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O que acontece quando uma espécie-chave é extinta da natureza?

Compartilhe:     |  3 de julho de 2015

Algumas das estruturas mais persistentes da história são os aquedutos construídos pelos antigos romanos para levar água das montanhas para as áreas densamente povoadas. Muitos ainda operam hoje, mais de 2.000 anos depois de iniciarem o serviço. O que torna os aquedutos tão fortes é a cascata de arcos apoiando a estrutura. Se você examinar um desses arcos, verá que ele consiste de uma série de tijolos – o que os engenheiros chamam de voussoirs – suportados no centro por uma pedra angular (pedra de fecho ou pedra do topo). Quando a pedra de fecho está na posição, o arco pode se sustentar indefinidamente. Se você remover essa pedra-chave, a estrutura inteira desaba.

Em 1969, o zoólogo Robert T. Paine percebeu que certas espécies em um ecossistema funcionam do mesmo modo que uma pedra angular no arco romano. Ele cunhou o termo espécie-chave para descrevê-las.  Tais espécies têm um papel essencial na estrutura, no funcionamento ou na produtividade de um ecossistema e, como a ponte romana, impede que o ecossistema desintegre-se. Espécies-chave não ganham essa distinção pela sua abundância, mas pela influência. Elas podem ser carnívoras ou herbívoras, plantas ou animais, marinhas ou terrestres. Podem ser muito mais altas que você, como um elefante, ou caber na palma da sua mão, como uma estrela-do-mar.

Foi, na verdade, uma espécie particular de estrela-do-mar que levou ao desenvolvimento do conceito de espécie-chave de Paine. A estrela-do-mar era a Pisaster ochraceous, que vive nas comunidades rochosas na faixa cobertas pela maré no oeste da América do Norte e se alimenta de  mexilhões. Quando Paine removeu a Pisaster de uma área da Baía Mukkaw, em Washington, ele observou uma drástica diminuição na diversidade de espécies. A população de mexilhões, claro, explodiu, mas as outras espécies viram seus números declinarem drasticamente. Das 15 espécies contabilizadas no começo do experimento, apenas oito restaram no fim. Em uma área de controle da qual a Pisaster não havia sido removida, Paine não observou quaisquer mudanças na diversidade de espécies.

Paine caracterizou a Pisaster como uma espécie-chave. Logo depois, ecologistas e biólogos em todo o mundo saíram à caça de identificar outras espécies. Como Paine, para encontrá-las eles usaram experimentos de remoção – tirando uma única espécie, registrando as mudanças que ocorriam e devolvendo os organismos aos seus habitats quando o experimento terminava. No decorrer das décadas seguintes, a lista de espécies-chave cresceu para incluir uma ampla variedade de organismos, incluindo lontras marinhas, vespas parasitas, elefantes, tubarões-tigre, bem como morcegos e pássaros que ajudam na polinização.

O pássaro dodô entraria na lista também?

Pássaro dodô – não tão burro quanto pensávamos

Fora dos experimentos de remoção, condições naturais estão levando as espécies-chave à beira da extinção em certas partes do mundo, o que leva a mudanças significativas em outras populações interconectadas. A lontra marinha é um exemplo perfeito. Como um predador-chave no Pacífico Norte, as lontras se alimentam de ouriços-do-mar, que, por sua vez, se alimentam de alga. Quando as lontras marinhas  se alimentam em sua área, as florestas de algas ficam densas e saudáveis. Mas nos últimos 20 anos, as baleias assassinas começaram a incluir as lontras em suas dietas, já que as presas normais das baleias declinaram. Isso fez com que as populações de lontras marinhas despencassem e as populações de ouriços-do-mar aumentassem rapidamente. Nessas áreas, a alga é quase inexistente. Se a lontra marinha for extinta, outras espécies certamente a seguiriam, e o ecossistema mudaria para sempre.

O pássaro dodô não foi extinto por sua suposta burrice; estudo sugerem que ele era uma espécie-chave, pois sua extinção provou mudanças drásticas no ecossistema da iha Maurício

Outro caso de espécie-chave extinta pode ter ocorrido na ilha Maurício, no Oceano Índico. A espécie era o dodô, um grande pássaro não voador que prosperou até que os exploradores holandeses descobriram a ilha no final do século 16. Então a população de dodô começou a cair rapidamente à medida que os colonizadores derrubavam as florestas e traziam ratos e porcos, que atacavam os ninhos do pássaro para pegar os ovos. Em menos de 100 anos, o dodô tinha sumido, deixado ao abandono nos livros de história como um animal burro incapaz de se adaptar.

Recentemente, contudo, um pesquisador especulou que o dodô pode ter sido uma espécie-chave. Sua evidência vem de outro organismo ameaçado – a árvore Sideroxylon grandiflorum, conhecida como tambalacoque (árvore-dodô ou calvária). A última tambalacoque germinou pouco antes de 1700, sugerindo que o fim da árvore está de algum modo relacionado à extinção do dodô. O pesquisador acredita que o dodô comia o fruto da tambalacoque e, por meio do processo digestivo, ativava a semente. Com nenhum dodô vivo para desempenhar essa importante função, a população da tambalacoque definhou até umas poucas árvores.

Alguns cientistas disputam a conexão tambalacoque/dodô, mas mesmo se a extinção do pássaro não estiver amarrada à da árvores, o estudo de caso ressalta um ponto importante sobre a biologia da preservação: que as conexões entre os organismos não são sempre óbvias e que o desaparecimento de até uma espécie pode ter efeitos de longo alcance. Por essas razões, ecologistas continuam a focar nas espécies-chave como uma maneira de preservar a estrutura e o funcionamento de uma ampla gama de habitats.



Fonte: Howstuffworks - William Harris



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