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O desafio de alimentar 10 bilhões de pessoas sem destruir o planeta

Compartilhe:     |  5 de agosto de 2019

Como alimentar uma população cada vez mais numerosa sem destruir a natureza? Uma questão crucial para a sobrevivência da humanidade, que foi abordada na última sexta-feira (02) em Genebra.

O relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU dedicado à “mudança climática, desertificação, degradação dos solos, a gestão sustentável das terras, segurança alimentar e os fluxos de gases que provocam o efeito estufa nos ecossistemas terrestres”, que provavelmente será publicado na próxima semana após reuniões a portas fechadas, constituirá a análise científica mais completa sobre este tema feita até hoje.

O texto, de mais de 1.000 páginas, deve destacar a forma como a alimentação industrial, do produtor ao consumidor, a exploração generalizada dos recursos ou inclusive alguns esforços para contra-atacar os efeitos da mudança climática comprometem a capacidade da humanidade para alimentar-se no futuro.

O documento também deve esboçar o panorama de uma sociedade na qual dois bilhões de adultos têm sobrepeso ou estão obesos, com um grande desperdício de comida, enquanto a fome afeta milhões de pessoas em todo o mundo.

As conclusões do informe serão refletidas em um resumo que as delegações de 195 países, reunidas em Genebra, examinarão detalhadamente a partir desta sexta-feira, antes da aprovação de uma versão definitiva.

A reunião servirá para destacar a importância de um uso otimizado das terras, um aspecto ignorado durante muito tempo, segundo os especialistas.

“Quando observamos as repercussões da mudança climática e as contribuições para esta mudança, o setor das terras é incrivelmente importante”, declarou à AFP Lynn Scarlett, da ONG The Nature Conservancy.

“As consequências são amplas e não envolvem o futuro apenas: já estão acontecendo agora e são críticas para o bem-estar das pessoas e da natureza”, advertiu.

A agricultura e o desmatamento representam quase 25% das emissões de gases do efeito estufa.

– “Insustentável” –

A agricultura utiliza um terço de toda as terras da superfície e 75% da água doce do planeta.

Com uma a população que deve se aproximar de 10 bilhões de pessoas até meados do século, contra 2,6 bilhões em 1950, o temor de atingir o limite do sistema é cada vez mais maior.

A carne e o desperdício de alimentos representam dois grandes problemas. Quase 30% da comida produzida termina no lixo.

Embora as terras produzam muito mais alimentos do que o necessário para alimentar o mundo inteiro, ainda há 820 milhões de pessoas que dormem com fome todas as noites”, recorda Stephan Singer, da Climate Action Network.

“Este relatório chega em um momento crítico, pois a agricultura é, ao mesmo tempo, vítima e motor da mudança climática”, explica Teresa Anderson, da ONG ActionAid.

A agricultura extensiva de cereais como a soja, utilizados para alimentar o gado e para os biocombustíveis, contribuem para a destruição das florestas, que armazenam carbono.

“Devemos dar as costas a uma agricultura industrial nociva baseada em produtos químicos, no desmatamento e nas emissões de gases que provocam o efeito estufa”, insiste Teresa Anderson.

O relatório abordará ainda questões como a desertificação e a degradação dos habitats por culpa da agricultura. A cada ano se perde uma superfície de floresta tropical equivalente ao tamanho do Sri Lanka.

Também deve destacar o dilema entre o uso das terras para a alimentação, o armazenamento de carbono através das florestas e a produção de energia a partir de matéria biológica.

As discussões também incluirão o destino das populações indígenas e das mulheres, particularmente expostas.

Em outubro de 2018, outro informe especial do IPCC detalhou o possível impacto de limitar o aumento das temperaturas globais a 1,5 ºC, dentro dos objetivos do Acordo de Paris, e destacou os meios para permanecer abaixo deste limite, considerado muito ambicioso.

Desde então foram criados movimentos cidadãos e centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para exigir que os governos atuem de modo mais rápido contra a mudança climática.



Fonte: ISTOÉ



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