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“Nosso problema não é a tecnologia, são os seres humanos”

Compartilhe:     |  13 de janeiro de 2020

Aos 43 anos, ele é um dos pensadores mais celebrados e influentes da atualidade. Com jeito sério e olhar observador, magnetiza plateias e interlocutores mundo afora, valendo-se da lucidez de suas ideias e da natural verve didática para abordar temas espinhosos e ainda cercados de tabus. Em sua recente passagem pelo Brasil, em novembro, não foi diferente.

O historiador, filósofo e escritor israelense Yuval Noah Harari – autor de “Sapiens: uma breve história da humanidade”, “Homo Deus” e “21 Lições para o Século 21” – best-sellers que, juntos, já venderam mais de 20 milhões de cópias em todo o planeta – participou de encontros em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e foi entrevistado no programa “Roda Vida”, da TV Cultura.

Graças ao incontestável sucesso literário, Harari vê aumentar a cada dia a sua legião de admiradores. Não por acaso, nos últimos dois anos, ele se reuniu com figuras do porte do presidente da França, Emmanuel Macron, da chanceler alemã, Angela Merkel, e do fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, com quem conversou sobre sociedade, política e o futuro da tecnologia.

Durante o “Roda Viva”, Harari abordou questões recorrentes em suas obras, como os riscos da inteligência artificial e da bioengenharia, os rumos ainda incertos do mercado de trabalho em face dos avanços tecnológicos, a importância da cooperação global para o enfrentamento das mudanças climáticas e incentivou a busca do autoconhecimento pelas pessoas.

Categórico, afirmou que a revolução protagonizada pela inteligência artificial atingirá de forma mais pesada os países menos desenvolvidos. Mas frisou, também, não haver qualquer evidência de que robôs estejam a caminho de ganhar consciência e se rebelar contra humanos. No campo da crise climática, citou o Papa Francisco como exemplo de influência positiva e alertou para os riscos futuros, caso nada seja feito pela atual geração.

“Os cientistas já fizeram o trabalho deles, confirmando a realidade das mudanças climáticas. Agora, é hora de políticos e eleitores decidirem democraticamente o que fazer. Se decidirmos não fazer nada, nossos filhos é que sofrerão as consequências.”

Confira, a seguir, uma síntese do pensamento de Harari:

Controle Digital

“Ninguém sabe qual será o futuro dos dados. Essa é uma das mais desafiadoras questões políticas da atualidade, porque dados e informações digitais estão se tornando o capital mais importante no mundo. Na antiguidade, o capital mais valioso era a terra; e, a política, era a luta pelo controle de terras.”

“Nos últimos dois séculos, máquinas e fábricas substituíram a terra e passaram a ser o capital mais importante. A política passou então a ser a luta para controlar as máquinas, e a ditadura acontecia quando a maioria das máquinas e fábricas se concentrava nas mãos do governo ou de uma pequena aristocracia.”

“Agora, os dados estão substituindo as máquinas como o principal capital. Ditadura, hoje, significa a concentração ou controle de uma grande parte desse fluxo de dados por um governo ou por poucas corporações – e precisamos evitar isso. No entanto, ainda não sabemos como fazê-lo. Afinal, temos milhares de anos de experiência na regulamentação da posse de terras e de máquinas, mas praticamente nenhuma em regulamentar a posse de dados. Por isso, nem eu e nem ninguém pode prever como será esse mercado daqui a 20 ou 30 anos.”

Humanos e Deuses

“Descobertas científicas e invenções estão nos dando um poder imenso. Mas, não temos compreensão e responsabilidade para usar esse poder com sabedoria. Já vimos isso acontecer antes, com a energia nuclear. Cientistas deram à humanidade o poder de criar energia muito barata ou de destruir o mundo com bombas.”

“Agora, estamos vivenciando isso novamente e de forma até mais extrema. A maioria da população mundial – incluindo grande parte dos políticos – tem limitado entendimento sobre inteligência artificial, biotecnologia e bioengenharia, assim como sobre seus potenciais impactos.”

