Entrevista

“O papel das mulheres na ciência é fundamental”: entrevista com a cientista equatoriana dra. Patricia Castillo Briceño

Compartilhe:     |  18 de abril de 2021

Uma entrevista com a bióloga marinha equatoriana

A contribuição das mulheres na ciência nem sempre foi reconhecida. Nesta ocasião, entrevistamos a dra. Patricia Castillo Briceño, bióloga marinha equatoriana, codiretora do projeto BIOMA equatorial e acidificação oceânica (EBIOAC), e cofundadora da Rede Equatoriana de Mulheres Cientistas (REMCI).

Belen Febres: Gostaria de começar pela contribuição do seu trabalho, você pode nos contar um pouco sobre sua pesquisa?

Claro. Eu pesquiso como o funcionamento dos organismos marinhos é modificado por fatores ambientais. Atualmente, estudo a acidificação dos oceanos, que faz parte das mudanças climáticas e é causado pelo excesso de CO2 gerado pelo uso massivo de combustíveis fósseis, que alteram a química da água com implicações à vida marinha.

Desde que voltei ao Equador, em 2014, estou pondo em prática o que aprendi durante meus estudos de pós-graduação para avaliar como as condições de acidificação afetam espécies nativas do país, incluindo peixes, moluscos e crustáceos. Isso é muito importante, porque o Equador é uma das regiões mais ricas em biodiversidade marinha e um dos pontos mais propensos aos riscos derivados da acidificação oceânica. A falta de dados locais limita nossa capacidade para responder a esses riscos, por isso tenho dedicado grande parte do meu trabalho a posicionar o tema para o desenvolvimento de pesquisas e para promover a tomada de decisões com base em evidências científicas.

Belen Febres: Como surgiu seu interesse por este tema e pela biologia marinha?

Meu interesse começou quando me mudei da minha terra natal, Quito, na serra equatoriana, para Manta, na costa do país. Lá descobri os animais aquáticos e a energia impressionante do mar com toda sua imensidão. Isso me motivou a estudar biologia marinha no Equador, e depois viajei para a Espanha e França para meus estudos de pós-graduação e pós-doutorado. Em 2014 voltei, porque meu objetivo sempre foi contribuir para meu país.

Belen Febres: Você teve alguma dificuldade neste processo?

Foto cedida por Patricia Castillo Briceño, PhD.

No início não foi fácil ser estrangeira, viver com outras regras e diferentes estilos de vida, às vezes em outros idiomas, como na França e no Reino Unido; no entanto, essas experiências enriquecem e são oportunidades de pesquisa de alto nível. De volta ao Equador, a dificuldade esteve em iniciar a pesquisa já que ninguém trabalhava neste tema e o acesso a recursos e tecnologia é limitado, mas tem sido gratificante, pois conseguimos fazer mudanças na política pública relevantes nesta área no país.

Belen Febres: Você também criou a Rede Equatoriana de Mulheres Cientistas (REMCI).

Sim. Nossa iniciativa nasceu em 2016, quando algumas cientistas começaram a falar pelo Twitter sobre a necessidade de criar espaços que fortaleçam a participação de mulheres na ciência e de posicionar este tema na agenda nacional. Depois, vimos que uma forma de consolidar nossos esforços era o trabalho nas redes e assim criamos a REMCI. Agora, seguimos ampliando e diversificando nossa rede, sempre a partir da sororidade e do apoio para combater essa ideia imposta de que precisamos competir entre nós para nos sobressair.

Belen Febres: Por que especificamente uma rede de mulheres?

Porque ser mulher influencia muito. Não é comum escutar que uma menina sonha em ser cientista, e isso se deve à educação e à sociedade que estabelecem papéis de gêneros desde muito cedo. Marcam seu caminho com as matérias que são ensinadas, com os “elogios” que dão (dizem que você é bonita, nunca inteligente), e com os modelos que você deve seguir. Eu tive a sorte de a minha mãe ser bioquímica, então cresci brincando com o microscópio portátil dela e sabendo que as mulheres podem estar na ciência. Mas cresci também com a ideia de que há um só caminho: você nasce, casa, reproduz (sempre nessa ordem) e morre. Até que um dia me perguntei: “bom, mas por quê?”, e decidi seguir meu próprio caminho.

Foto cedida por Patricia Castillo Briceño, PhD.

Belen Febres: O que podemos fazer para mudar essas funções?

 

Muitas coisas. Podemos motivar as meninas desde pequenas a considerar diversas opções de vida, e incentivá-las a estudar e avançar na sua carreira. Temos que explicar que o caminho da ciência nem sempre é fácil para que quando uma cientista jovem se depare com situações de insucesso, não pense que há algo errado com seu trabalho ou com ela e se desanime, mas que saiba que essas dificuldades são parte normal do processo. Também, tornar públicas as perguntas impertinentes até que deixem de acontecer. Por exemplo, em uma entrevista para a qual você se prepara com todas as respostas científicas e técnicas sobre seu trabalho, e perguntam se você vai ter filhos e o que seu marido pensa sobre o que você faz; coisas que nunca perguntam aos homens. As gerações seguintes não deveriam passar por isso.

Também faz falta uma mudança estrutural desde as políticas públicas e até a educação formal. Nos livros devem aparecer cientistas nacionais e internacionais, porque existem, mas não se falam delas. Assim poderemos conseguir que tanto meninas quanto meninos cresçam sabendo que nós mulheres somos igualmente capazes e que nosso trabalho científico é igualmente importante para o avanço do conhecimento. Além disso, devemos distribuir as tarefas domésticas, tradicionalmente destinadas às mulheres. Em todo o mundo, especialmente em países como o Equador onde a pesquisa faz tanta falta, é um absurdo perder metade dos talentos por falta de equidade de gênero; é um luxo que não podemos ter. Precisamos de todos os cérebros trabalhando em conjunto.

Por fim, os museus e meios de comunicação devem desempenhar seu papel fundamental, gerando outros padrões de pensamento, tornando visíveis preconceitos e justiças, e ressaltando o trabalho das mulheres em diferentes campos, incluindo todos os ramos da ciência.



Fonte: Global Voices



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