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O desmatamento, os “rios voadores” e a cegueira do governo

Compartilhe:     |  4 de agosto de 2019

Sem proteção à Floresta Amazônica, não haverá chuvas que garantam produção agrícola, atividades industriais, geração de energia hidrelétrica nem abastecimento de água e alimentos nas cidades

Não é segredo para os ambientalistas e especialistas em todo o mundo da importância da Floresta Amazônica para a manutenção do equilíbrio do clima no Brasil, da América do Sul e do ecossistema mundial. Durante o Fórum Mundial da Água realizado pela primeira vez no Brasil, em março de 2018, essa questão foi discutida amplamente. Os chamados rios voadores, umidade de transposição da Amazônia, alimentam as chuvas na maioria dos países sul-americanos.

Essa umidade vem vendo ameaçada nos últimos anos pelo desmatamento crescente da floresta amazônica, que tem se intensificando em 2019. Os rios voadores, que criam e levam as chuvas continente adentro, garantem a vidas das espécies vivas, dos seres humanos, das cidades, da agricultura e das atividades industriais. Sem a proteção desses “rios”, não haverá sustentabilidade para a América do Sul.

Ao desmentir os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrando o crescimento inaceitável desse desmatamento, o presidente Jair Bolsonaro em nada contribui para a preservação de nossa principal floresta, a maior floresta tropical do mundo.

O presidente argumenta, de forma falaciosa, que essa divulgação “dificulta” as negociações comerciais do governo brasileiro com outros países, dando como exemplo o acordo fechado recentemente entre o Mercosul e a União Europeia.

Ao contrário dessa afirmação, o Inpe, entidade respeitada nas nações mais avançados do mundo, tem prestado um serviço exemplar, principalmente ao alertar sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, por meio de imagens de satélites, obtidas diariamente e disponibilizadas em seu boletim mensal.

As informações, acessíveis a qualquer pessoa, são essenciais para que o governo adote providências com o objetivo de inibir essa prática criminosa, que só vem crescendo neste ano. Desde 1988, quando se iniciou o monitoramento da região, 436.258 km² de Floresta Amazônica, quase duas vezes a área do estado de Roraima, o que equivale a cerca de 10% do bioma no País, já foram desmatados.

A gestão ambiental do governo Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem mostrado pouca preocupação com isso e até mesmo estimulado a destruição da floresta, ao adotar ações que limitam a conservação e o combate ao desmatamento.

Além da exoneração de servidores, a transferência de órgãos para outros ministérios e a recente polêmica sobre como gerir o Fundo Amazônia, que recebe dinheiro da Noruega e Alemanha para estimular ações de controle sobre desmatamento e uso sustentável do bioma, o Executivo quer limitar a participação da sociedade civil nos conselhos criados justamente para controlar a atuação governamental.

Não cabe ao governo questionar informações de tamanha relevância. Não é função de um presidente da República impedir a fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em relação à Amazônia, como fez recentemente, ao informar a intenção de reduzir o que chamou de “abusos” da entidade na aplicação de multas.

É função do governo, isso sim, olhar os dados, não se fingir alheio diante da realidade e adotar medidas que protejam nossa floresta, diminuam o desmatamento e defendam o Brasil daqueles que só visam ao lucro. Ao Inpe, cabe continuar a mostrar a realidade dramática de nosso ecossistema. É isso que esperam todos aqueles preocupados com a preservação da floresta amazônica.

*presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)



Fonte: Página 22



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