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“No olho” dos riscos climáticos, periferias têm hortas urbanas como aliadas

Compartilhe:     |  1 de fevereiro de 2020

Quando dona Terezinha recebeu de um médico, há mais de dez anos, a receita de tomar suco de couve orgânica para tratar uma gastrite, ela sequer sabia o que o doutor queria dizer com o termo “orgânico”. Hoje, no entanto, o significado está muito bem assimilado pela baiana de Ribeira do Pombal, responsável por uma horta urbana no Bairro Jardim Santo André, em São Mateus, distrito localizado na zona leste de São Paulo.

A Bahia ficou para trás por causa das dificuldades em ‘viver da roça’ no semiárido do Nordeste. “Não chove bem, e se depender de plantação,  você morre de fome”, explica. De qualquer maneira, em tempos de aquecimento global, o clima não deixa de ser problema em nenhum canto do globo. Na periferia da zona leste de São Paulo, onde Terezinha se radicou, saem a terra e o tempo seco para a entrada da poluição e dos terrenos baldios, somados à falta de áreas verdes.

Essa combinação contribui para a manifestação das chamadas ‘ilhas de calor’, um dos exemplos de mudanças climáticas causadas pelo homem. A grande concentração de concreto e asfalto nos centros urbanos causa uma elevação de temperatura, que costuma ser ainda maior em regiões periféricas, geralmente negligenciadas no planejamento urbano.

Agricultura urbana pode reduzir danos

O caminho para amenizar o impacto passa justamente pela horta de dona Terezinha, e de tantos outros agricultores da região que integram a Associação dos Agricultores Urbanos da Zona Leste (AAZL), organização da qual ela é diretora. Uma série de estudos de um projeto integrado da Capes, com a participação da Universidade Estadual do Estado de São Paulo (Unesp) e das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Santa Catarina (UFSC), avalia os efeitos desse tipo de horta sobre o clima das cidades. Apesar de ainda estar em andamento, a pesquisa já atestou benefícios climáticos relacionados às plantações.

“Essas áreas têm um efeito um importante para diminuição da temperatura do ar, isso a gente já pode afirmar. O efeito da agricultura urbana para a amenização da temperatura e, por consequência, para a amenização da ilha de calor urbana, já está constatada na nossa pesquisa”, afirma a pesquisadora Margarete Amorim, professora da UNESP e diretora-presidente da Associação Brasileira de Climatologia (ABClima).

“A área da agricultura urbana é continuamente irrigada. O fato de ser irrigada, para o efeito do clima, tem um diferencial em relação às áreas não construídas comuns. Ela tem mais água no sistema, o que ameniza, tira um pouco o calor da atmosfera”, completa.

A análise dessa relação é feita dentro do contexto de quatro cidades: Natal, Florianópolis, Presidente Prudente e Álvares Machado. As duas últimas, localizadas no Estado de São Paulo, estão em estágio mais avançado e são acompanhadas de perto por Amorim. A temperatura do chão é medida com o auxílio de um satélite, enquanto a temperatura do ar é registrada por sensores. Com a aplicação dessas tecnologias, é feita a comparação entre áreas com agricultura e sem agricultura, assim como daquelas com diferentes níveis de construção.

Diferença da temperatura costuma ser grande

Uma imagem registrada por satélite no dia 18 de janeiro de 2016 constatou uma variação de 28° C a 39° C nos valores absolutos de temperatura em Presidente Prudente. A intensidade máxima de ilha de calor na cidade foi de 11° C, principalmente em regiões com pouca área verde. Já em locais com agricultura urbana, o número foi bem menor, com 7° C de intensidade. Em regiões de agricultura periurbana – áreas nos limites da cidade – o registro foi de 4° C.

“Em Prudente tem uma ilha de calor, em determinado episódio, que algumas áreas estão cerca de seis graus mais quentes do que outros, o que é uma informação muito importante. Dependendo de quem está lá, isso pode ser mais ou menos grave, dependendo das condições que as pessoas têm para se proteger dessa situação”, relata a pesquisadora.

