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O nosso gato doméstico, história e biodiversidade ameaçada

Compartilhe:     |  2 de junho de 2020

O gato doméstico permitiu à humanidade um salto civilizacional. Escalado pelos antigos egípcios para fazer controle biológico de roedores, foi bravo e eficiente na defesa dos celeiros, uma inovação tecnológica de 10 mil anos atrás. O armazenamento de grãos permitiu o abastecimento das cidades e mudou a vida do ser humano pra sempre, e do gato também. É possível afirmar que o gato é um dos responsáveis pelo processo de urbanização que uma vez iniciado, nunca parou, tornou nossa vida frenética.

Esse ronronento e simpático bichinho caminha conosco através dos tempos, e temos com ele uma relação estreita. Para o escritor americano William Burroughs, o gato é nosso companheiro psíquico. Para Freud, o tempo gasto com os gatos nunca é perdido. Tem toda razão o pai da psicanálise. Devemos nos ocupar dos gatos. E cada vez mais.

Especialistas dizem que 600 milhões deles existam ao redor do mundo. Não é pouco. Parte desse contingente vive dentro do conceito de posse responsável, situação em que o tutor tem plena responsabilidade sobre o animal e restringe sua saída para as ruas. Outra parte enquadra-se no modo semi-domiciliado, que significa que o gato tem tutor, casa e pode acessar a rua quando desejar. Outra parcela é o gato de vida livre, aquele que em meio urbano, rural ou natural não tem dono e é completamente independente do ser humano para sobreviver.

Essas últimas duas categorias, semi-domiciliado e vida livre, representam uma grave ameaça à biodiversidade do planeta. A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) aponta que o gato é responsável pelo desaparecimento de 22 espécies de aves, nove de mamíferos e duas de répteis, representando 14% do total de extinções de animais vertebrados.

Deixar seu gato ter acesso à rua é perigoso. Cada vez que seu bichano dá uma voltinha, uma tragédia ambiental silenciosa acontece. Diariamente milhões de aves e pequenos mamíferos são predados pelos nossos animais de estimação. Vale lembrar que o gato é uma espécie introduzida nos nossos biomas, uma espécie que cresce sem parar em número de indivíduos, ao passo que nossa fauna silvestre declina vertiginosamente.

“Cada vez que seu bichano dá uma voltinha, uma tragédia ambiental silenciosa acontece”.

Passou da hora de olharmos com mais atenção nossa relação com os animais domésticos. Eles, cães e gatos, juntos, se colocados hipoteticamente em um território do globo terrestre, formariam a quinta “nação” consumidora de proteína animal do mundo. Isso não é mentira. E isso é grave pois estimula a produção de animais de abate, que por sua vez impacta sobre a vida selvagem consumindo suas áreas.

Um livro muito interessante lançado esse ano nos EUA e muito bem resenhado no ((o))eco pelo Bernardo Araujo demonstra as tensões provocadas pelos nossos animais domésticos (Leia aqui). O nome do livro diz tudo, Unnatural Companions: Rethinking Our Love of Pets in an Age of Wildlife Extinction. Em tradução livre, Companheiros não naturais (artificiais): repensando nosso amor pelos pets em tempos de extinção da vida selvagem.

O autor, o norte-americano Peter Christie, compila dados muito interessantes sobre o ecossistema do seu país. É de fazer inveja o cuidado que esse povo tem de saber quantitativamente o tamanho do problema que enfrenta. Por exemplo, entre seis e 22 bilhões de pequenos mamíferos são predados por gatos nos EUA, anualmente.

No Brasil, infelizmente não temos números e registros suficientes. Não sabemos quantas aves e mamíferos selvagens são predados por animais domésticos. Entretanto, temos alguns valorosos esforços para mitigar o impacto dos nossos companheiros não naturais na vida silvestre. Escolhi para essa coluna três iniciativas importantes realizadas em ilhas, por conta da fragilidade dos ambientes insulares.

Erradicou espécies de animais e plantas invasoras da Ilha de Trindade, distante 1.200 km da cidade de Vitória, no Espírito Santo. No relatório emitido pelo Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Grupo de Ecología y Conservación de Islas, do México, há apontamento de ações na ilha até o ano de 2010, demonstrando resultados positivos e informando que a vegetação natural da ilha, assim como espécies de aves endêmicas quase extintas, voltaram a compor o ecossistema. O gato, segundo o registro, foi erradicado em 1989.

No site da Invasive Species Specialist Group (ISSG), uma organização que trabalha pela redução da presença de espécies invasoras em ambientes selvagens no mundo inteiro, é possível ter acesso ao relatório em inglês (Clique aqui).

Expedição do veterinarios para a Ilha dos Gatos na baía de Sepetiba. Em primeiro plano, Eduardo Pedroso, do lado a Dra. Amélia de Oliveira, médica veterinária e comandante da expedição. E ao fundo Jorge Grego, dono do barco, guia e grande conhecedor da região. Foto: Eduardo Pedroso.

Em setembro de 2018, o projeto Veterinários na Estrada, capitaneado pela médica veterinária Dra. Amélia Oliveira, fez uma intervenção na ilha Furtada, também conhecida como Ilha dos Gatos, localizada na baía de Sepetiba, litoral sul do Rio de Janeiro. Nessa ação, a quarta expedição do grupo, não houve tentativa de erradicação dos gatos do local, e a opção foi pelo método de captura, esterilização e devolução (CED).

A rotina de trabalho da equipe de profissionais e voluntários dedicados a amenizar o impacto do gato doméstico sobre a pequena ilha está registrada no documentário dirigido pelo cineasta e geógrafo Diego Lara.

O filme, um média metragem de 22 minutos, foi exibido em 2019 no Cine Santa Tereza em Belo Horizonte e está disponível para todo público no Youtube.

Da esquerda para direita, Ricardo Siqueira, médico veterinário da Ampara Animal; Ricardo Araújo, analista ambiental do ICMBio e Eduardo Pedroso. Foto: Arquivo Pessoal.

Em setembro de 2019 um grande trabalho de esterilização de gatos de vida livre e semi-domiciliados aconteceu na ilha principal do arquipélago, a única ilha com população humana. A ONG Ampara Animal, o ICMBio e a administração local, juntaram esforços e permitiram o trabalho de técnicos e voluntários na tentativa de controlar a população de gatos que ameaça as espécies nativas, como aves marinhas, e especialmente o mabuya, um pequeno lagarto que é o símbolo local e virou a proteína do gato na ilha, que dele muito se alimenta.

Uma matéria publicada no site Olhar Animal conta como foi a operação que esterilizou 600 animais domésticos do local. Um filme também documentou a ação.

Mais ações como essas, maior dedicação do meio acadêmico e campanhas de conscientização precisam acontecer o mais rápido possível. A presença de animais domésticos em unidades de conservação é uma realidade muito cruel com os animais nativos do Brasil.



Fonte: ((o))Eco - Eduardo Pedroso



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