“Essas tecnologias estão nos dando poderes divinos de criação, alçando os seres humanos à condição de deuses. E afirmo isso não como metáfora, mas em sentido literal. Estamos adquirindo habilidades que, tradicionalmente, eram consideradas divinas, como a capacidade de fazer reengenharia na inteligência artificial ou até mesmo de criá-la. O desafio é tomarmos decisões sábias sobre o uso das invenções e avanços.”

Trabalho e Educação

“Pela primeira vez na história, não fazemos ideia de como estará o mercado de trabalho daqui a 30 anos. Prever o futuro sempre foi tarefa difícil. Mas, no tocante às habilidades básicas de que as pessoas precisavam (para exercer diferentes funções), a mudança era muito mais lenta. Então, sabíamos o que era preciso ensinar à próxima geração.”

“Agora, não fazemos ideia de que habilidades as pessoas vão precisar em 2040 ou 2050. A única certeza que temos é: elas vão precisar continuar aprendendo e se reinventando por toda a vida. Não se trata mais de escolher uma profissão aos 20 e poucos anos e trabalhar nela pelo resto da vida. Não. Será preciso mudar várias vezes. E isso, mesmo sendo importante e necessário, é extremamente difícil, porque mudanças são estressantes e, especialmente depois de certa idade, ninguém gosta de ficar mudando sempre, repetidas vezes.”

Empregos x Tecnologia

“O grande problema do avanço da automação não será o desaparecimento de empregos; haverá novos postos. O maior desafio será o retreinamento da mão de obra. Os países ricos terão recursos para isso. Mas, as nações pobres, não. Por isso, poderão ser completamente arruinadas. No século 20, a grande vantagem econômica dos países pobres era a mão de obra barata. No século 21, essa força de trabalho não tem tanta importância, porque é fácil de ser substituída.”

“O que fazer, então? O caminho é criarmos uma rede de segurança global. Sem isso, a revolução da automação criará uma riqueza imensa em alguns países, como China e Estados Unidos, que já lideram essa revolução, e arruinará economias de países em desenvolvimento, que não terão como retreinar sua força de trabalho com a rapidez exigida. E, portanto, não se beneficiarão com a revolução da inteligência artificial.”

Robôs x Humanos?

“É claro que a difusão de informações por meio da ficção científica pode ser bem feita ou mal feita. Infelizmente, em alguns casos, não se faz um bom trabalho. Isso acontece, por exemplo, quando livros e filmes mostram robôs e computadores que, de repente, ganham consciência e se rebelam contra os humanos. No filme O Exterminador do Futuro há uma guerra entre robôs e humanos…”

“No entanto, isso é extremamente improvável de acontecer. Não há nenhuma indicação de que qualquer robô ou computador esteja a caminho ganhar consciência e se rebelar contra nós. Os verdadeiros perigos dos avanços da inteligência artificial são o fato de robôs e computadores tirarem pessoas do mercado de trabalho. Ou, ainda, de uma nova tecnologia ajudar determinado governo ou uma pequena elite a criar uma ditadura digital.”

“Robôs não são maus nem se rebelam; cumprem o programado. E quando um governo é mau, ele os programa para que espionem e controlem pessoas. Nosso problema não é a tecnologia, são os seres humanos. A tecnologia nos dá um poder imenso, mas ainda somos nós que decidimos o que fazer com ela.”

Poder do cidadão

“Optar por não estudar e deixar que outros decidam por você, não significa que você não será afetado. Significa, na prática, que você não terá controle sobre o seu futuro e o de seus filhos. Só estudar também não é suficiente. É preciso se organizar com outras pessoas para fazer mudanças reais. Cinquenta pessoas que se unem, criam uma organização e cooperam entre si têm muito mais poder do que 500 pessoas fazendo algo individualmente, isoladas.”

