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O lugar mais infernal da Terra tem vida e estranhos micróbios

Compartilhe:     |  27 de maio de 2019

Uma equipe de cientistas encontrou vida em um dos desertos mais hostis da Terra, a depressão de Danakil, na Etiópia. As temperaturas neste antigo leito marinho situado até 150 metros abaixo do nível do mar alcançam os 50 graus Celsius. A crosta terrestre neste ponto é extremamente fina, tem apenas 15 quilômetros, e sob ela se encontra uma enorme piscina de lava ardente. A água do mar penetra pelo subsolo e produz uma espetacular paisagem de piscinas e chaminés de águas termais que brotam a mais de 100 graus Celsius e tingem a terra com cores espetaculares devido aos minerais e metais presentes no terreno.

“É o lugar mais extremo que encontrei na Terra”, diz Felipe Gómez, pesquisador do Centro da Astrobiologia de Madri e autor principal do descobrimento, publicado nesta segunda-feira na revista Scientific Reports. “Não só é o mais caloroso que se conhece, mas também o mais ácido, tanto que [seu pH] está abaixo de zero, fora da escala”, ressalta.

Desde 2015, a equipe de Gómez investiga os afloramentos hidrotermais de Dallol, em uma zona ao norte da Etiópia vizinha à Somália e Djibuti, onde não vive ninguém e onde não se havia imaginado encontrar o menor rastro de vida.

As pequenas chaminés hidrotermais de Dallol (Etiópia).
As pequenas chaminés hidrotermais de Dallol (Etiópia). F. G.

Os pesquisadores analisaram as paredes das chaminés dos gêiseres. Em 2017, descobriram estruturas esféricas minúsculas em torno das quais se formou uma espécie de carapaça mineral. Os cientistas realizaram análises moleculares que determinam se há DNA ativo nas amostras – um indicador de atividade biológica – e o atribuem a alguma espécie. “Encontramos pelo menos duas espécies de bactérias e arqueias provavelmente novas”, explica Gómez. “Uma delas pertence ao grupo das nanoarqueias halófilas. Trata-se de organismos esféricos de 50 nanômetros [milésimos de milímetro], o que é um terço do tamanho das outras bactérias. Recobrem-se de minerais e acabam cobertos por uma camada de minerais como se estivessem fossilizadas”, descreve Gómez.

“As nanoarqueias halófilas foram descritas pela primeira vez em 2012, estudando um lago hipersalino da Austrália e, quase ao mesmo tempo, nas Salinas da Santa Pola [Espanha]”, relata Josefa Antón, microbióloga da Universidade de Alicante. “Encontram-se muito frequentemente e com certa abundância em ambientes hipersalinos de todo o mundo, mas não foram cultivadas até agora”, ressalta. “O que mais chama a atenção é como parecem ser importantes esses micro-organismos que praticamente acabam de ser descobertos e que afinal estão por toda parte e não os tínhamos detectado, certamente em parte por falta de ferramentas. O ambiente que estudaram é realmente extremo, e isso pode ampliar os cenários onde é possível que haja vida”, acrescenta a cientista.

Imagem de microscópio dos micróbios esféricos achados em Dallol.
Imagem de microscópio dos micróbios esféricos achados em Dallol. F. G.

É a primeira vez que se encontra vida em Dallol, embora outras equipes já tivessem procurado antes. A descoberta tem grandes implicações para a busca de vida em outros planetas. “Este lugar é muito parecido com Marte em sua origem, há bilhões de anos, e também à Terra quando o oceano de lava que a recobria estava se resfriando”, observa o pesquisador. Uma das teorias mais plausíveis sobre a origem da vida na Terra é que ela tenha ocorrido em chaminés hidrotermais, neste caso submarinas, em cujo interior poderia ter começado a se formar primeiro o DNA e depois as membranas protetoras para dar lugar aos primeiros seres vivos. “A descoberta vai nos ajudar a procurar vida em Marte”, diz Gómez, que participa da equipe científica das missões de exploração marciana da NASA Curiosity e também do novo veículo que a agência enviará ao planeta em 2020.



Fonte: EL PAÍS - NUÑO DOMÍNGUEZ



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