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Nível do mar aumentará por séculos, mas podemos controlar a intensidade e o ritmo

Compartilhe:     |  15 de novembro de 2019

Os Estados Unidos iniciaram oficialmente o processo de saída do Acordo de Paris, um acordo internacional firmado em 2016 cujo objetivo era manter as emissões de gases de efeito estufa baixas o suficiente para conter o aquecimento global induzido pelo clima em até 2 graus Celsius.

Mas mesmo se os EUA permanecerem no acordo, as regiões litorâneas de todo o mundo sofrerão consequências sérias e inevitáveis, de acordo com um novo estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. Mesmo se todos os países atingirem suas metas do Acordo de Paris até 2030 e pararem completamente de emitir carbono, no caso, seria um cenário irreal, mas um experimento útil, o nível dos oceanos ainda subirá em todo o mundo. Nessas condições ideais, até 2300, — daqui cerca de oito gerações — o nível do mar em todo o mundo estará cerca de 90 centímetros mais alto do que hoje, de acordo com os cientistas.

Somente no período do Acordo de Paris — entre 2015, quando o acordo foi assinado, e 2030, fim dos compromissos firmados — o mundo terá gerado aquecimento suficiente para elevar o nível do mar em cerca de 11 centímetros no futuro, considerando apenas esse período de 15 anos.

Isso não significa que a situação seja desesperadora, dizem os autores: longe disso. Significa que as decisões tomadas hoje são de extrema importância. Os autores do estudo descobriram que quanto mais rápido as emissões se aproximarem do zero, mais lentamente o gelo reagirá — dando às cidades costeiras mais tempo para se prepararem ou se mudarem, e dando aos humanos mais tempo para pensarem em soluções para a crise climática.

“Podemos ver claramente que as emissões, em um curto período de tempo, justamente ao longo do período do Acordo de Paris, contribuem substancialmente para o aumento do nível do mar”, diz Alexander Nauels, principal autor do relatório e especialista em aumento do nível do mar na Climate Analytics. “Mas esse é um risco que podemos reduzir, com certeza, se conseguirmos, e parece que temos essa capacidade.”

O período do Acordo de Paris

Em 2015, líderes de 195 países se reuniram em Paris para definir uma estratégia internacional para enfrentar as mudanças climáticas. Na reunião, eles concordaram em tentar reduzir as emissões de gases de efeito estufa o suficiente para limitar o aumento da temperatura global a 2 graus Celsius acima das temperaturas registradas no século 19, antes da Revolução Industrial. Seria ainda melhor, concordaram os líderes, impedir que as temperaturas subissem mais de 1,5 grau.

Desde então, uma avalanche de importantes relatórios científicos têm sustentado a meta de 1,5 grau, alertando que cada fração além desse limite colocaria em risco milhões de pessoas e tornaria a adaptação mais difícil e dispendiosa. Outra ciência demonstrou que esses limites já podem ter sido ultrapassados em muitas partes do mundo.

Essa realidade torna os compromissos firmados no Acordo de Paris ainda mais importantes.

No Acordo de 2015 (que entrou em vigor em 2016), os países concordaram em tentar reduzir suas emissões em determinado número até 2025 ou 2030 e continuar revisando suas metas a cada cinco anos até lá. Essas “Contribuições Nacionalmente Determinadas”, ou NDCs na sigla em inglês, variaram amplamente em termos de ambição e viabilidade, mas criaram uma referência importante que pode ser utilizada para medir o progresso.

O governo Trump indicou que pretende retirar os EUA do acordo. Quatro de novembro foi o primeiro dia no qual o país pôde legalmente iniciar o processo, que leva um ano para ser concluído. No entanto, os EUA já estão longe de atingir suas metas.

Emissões hoje, impactos amanhã

As NDCs foram criadas para ajudar os países a impedirem que as temperaturas do ar subam demais. Mas não é apenas o calor que afetará as pessoas no futuro. O ar mais quente trará diversas outras mudanças ao sistema climático, desde tempestades mais fortes e monções mais úmidas até o aumento do nível do mar. Muitos desses impactos já estão sendo sentidos.

“Estamos testemunhando os impactos muito mais rapidamente do que imaginávamos”, diz Nick Golledge, especialista em calotas de gelo da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, “portanto, não podemos ser complacentes. Comprometemo-nos em conter o aumento no nível do mar a um determinado patamar, mas ainda podemos fazer muito sobre o ritmo desse aumento.”

Por outro lado, muitos dos impactos levarão muito tempo para serem sentidos, e provavelmente não poderão ser revertidos, mesmo que o mundo esteja no caminho certo para realizar seus planos mais bem intencionados.