Sentido da vida

“Muitos perguntam: o que vai acontecer com o sentido da vida dos indivíduos nesse cenário? Essa pergunta surge porque estamos acostumados a pensar na vida humana como um drama de decisões. A vida é como uma estrada. De vez em quando, há uma bifurcação e você precisa escolher. Inúmeras obras de arte se concentram nisso. Em quase todas as peças de Shakespeare e também nas comédias de Hollywood, o herói ou heroína tem de tomar uma decisão crucial: ser ou não ser, casar com o senhor X ou com o senhor Y…”

“Na religião é a mesma coisa. A maioria delas retrata a vida como um grande drama de decisões, e a salvação ou danação eternas dependem da escolha feita. Mas, o que acontece com a vida humana agora, quando cada vez mais é um algoritmo que toma decisões por nós? O que estudar na universidade? Onde trabalhar? Com quem se casar? Não sou mais eu quem decido isso. Mas, sim, um algoritmo.”

“Ainda não temos modelos para entender uma vida na qual quem toma a maioria das decisões por você é um algoritmo: um computador que te conhece melhor do que você mesmo. Isso está nos levando a uma falência filosófica e espiritual. Todos os modelos do passado consideravam a tomada de decisões como a coisa mais importante da vida humana. Precisamos, portanto, de uma revolução filosófica e espiritual para lidar com esses desdobramentos sem precedentes.”

Religião x Ciência

“Não acredito que haja, necessariamente, um conflito entre religião e ciência. A religião pode ser muito útil na verdade. No caso da crise climática, por exemplo, vimos o Papa Francisco dando declarações muito úteis, buscando implantar boas políticas e motivando as pessoas a evitarem a degradação do meio ambiente. Idealmente falando o que deve haver é a cooperação entre ciência e religião, não uma batalha.”

Crise climática

“Atualmente, em vez de progresso, constatamos que a cooperação global está desmoronando. Em alguns países, há desconfiança e descrença crescentes de que a crise ecológica seja real e isso é extremamente perigoso. Por isso, precisamos separar duas questões que as pessoas costumam confundir. Uma é o fato de a crise climática ser real, a outra é o que se fazer a respeito dela.”

“Assim como não cabe a políticos e eleitores assegurar se a crise climática é ou não real, não é papel dos pesquisadores estabelecer uma ditadura científica e dizer que as pessoas estão erradas. Quer uma comparação? Se a pessoa descobre que tem uma doença, ela não reúne a família e vota para decidir o que fazer: ela procura um especialista e segue a orientação dele. Os cientistas, portanto, já fizeram o trabalho deles. Agora, é hora de políticos e eleitores decidirem o que fazer: como cada país vai lidar com essa questão, com que velocidade devemos agir e quais serão os melhores mecanismos. Há muitas opções.”

“Agora, se a maioria (dos países, governos e eleitores) conhece a realidade atual e os impactos futuros previstos e, ainda assim, optar por não fazer nada, essa decisão terá de ser aceita como uma escolha democrática. Particularmente, creio não ser essa uma boa ideia. Se nada for feito, daqui a 50 anos, nossos filhos certamente sofrerão as consequências.”

Autoconhecimento

“A única pessoa que pode explorar a sua mente é você mesmo. Portanto, encorajo todos – do mais pobre ao mais rico – a se conhecerem melhor. Esse é um conselho antigo. Buda, Jesus e Sócrates ensinaram isso. Mas, agora, essa urgência é maior. Há empresas tentando entrar em sua mente, buscando explorar suas fraquezas mentais contra você mesmo. Você precisa ficar à frente, conhecer-se melhor do que o governo, o Facebook ou a Amazon… E isso pode ser feito de várias maneiras. Alguns optam pela terapia, outros escalam montanhas. Há os que, como eu, meditam. Escolha o que funcionar melhor para você. Mas lembre-se: essa é a única coisa que você não pode terceirizar.”

Saiba mais: www.ynharari.com



Fonte: Revista Ecológico - Luciana Morais



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