nos dá acesso ao conhecimento sem limite, o que caracterizava aquele que, com razão, é considerado um dos maiores gênios da humanidade. Temos na ponta dos dedos o que o artista florentino tinha dentro da cabeça. Devidamente amparados na muleta da internet, podemos, se quisermos, desfrutar da sensação de, como ele, apreender o mundo holisticamente.

Mas será que é isso que estamos fazendo?

O distanciamento social a que estamos submetidos deu nova relevância ao mundo digital. Se a parafernália eletrônica já era importante antes da crise da Covid-19, agora é indispensável. O que seria da vida entre quatro paredes sem laptops, tablets e smartphones? Graças a esses aparelhinhos, o home office tem sido tão produtivo que muitos setores planejam não voltar aos escritórios físicos. Está formada a percepção de que, com frequência, a jornada remota não é apenas mais econômica, mas muito mais produtiva. A educação à distância está colocando crianças, jovens e adultos ligados nas aulas online por horas. E, claro, o nosso lazer se resume, em grande parte, ao que emana das telas de todos os formatos e tamanhos.

Essa nova realidade, porém, não significa uma resposta necessariamente positiva à minha pergunta. Afinal, estamos usando da melhor maneira o potencial da internet ou estamos, ao contrário, nos entupindo de informações sem valor ou até nocivas? Se a maioria de nós não está aproveitado como deveria – como desconfio que seja o caso – proponho uma dieta digital.

Acredito que tenha lá sua pertinência o paralelo entre conteúdo online o conteúdo no prato. Este alimenta o corpo; aquele, o espírito. Já temos nutricionistas digitais. São profissionais que ajudam a criar dietas digitais balanceadas e personalizadas, usando uma tabela periódica dos elementos digitais. O próprio termo “dieta digital” já foi patenteado. A ideia, aliás, não tem nada de original. Sabemos desde os primórdios da era cristã que o ideal é termos “mente sã em corpo são”, como escreveu o poeta romano Juvenal. A ideia pode não ser nova, mas é boa – ou a frase não teria resistido vinte séculos.

Façamos um exercício. Imagine que o conteúdo que você consome tenha um valor nutricional correspondente. Pense no último post que curtiu. Será que isso valeu como um nutriente? Considere tudo que você vê, posta, curte, comenta, encaminha, marca pessoas. Os sites onde navega, as notícias que lhe prendem a atenção. Que motivam você a compartilhar. Há “vitamina” nisso tudo? Se estivesse em prato, seria o quê?

Cuidar da dieta digital é evitar as consequências do verdadeiro mal por trás da Covid-19 – a infodemia. Se o celular é o novo controle remoto, não nos deixemos controlar por ele. Controlar o celular é não perder o controle sobre o nosso tempo, é abrir espaço na agenda para o que mais importa. A moderação diante da telinha provavelmente não produzirá novas “Monalisas”, mas quem sabe, ao fim do dia, pintará no rosto de quem se esforçar um discreto sorriso de satisfação.



Fonte: Veja - Lucília Diniz - Joel Sharpe/Getty Images



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