Calor intenso preocupa no mundo todo

O risco para quem vive em áreas urbanas de calor intenso pode ser grande. O problema, que tem os idosos como principais vítimas, já vem recebendo atenção especial em alguns lugares, como Inglaterra, onde foram registradas 892 mortes por ondas de calor durante 2019, conforme relatório do Public Health England.

No Brasil, também há motivos para preocupação. Segundo pesquisa publicada em 2018 na revista científica PLOS Medicine, o número de mortes relacionadas a ondas de calor em território brasileiro deve aumentar em 25% entre 2031 e 2080, se comparado ao período de 1971 a 2020. O País, inclusive, será um dos mais afetados.

Áreas verdes ainda perdem para o concreto na periferia

Um dos lugares que pode apresentar esse tipo de risco aos seus moradores é o distrito de São Mateus, onde está a horta de dona Terezinha. Um estudo de 2016, realizado por Hugo Rogério Barros (USP) e Magda Adelaide Lombardo (Unesp), classificaram a região como um dos locais com ilha de calor mais forte dentro do munícipio de São Paulo.

Apesar do trabalho duradouro de Terezinha e de outros agricultores urbanos, as áreas verdes proporcionadas pelas hortas ainda perdem para o concreto que predomina nas periferias paulistanas, até porque não é tão fácil ingressar na produção de alimentos. Segundo Terezinha, o poder público oferece ajudas pontuais, entre elas o serviço de um agrônomo e a realização de feiras, mas viver da terra ainda é uma batalha.

“Você pega um lugar cheio de lixo, cheio de mato, e tem que fazer muro, cercar, se prevenir para que  ladrão não entre. A gente passa por isso, mas vai levando. Falta muro, falta tudo. Tendo apoio, teria a possibilidade de fazer mais hortas urbanas na cidade, mas ainda é pouco. A maioria das coisas a gente que compra, faz tudo”, diz a agricultora.

Terezinha abriu as portas de sua horta em São Mateus com a criação da loja “Sabor da Vitória”, em abril de 2018. Desde então, os moradores do bairro podem conhecer o local, atestar a natureza orgânica dos produtos e comprá-los. “Nós vamos para a feira há anos e a própria comunidade não sabia que eu fazia esse tipo de plantação”, explica.

Satisfeita com o rendimento obtido pelo cultivo, ela reconhece que a mudança causada pela agricultura urbana, tanto em sua vida quanto na dos outros, foi positiva.

“A agricultura urbana é importante. Primeiro lugar, porque protege o terreno dos entulhos, do lixo, dos ratos, e ainda vamos respirar oxigênio puro. Em segundo  lugar, a própria população se alimenta desse alimento saudável e não precisa ir tão longe, nem comprar verduras com muito veneno. Em terceiro, são terrenos que estavam abandonados e que foram ocupados por pessoas que sabem o que estão fazendo dentro da cidade, protegendo o meio ambiente”, completa.

Política Nacional de Agricultura Urbana

O incentivo que Terezinha espera pode vir de Brasília. Em novembro do ano passado, a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural aprovou o Projeto de Lei 303/19, que institui a Política Nacional de Agricultura Urbana. O texto prevê meios de disponibilizar imóveis da União, que estejam desocupados ou subutilizados, para a prática da Agricultura Urbana.

A proposta tramita em caráter conclusivo e ainda será analisada pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Algumas cidades, porém, já têm suas próprias políticas de apoio à agricultura urbana.

“Isso deveria receber uma atenção especial do poder público para incentivar as pessoas a transformar essas áreas, que hoje são problemáticas para as cidades, até porque ficam terrenos vazios, podendo contribuir para a proliferação de vários males. Poderia ter um uso social mais importante, que pudesse não só melhorar as condições da atmosfera, como também as condições de vida de uma parte da população desprovida de condições mínimas de sobrevivência. É uma saída importante que o poder público precisa se atentar, incentivar e apoiar os agricultores urbanos”, avalia Margarete Amorim.



Fonte: iG - Último Segundo



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