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Novo guia alimentar aconselha a diminuir o uso de carnes na dieta

Compartilhe:     |  4 de julho de 2019

“É preciso aumentar o consumo de alimentos de base vegetal – incluindo frutas, legumes, oleaginosas, sementes e grãos integrais – enquanto em muitos cenários é preciso limitar substancialmente os alimentos de origem animal”.

Esta é a estratégia primeira recomendada pelos 37 cientistas de 16 países da Comissão EAT-Lancet na publicação “Comida, Planeta, Saúde” lançada ontem à tarde num evento bem concorrido chamado “A Dieta Planetária: Comida Saudável de Sistemas Alimentares Sustentáveis” na Casa Firjan, em Botafogo. A própria Firjan organizou o encontro, junto com EAT Forum e a Unirio.

A segunda estratégia é “Reorientar as prioridades agrícolas de produção de grandes quantidades de alimentos para produção de alimentos saudáveis”, já que, na pesquisa dos cientistas surgiu a constatação de que a agricultura e a pesca, sendo feitas no modo atual, não estão fornecendo diversidade de alimentos “que sustentem a saúde humana e apoiem a sustentabilidade ambiental”. Em terceiro lugar, é preciso, ainda segundo as orientações dos pesquisadores, “intensificar de maneira sustentável a produção de alimentos para aumentar a produção de alta qualidade”.

Trocando em miúdos, a publicação mostra, por A + B, que o atual sistema alimentar global está precisando mudar. É preciso “uma nova revolução agrícola, baseada na intensificação sustentável e impulsionada pela sustentabilidade e inovação do sistema”. Para isso, porém, é preciso também que haja uma “governança rígida e coordenada da terra e dos oceanos”. Em outras palavras, tem que regular, não dá para ficar ouvindo o eterno mantra, de que vai ser difícil alimentar dez bilhões de pessoas se não tiver mais agrotóxicos e se não derem mais terras para o agronegócio.

“É preciso alimentar a humanidade com as terras agrícolas existentes, isto é, implementando uma política de expansão zero de novas terras agrícolas em ecossistemas naturais e florestas ricas em espécies… adotar uma estratégia de ‘Meia Terra’ para conservação da biodiversidade, o que significa conservar pelo menos 80% da riqueza de espécies pré-industriais, protegendo os 50% restantes da terra como ecossistemas intactos”.

Por último, a estratégia seguinte sugerida pelos cientistas é “Reduzir pelo menos pela metade as perdas e os desperdícios de alimentos”. Isto, cá para nós, nem deveria mais ter que se dito. Seja quem for que assuma a frente da distribuição de alimentos precisa pensar em soluções tecnológicas para evitar desperdício. E, seja quem for que assuma o dever de fazer políticas públicas, independentemente de partido ou crença, precisa criar limites para que as grandes corporações não se sintam à vontade para privilegiar o lucro em detrimento da saúde das pessoas, da preservação da biodiversidade, do meio ambiente.

Estive ontem na apresentação deste relatório, durante o evento que contou com a participação de algumas pessoas ligadas, há muito tempo, às questões da produção de alimentos no Brasil. Havia um clima de desesperança nas falas, sobretudo por causa da notícia recente de que o governo de Jair Bolsonaro já autorizou, em apenas seis meses, 239 tipos de agrotóxicos que ainda não tinham sido utilizados no país, mesmo que sejamos os primeiros no consumo destes produtos no mundo. É o “jeito de sempre” de fazer negócio usado pelas poucas corporações que detém, cada vez mais, o monopólio do setor.

Soja, algodão, café, milho e cana são os principais produtos da agricultura brasileira — Foto: G1/EPTV/TV Grande Rio

Soja, algodão, café, milho e cana são os principais produtos da agricultura brasileira — Foto: G1/EPTV/TV Grande Rio

“Isto é um banho de água fria: 239 tipos de agrotóxicos liberados em seis meses! Além disso, temos a questão fundiária, que se baseia numa lei de 1850, que impediu que os negros recém libertos tivessem acesso à terra. Estamos destruindo, assim, as políticas públicas que já havíamos alcançado para a agricultura familiar. Hoje a tendência é: alimento orgânico para quem pode pagar; alimento ultraprocessado para os pobres; fome para os miseráveis”, disse Humberto Palmeira, do Movimento dos Pequenos Agricultores da Via Campesina.

