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Nos inspiremos em Greta, mas sejamos também Josés, Marias, Severinas e Joãos pelo clima

Compartilhe:     |  20 de novembro de 2019

No dia 7 de novembro ocorreu o Encontro Internacional sobre Clima e Juventude, o evento fez parte da Conferência Brasileira de Mudança do Clima, em Recife. Estiveram presentes algumas personalidades jovens envolvidas no ativismo pelo clima e meio ambiente no Brasil e em outros países e que contaram as suas experiências pessoais. Muito foi dito no decorrer do dia, mas o que ficou latente e foi levado à reflexão foi o porquê os jovens brasileiros ainda não estão mobilizados por essa luta que é tão importante para o mundo.

Nayara Almeida, ativista do Fridays For Future Brasil, contextualizou o avanço do movimento jovem pelo clima e meio ambiente falando de apontamentos científicos, o qual mostra que estamos agora passando por uma emergência climática e que se nada for feito chegaremos a um colapso.

Nayara também falou sobre como tem sido a sua experiência pessoal na militância, a qual começou com uma inquietação após uma palestra na escola e tornou-se modo de vida depois que conheceu o Engajamundo, um grupo de jovens espalhados por vários lugares do Brasil que tem na agenda o enfrentamento de problemas ambientais e sociais do país. Ali ela pôde conhecer também Greta Thunberg e começar no ativismo do Friday For Future.

“ A gente quer chegar em lugares que o movimento climático ainda não chegou. Se vocês pesquisarem vocês vão ver, no Brasil e em outros lugares, quem são as pessoas que estão fazendo o movimento climático, e muitas vezes são pessoas privilegiadas, financeiramente ou através do conhecimento, e não deve ser dessa forma, especialmente se você ver quem são as pessoas mais vulneráveis com as mudanças climáticas. Então a gente que chegar nesses ambientes e empoderar esses jovens”, afirma Nayara.

Rebecca Freitag é ativista do Fridays For Future Alemanha e também delegada jovem da ONU pela Alemanha, ela acredita que sim, há privilégios em se poder sair às ruas e ter conhecimento e educação para isso, em vir de famílias que entendem e aprovam esse tipo de engajamento, e em também ter o apoio de outros setores da sociedade.

“Mais de 30 mil pesquisadores assinaram uma petição apoiando o nosso movimento e nos ajudaram a definir seis demandas fundamentais. Eles estão se chamando de ‘Cientistas para o futuro’, temos ‘pais para o futuro’, ‘professores para o futuro’ e também ‘empreendedores para o futuro’. Empresas mais ambiciosas que o nosso governo, e é exatamente o que nós precisamos, mostrar para a opinião pública que nós somos a maioria da sociedade que quer ver uma mudança nas ações do clima” declara Rebecca.

Freitag diz também que “acho importante para o Brasil também tornar isso mais visível e não cometer o erro de simplesmente trabalhar separadamente, mas é necessário se unir para promover mais ações contra as mudanças climáticas” finaliza.

A CEO e fundadora do Youth Climate Leaders, Cássia Oliveira Moraes, que atua há muitos anos na área de cooperação internacional e meio ambiente, falou sobre os possíveis futuros que podemos ter olhando do nosso cenário atual:

“ Tem vários futuros possíveis, um deles é muito ruim, de acabar com boa parte dos ecossistemas da Terra, da Amazônia virar uma savana, de São Paulo virar um deserto. Um bilhão de pessoas migrarem até 2050, um terço de Bangladesh submergir… Então, esse futuro tá aí se colocando, e a se gente não fizer nada hoje ele vai prevalecer. Ainda dá tempo de muda-lo e construir um que a gente quer e merece” explica Cássia.

Moraes comentou que o que estamos vivendo nos últimos anos é um “tirar as máscaras” e deixar vir à tona um problema que não dá mais para ignorar “identificar, reconhecer e curar essa ferida, porque ainda dá tempo”

O tema em questão eram as mudanças climáticas, porém ficou visível que não há possibilidade de levantar esse questionamento sem pensar e fazer o recorte de classe, gênero e raça. Foi uma pergunta da plateia feita pela ativista do movimento negro, Suzana Santos que aprofundou a reflexão sobre o tema.

Suzana sentiu a falta do recorte racial e de representantes negros ali nas mesas e afirmou que a grande mídia deturpa a imagem da periferia enquanto produtora de conteúdo, frisam e afirmam que nela só existe a produção de violência e esquecem quem está sofrendo há mais tempo com as mudanças do clima, por exemplo, e que essa é uma problemática histórica.