As mudanças no nível do mar consistem em um tipo de impacto que se desenvolve lentamente. Mesmo que as emissões fossem reduzidas a zero e assim permanecessem, o nível do mar ainda aumentaria nos próximos cem anos. Isso ocorre porque o gelo do mundo reage lentamente ao estímulo que oferecemos agora, como um urso que acabou de acordar de uma longa hibernação.

Tshering Om, de 43 anos, ordenha um iaque no acampamento de verão da família.A geleira Masangang …

Nos últimos anos, os cientistas adquiriram sólido conhecimento de como o gelo na Groenlândia, Antártica e nas montanhas sofrerá mudanças se pressionado por temperaturas mais altas. O que eles descobriram é que a velocidade da mudança depende fortemente da velocidade do aquecimento.

Está aumentando, e rápido

Nesse estudo, os cientistas quiseram determinar exatamente em qual intensidade as emissões de hoje e os principais emissores da atualidade afetariam o futuro. Eles projetaram um experimento capaz de calcular o aumento do nível do mar a partir de períodos específicos e de emissores específicos. Primeiro, analisaram a soma total de todas as emissões desde o período pré-industrial até o prazo final para alcance das metas do Acordo de Paris, em 2030, e descobriram a quantidade total de aumento do nível do mar que essas emissões causariam no futuro: cerca de 43 centímetros até o fim do século, e mais de 1 metro até 2300, em média.

Então, eles decompuseram esses números ainda mais. Cinco países ou regiões — EUA, China, Índia, Rússia e UE — representam hoje mais da metade do total das emissões. Cada um desses países, portanto, será responsável por uma quantidade mensurável de aumento do nível do mar no futuro. Apenas durante o período de 15 anos do Acordo de Paris — de 2016 a 2030, quando os países supostamente estão levando o controle das emissões a sério — esses cinco principais emissores farão o nível do mar subir 11 centímetros no futuro, ou 20% do total de 2300.

Ao longo do “período do IPCC”, assim denominado pelos autores, que inicia em 1990, quando o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou seu primeiro relatório importante sobre como os seres humanos estavam afetando o clima da Terra, e que se estende até 2030, esses cinco principais emissores serão pessoalmente responsáveis por aumentar o nível do mar em mais de 25 centímetros até 2030.

Em comparação, o planeta registrou uma média de 20 centímetros de elevação do nível do mar desde 1900.

“Alguns centímetros não parecem muito, mas cada acréscimo conta”, afirma Kristina Hill, arquiteta paisagista e especialista em design ambiental da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Especialmente quando consideramos aspectos como a poluição. Há uma pequena quantidade de poluição no solo, e basta que um pouco de água atinja esse solo poluído e temos um problema. E oceanos com níveis mais altos significam mais chances de isso ocorrer.”

Recentemente, os cientistas também reavaliaram os mapas que estavam utilizando para descobrir como as cidades globais serão afetadas pelo aumento do nível do mar. O que acontece é que, depois de corrigir os dados de satélite que mostram a altura do solo em muitas cidades costeiras do mundo, cerca de 190 milhões de pessoas estarão vivendo abaixo da linha da maré alta em 2100 — cerca de 80 milhões a mais do que hoje e cerca de três vezes a quantidade anteriormente imaginada.

Para essas 190 milhões de pessoas, apenas um pouco de água a mais já acrescenta muito risco, explica Peter Girard, da Climate Central, que fez a reavaliação.

“É a diferença entre ter a sua casa destruída ou não, ou entre ter uma estrada coberta de água ou uma estrada seca”, diz ele.

Ação imediata para desacelerar o aumento

Embora 280 anos possam parecer distantes, esse período de tempo certamente está ao alcance da memória humana. “Eu cresci em um país, no Reino Unido, onde ainda dirigíamos em estradas construídas pelos romanos dois mil anos antes”, diz Golledge. “Portanto, não pensemos que algumas centenas de anos estejam fora da nossa realidade em termos de infraestrutura”.

E as ações tomadas agora — em busca das metas do Acordo de Paris, ou ainda de metas mais ambiciosas para redução das emissões — terão grande influência na experiência de milhões de pessoas no futuro.

“O fator mais importante para continuar a proteger as pessoas e construir novas defesas é o tempo”, diz Girard. “Quanto mais e mais cedo as emissões globais forem reduzidas, mais lenta será a taxa de aumento do nível do mar e mais tempo os governos e comunidades em todo o mundo terão para avaliar, planejar e criar defesas.”



Fonte: Ambiente Brasil - National Geographic - Alejandra Borunda



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