Ao citar boas políticas públicas, Palmeira pode ter se referido, por exemplo, ao Guia Alimentar lançado pelo Ministério da Saúde em 2015, no governo Dilma Roussef, que sugeria a opção de alimentos de origem vegetal e limitar os de origem animal para seguir com uma dieta sustentável para as pessoas e para o planeta. Esta mesma recomendação vemos nesta publicação de quatro anos depois, mas desta vez lançado por organizações distantes do governo. Noves fora, é claro que a ideia de comer menos carnes, sugerida por tantos, não há de ser desprezível.

E por que não se consegue diminuir o consumo de carne, apesar de tantas evidências de que há diversos outros grupos de alimentos que fornecem o mesmo valor nutritivo? Segundo Maureen Santos, da Fundação Heinrich Böll – organização que no ano passado lançou o Atlas do Agronegócio, de 1961 até 2013 o Brasil só ficou abaixo dos Estados Unidos no consumo de carne.

“Somos o maior produtor de carne bovina do mundo e o segundo maior produtor de soja. E 90% do que é produzido de carne bovina no Brasil são consumidos no Brasil. Não dá para falar sobre mudança de alimento se nós não apoiarmos políticas públicas para mudar esta forma de produção”, lembra Maureen.

A regra de ouro para uma alimentação saudável para o planeta e para os homens é consumir alimentos in natura de origem vegetal combinado com alimentos minimamente processados, Carnes, ovos, leite e queijos devem ser consumidos com moderação, lembrou a professora Patrícia Jaime, do Núcleo de Pesquisa da Universidade de São Paulo, que coordenou o “Guia Alimentar para a População Brasileira e a Dieta Planetária”:

“É preciso cozinhar! Os alimentos ultraprocessados são feitos para não se usar a cozinha. Temos que valorizar a alimentação no nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, é ingênuo achar que as pessoas vão parar de consumir alimentos ultraprocessados sem informação. O que simboliza aquele pedaço de carne brilhante que está na bandeja de isopor plastificado no supermercado?”, disse a professora.

De 1961 até 2013 o Brasil só ficou abaixo dos Estados Unidos no consumo de carne — Foto: Pixabay

De 1961 até 2013 o Brasil só ficou abaixo dos Estados Unidos no consumo de carne — Foto: Pixabay

O evento na Casa Firjan seguiu dia todo, mas não fiquei até o fim. Na volta para casa, sob o calor que se vem enfrentando em pleno inverno do Rio de Janeiro, vim pensando em como é preciso fazer links nesses tempos de tantas informações. A temperatura alta que quer dizer que o clima está realmente mudando, o desmatamento que aumentou 60%em relação ao mesmo período do ano passado e nos tira a possibilidade de ter árvores para nos livrar do aquecimento. Neste desmatamento, que se incluam as terras degradadas pela agricultura, que demonstram uma “falta de inteligência para usar o território”, como bem explica Tasso Azevedo, do Observatório do Clima.

E, mais do que tudo, o jeito descuidado de este sistema que nos envolve tem de botar o lucro à frente das pessoas. Busquei, então, o livro de Noam Chomsky, “O lucro ou as pessoas?” (Ed. Bertrand Brasil), de 2010, que conta essa história e mostra que houve sempre, por parte dos governantes, um empreendimento no sentido de deixar à margem a opinião pública, mesmo que o contrário seja dito. Na teoria, os governos democráticos são instituídos para servir ao seu “público interno” e devem se sujeitar à sua vontade. Mas Chomsky conclui:

“Duas boas medidas da democracia que funciona são o grau em que a teoria se aproxima da realidade e o grau em que o ‘público interno’ se aproxima, verdadeiramente, da população”.

Material extenso para boas reflexões.



Fonte: G1 - Amelia Gonzalez



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