“Os jovens negros não têm perspectivas de futuro no Brasil, é um país extremamente violento e ele é construído assim”, Suzana também questionou se com essa realidade o que é mais emergente para a população negra e periférica, lutar pelo clima ou pela sobrevivência, porque, segundo ela, não dá para discutir mudanças climáticas sem falar de racismo.

A coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Mudanças Climáticas na Organização de Jovens Engajamundo, Karina Penha respondeu à pergunta com a sua vivência enquanto mulher negra, maranhense e periférica.

“Quando pela primeira vez eu saí do Brasil para uma conferência da ONU, que foi no Marrocos, nós éramos treze pessoas e eu fui a única pessoa negra da delegação. Quando eu cheguei dentro da conferência, eu olhava para as mesas e eu era uma das poucas pessoas negras. Da América Latina não tem, você vê europeus, mas você quase não vê pessoas da América Latina e pessoas negras” explica Karina.

A coordenadora do Engajamundo comentou que mesmo ocupando esse cargo, tem problemas que outras pessoas não têm, como a falta de acesso a internet, o tempo que leva para chegar em casa diariamente e, mesmo consciente da importância da sua agenda, compreende o porquê as greves no Brasil são diferentes das de fora do país.

“Não dá para chegar nos seus familiares que estão desempregados e falar sobre clima. A gente tem muito para se preocupar antes de se preocupar com o clima”

O Brasil é o país que mais mata LGTBQIA+ no mundo, de acordo com o relatório do Grupo Gay da Bahia, 141 pessoas foram mortas até o dia 15 de maio deste ano. Os casos de feminicídio apontam 344 casos no país em 2019, sendo 207 mortes e 137 tentativas de crimes ocorridos em todos os estados brasileiros e Distrito Federal.

A população negra é a principal vítima de homicídio no Brasil, ela tem 2,7 mais chances de ser vítima de assassinato do que brancos, isso baseado no informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE. Só em 2019 mais de 5 crianças foram mortas em comunidades do Rio de Janeiro.

Povos indígenas estão sendo massacradas, como o caso do guardião da floresta, Paulo Paulino Guajajara, assassinado no estado do Maranhão dentro da Terra Indígena Arariboia, no dia 1 de novembro também de 2019. Esses dados comprovam a fala e questionamento da militante Suzana Santos.

Soma-se a isso o racismo ambiental que as populações, na maioria periféricas, sofrem, como explica o pesquisador e mestre em engenharia ambiental, Ygor Vieira “Vindo para o recorte, no caso de Recife em específico, um dado do IBGE de 2018 diz que aproximadamente 13,4% da população vive em áreas de risco, e são áreas de risco diretamente afetadas por eventos ocasionados por conta das mudanças do clima, alagamentos, deslizamento de barreiras, uma consequência das chuvas, que tem acontecido de forma mais brutal”

Ygor salientou também que “E quando a gente traz o recorte nordestino e pernambucano, as pessoas esquecem que a maior parte dos municípios de Pernambuco estão na região semiárida, que é a região que tem mais dificuldade de acesso à água e não dá para esquecer que clima é água e ambos são existência” comenta.

O geógrafo Mirim Ju Yan, acrescentou à discussão o seu ponto de vista enquanto representante dos povos indígenas na mesa “A questão que nos envolve realmente não é só o clima, e o clima não é o centro do debate, o clima é um fenômeno que abrange a conexão com todos os outros debates. E antes de falar do clima eu tenho que cuidar da minha espiritualidade, da minha comunidade, saber se a gente não está passando fome, sede ou sofrendo violência demais, se a gente tem uma perspectiva de vida, mas essa perspectiva não pode ser do olho do colonizador” afirma.

A jovem sueca, Greta Thunberg, uma das principais figuras das greves globais pelo clima, foi muito citada pelas mesas, todos concordam que ela deve servir como mais uma inspiração, mas não a única, como comentou Ygor Vieira “Acho muito importante o que Greta tem feito em termos de visibilidade, não quero deslegitimar isso, porque não vou, mas não dá para pensar que vamos todos ser Gretas. Acho que sejamos todos Josés, Marias, Severinas e Joãos. Porque são essas peculiaridades que vão fazer com que as conversas climáticas percam esse recorte colonizado que ainda tem. Que infelizmente ainda é um recorte de privilégio” finaliza.



Fonte: Envolverde - Agência Mural – Raquel Porto



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